OSG em Minas: Veja destaques da Mostra de Cinema de Tiradentes
Equipe foi até o festival para entregar o que há de novo sobre o cinema brasileiro

Acontece até 31 de janeiro a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em Minas Gerais, um dos maiores festivais do audiovisual brasileiro, que anualmente abre o calendário cinematográfico do país. Desde ontem (29), O SÃO GONÇALO está presente na cidade mineira e faz um panorama dos filmes que foram exibidos e serão mostrados até o fim do festival, com análises e entrevistas com atores, diretores e o público em geral.
Além de ser um centro de conexão para os apaixonados pela 7ª arte, o evento se torna um espaço de compartilhar, difundir e exibir o cinema brasileiro para novos públicos, em um cinema feito também por pessoas novas. Dentre as atividades presentes, além das apresentações de filmes (tanto de longas, quanto curta-metragem), estão debates, seminários, ‘workshops’ e cursos relacionados à temas como produção e roteiro. É de se destacar também que esta edição é feita em homenagem à atriz e cineasta Karine Teles, conhecida por seus papéis em “Que Horas Ela Volta?”, “Benzinho”, “Bacurau”, entre outros.
A presença do festival deu novos ares ao centro da cidade histórica, espalhando decorações da mostra por todo lugar, batizando espaços locais como a praça da cidade que passa a ser conhecida como “Cine PETROBRAS na Praça”, Largo da Rodoviária em “Cine Lounge” e “Cine Tenda” e o Centro Cultural Yves Alves, em “Cine Teatro”.

CURTA METRAGEM
Quem abriu a série de curtas (filmes com duração menor de 60 minutos) na Cine Praça, foi “O Trilho Invisível do Tempo”, um documentário mineiro, de 18 minutos, falando sobre Alexandre, maquinista do icônico trem Maria Fumaça há mais de 20 anos. É contada aqui a história do condutor, que mostra que este trem que faz o percurso turístico entre São João del-Rei e Tiradentes é mais do que um meio de transporte, é um condutor de sonhos.

O carismático Alexandre é homenageado aqui, e a ele é dado o destaque merecido às famosas figuras silenciosas do dia a dia, nesse caso, a figura responsável pelo transporte de centenas de pessoas todos os dias. O trem é retratado quase como uma entidade, é um ser vivo da cidade, o que passa muito pela história do maquinista, que cresceu à beira da linha, e sempre sonhou em conduzi-lo.
A direção de Luísa Meinberg e Jardel Santos traz uma linda visão sobre esse pedaço histórico do estado, transformando um breve passeio em uma paisagem viva, além de eternizar um personagem histórico da cidade.
O outro curta exibido foi “Dois Tons de Preta”, que também funciona como homenagem à uma figura das Minas Gerais, dessa vez, da trancista e musicista Duda, que usa seus trabalhos como instrumento de valorização de sua negritude e das pessoas ao seu redor.

O curta traz uma boa variedade entre cenas de entrevista com a protagonista e outras que apelam mais para a filosofia e a ficção, usando de uma estética muito particular para consagrar a figura principal. Além disso, o filme também faz uma viagem ao passado de Duda, através do ponto de vista em áudio de seus familiares próximos, contextualizando características da persona e nos colocando no lugar dela, o que facilita entender quem ela é nos curtos 21 minutos de filme.

Existe grande mérito na direção de Elizabeth Ramos e Vitória Iabrudi, que exploram a estética citada anteriormente para aprofundar com imagens e movimentos, os significados passados por Duda no seu trabalho e em sua arte.
LONGA METRAGEM
No começo da noite, no Cine Tenda, foi exibido o primeiro longa do dia, a pre estreia do filme experimental “Para os Guardados”, que mostra um grupo de amigos da periferia de Contagem, cidade industrial de MG, que formam a Aliança Periférica Nacional (A.P.N), com intuito de entregar suprimentos a familiares de companheiros encarcerados no sistema prisional da região. O filme é um retrato muito cru do que envolve a vida de quem é familiar ou próximo de alguém que está preso no Brasil, suas dores e sua sobrevivência por conta da situação.

A obra tem um orçamento nitidamente baixo, o que é contornado com a criatividade dos diretores Desali e Rafael Rocha nas filmagens, aproveitando muito bem do uso da iluminação natural e planos estáticos e longos, como se o que tivesse acontecendo na narrativa fosse milimetricamente calculado para estar dentro da câmera, com grande ênfase nos diálogos entre os personagens.

O desenvolvimento do filme acontece por meio de capítulos, marcados por mensagens de áudio de presos e seus familiares, relatando o aumento da restrição policial no presídio e a falta de suporte aos detentos, porém com um toque de otimismo e esperança, graças a criação e engajamento da A.P.N.
O filme, de certa forma acaba ficando preso nessa estrutura, que o torna 'quadrado', linear, sem altos e baixos, e de certa maneira clichê. O desfecho do longa é um ato musical, que passa a mensagem do desejo por liberdade e justiça, aos encarcerados e aos que ainda sofrem, mesmo já em liberdade, com o que aconteceu durante a prisão.
No encerramento da programação do dia foi exibido “Herança de Narcisa”, estrelado por Paolla Oliveira interpretando Ana, uma filha atormentada por suas memórias, ao retornar para a casa onde cresceu, após a morte de sua mãe, Narcisa.

O filme é um drama familiar com uma boa parcela de terror, conseguindo transitar muito bem entre os gêneros que conversam muito bem, visto que o luto de Ana e a paranoia causada pelo espírito da sua mãe são os pontos chaves do enredo.

Todo esse drama familiar cresce quando Diego, irmão mais novo de Ana, interpretado por Pedro Henrique Müller, entra em cena para trazer um novo ponto de vista sobre a mãe, Narcisa. Um lado mais belo e nostálgico da mãe, numa tentativa de afastar os sentimentos negativos que a protagonista sente. Mas o esforço do irmão, não é suficiente para que Ana supere más lembranças maternas, e ela continua vivendo num mundo em que a casa parece viva, habitada pelo 'fantasma' de Narcisa.
O desenrolar acontece por uma trip de memórias sobre a mãe, a casa, os irmãos e a psique de Ana, que guarda ressentimentos de Narcisa que era uma famosa cantora de rádio e de bares da nostálgica noite carioca dos anos 50/60, e que despertava a paixão de poderosos na época. O que entrega ao público uma mensagem por fora, mas guardando algo obscuro por dentro.
O mistério em volta do que está acontecendo de verdade e a real personalidade da mãe passam muito pelas lentes de Clarisse Appelt e Daniel Dias, que assinam a direção do filme. Tudo é construído de maneira metódica. Somos apresentados à casa, que parece que vai engolindo os personagens, crescendo de acordo com o passar do filme como se fosse um ser senciente.
Segundo a diretora, o filme é sobre buscar entender o que acontece com os pais, a procura pela empatia, e entendimento de que esses pedaços da personalidade são carregados de geração em geração. “Um pouco relacionada à minha experiência, de pensar em questões e tudo isso. O filme partiu do lugar de ‘eu não quero repetir certos padrões dos meus pais’. Esses ciclos (geracionais), se iniciam em dores, traumas, então quando você passa a entender, criar empatia, vem compaixão pelos que vêm antes. A Ana está neste lugar de medo, repulsa da mãe e passa por toda uma jornada relacionada a isso. Esse ciclo é eterno, passado de geração em geração, mas carrega algo bonito, que é o da continuidade, que é: o filho é a cura da mãe", completa a cineasta.