OSG na Mostra de Cinema de Tiradentes: Festival encerra mais uma edição com premiações
O filme que ganhou na categoria “Melhor Filme” foi o longa ‘Anistia 79’; Veja destaques do último dia

Chegou ao fim a 29ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes no último sábado (31), com uma noite lotada de premiações para consagrar as exibições do festival. Em um balanço feito pela Universo Produções, responsável pelo evento, a mostra deste ano reuniu 39 mil pessoas em Tiradentes, movimentando mais de R$10 milhões de reais na economia local, gerando mais de 2500 empregos direta e indiretamente.
A edição também exibiu 137 filmes, de 23 estados brasileiros diferentes, com 17 atividades formativas com 623 vagas cada, reforçando seu compromisso em abranger e democratizar a cultura.
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Na premiação que encerrou a noite no Cine-Tenda, o longa fluminense, ‘Anistia 79’, venceu a categoria de melhor filme, se consagrando o grande campeão do festival. O documentário dirigido pela cineasta Anita Leandro aborda filmagens da Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, que aconteceu em Roma, em 1979 e os resquícios da ditadura na sociedade brasileira nos dias de hoje, além da impunidade dos torturadores.

Rebobinando a fita, o último dia de festival começou com um bate papo com o diretor do longa exibido na Mostra Aurora, Diego Brauer, ‘Obeso Mórbido’, no Cine Teatro. Ele dá uma visão mais aberta sobre o filme que aborda um jovem no auge dos seus 20 anos que venceu a obesidade, os dilemas da vida adulta e a crise de sua masculinidade, autoestima e autoimagem.

Diego conta que a inspiração veio de sua própria história, mas que apesar disso, sempre viu o filme como uma ficção; inclusive conta que o longa não tem relação com o curta de mesmo nome que produziu em 2018, apesar das nítidas semelhanças abordadas no tal.
O diretor comenta também sobre o fator único, ele foi responsável por roteiro, direção e protagonizar, inclusive com um personagem com o seu nome, o acaba vinculado essa persona à pessoa real:
“Esse é um processo que eu não repetirei em termos de roteirizar, dirigir e atuar. Assim, tinha que ser eu, nesse filme tinha que ser eu atuando. Então acho que as coisas meio que viram uma coisa muito próxima. ter a direção e a atuação num processo como esse. O que muda são as etapas, onde cada momento acontece. Mas, ao mesmo tempo, eu sinto que uma coisa mais psicológica realmente de análise, de colocar alguma coisa realmente pessoal e tentar ser sincero, acho que isso vem bem mais no roteiro.” disse o cineasta.
Após isso, foram exibidos dois curtas documentais na Cine-Tenda “Cores de Laura” e “Anália”, que abordam duas artistas mineiras, abordando suas visões artísticas.
“Cores de Laura” acompanha o cotidiano da ferista naïf Laura, residente de Tiradentes, e transforma garrafas e materiais recicláveis em arte usando seu pincel e a sua criatividade. O curta mostra o processo artístico, sua rotina e tenta abordar o mundo da maneira que a personagem o vê.
Já “Anália” segue um caminho parecido, de mostrar o processo criativo, mas dessa vez com Maria Anália, que produz materiais musicais com objetos descartados, os dando um novo significado. Ela utiliza dos mais diversos materiais diferentes, como metais, sucata para produzir instrumentos musicais não convencionais, buscando a música, o som, mesmo que seja algo desconfortável.
Após a apresentação dos dois curtas, foi o momento de entregar os certificados para os estudantes das oficinas, que aconteceram durante o festival.
Durante o começo da tarde, o público lotou a Cine-Tenda para a exibição do maior filme brasileiro da temporada, “O Agente Secreto”. O longa, que foi indicado em quatro categorias do Oscar - Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Elenco e Melhor Ator (Wagner Moura) - teve sua exibição com o preparador de elenco e diretor assistente, Leonardo Lacca e o ator Carlos Francisco, que interpretou o Alexandre no filme, sogro do protagonista, peça fundamental na história.

O filme conta a história de Armando, professor especializado em tecnologia que foge de São Paulo para voltar ao Recife e fugir do seu passado. Porém, chegando na cidade, ele descobre que sua vida está em risco.
Aqui, Kleber Mendonça Filho faz um grande filme sobre memória; de uma cidade, de uma época e de uma luta. Aborda a história de um homem que foi perseguido por ser quem é e se impôs contra quem acha que tinha o controle. O diretor leva ao pé da letra a regra “show, don’t tell”, traduzido para “mostre, não fale”, dando ao espectador tudo que é necessário para entender a narrativa, os detalhes que estão acontecendo porém não entrega tudo de mão beijada, parte vem da atenção de quem assiste.
A cultura brasileira também é muito exaltada aqui, com o filme se passando durante o carnaval recifense na década de 1970, transportando a audiência para a época. O trabalho de releitura da cidade, locais, ambientação, roupas fazem um grande papel nesse sentimento.
Além disso, o elenco do filme é espetacular, com personagens coadjuvantes adicionando constantemente a profundidade da narrativa, não sendo apenas uma peça do roteiro para a história avançar em momentos x, eles são vivos e fazem suas atividades fora das telas. Dentre os personagens, além da grande atuação de Wagner Moura, que rendeu diversas indicações e prêmios, temos Alice Carvalho, como Fátima roubando a cena nos poucos momentos de tela, e o carisma do presente Carlos Francisco interpretando o carismático Seu Alexandre.
O filme de encerramento da mostra foi Copacabana 4 de maio, dirigido por Allan Ribeiro, que acompanhou um grupo de membros da periféricos da comunidade LGBTQIAPN+, participando do histórico show da Madonna, na praia de Copacabana em 2024.
Enquanto o último filme da Mostra foi exibido no Cine Praça, para homenagear um grande grupo da história da música não só mineira, mas brasileira, o Clube da Esquina. O documentário ‘Ladeiras da Memória - Paisagens do Clube da Esquina’ traz registros de alguns membros do grupo e a união de músicos de diversas idades para fazer uma homenagem e mergulhar de cabeça na memória, nas inspirações e na carreira do clube.
O que encerrou oficialmente o festival foi a entrega das premiações para as diferentes categorias de filmes separados por júri popular e júri oficial. O palco da Cine-Tenda também foi alvo de protestos das diretoras Juliana Antunes e Camila Matos, em defesa de políticas públicas para o audiovisual, especialmente cineastas mulheres.

A lista de vencedores da 29ª Mostra de Tiradentes foi :
Prêmio Carlos Reichenbach – Melhor Filme (Mostra Olhos Livres): Anistia 79 (RJ), de Anita Leandro
Prêmio de Melhor Longa – Júri Popular (Mostra Olhos Livres): Anistia 79 (RJ), de Anita Leandro
Prêmio de Melhor Curta – Júri Oficial (Mostra Foco): Entrevista com Fantasmas (RS/SP), de LK
Prêmio Canal Brasil de Curtas (Mostra Foco): Grão (RS), de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa
Prêmio de Melhor Curta – Júri Popular: Recife Tem um Coração (RN), de Rodrigo Sena
Prêmio Helena Ignez – Destaque Feminino: Crash (RJ), de Gabriela Mureb
Prêmio do Júri Jovem – Mostra Aurora: Para os Guardados (MG), de Desali e Rafael Rocha
Prêmio Abraccine – Melhor Longa (Mostra Autorias): Atravessa Minha Carne (GO/DF), de Marcela Borela
Prêmio de Melhor Filme – Mostra Formação: De Barriga para Cima (ES), do Instituto Marlin Azul e Comunidade Quilombola de Monte Alegre
Menção Honrosa – Mostra Formação: Diálogo Bulbul, de Bruno Churuska, Gledson Augusto, Nicole Mendes, Yan Altino e Zimá Domingos