29ª Mostra de Cinema: Penúltimo dia de evento se encerra com grande campanha pelo cinema brasileiro médio
Penúltimo dia da Mostra de Tiradentes reúne debates sobre liberdade, identidade e sonhos periféricos

O destaque do penúltimo dia nos debates da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em Minas Gerais, na última sexta-feira (30), foi a produtora Sara Silveira, que conversou com o público após a exibição do longa “Dolores”, fazendo um 'brado pela valorização do Cinema Brasileiro que faz pensar'.
Mesmo com as ocasionais pancadas de chuvas, o festival manteve o ritmo intenso. A primeira atividade do dia aconteceu no Cine-Teatro, com um bate-papo do público com o diretor do filme “Para os Guardados”, exibido na noite de quinta-feira (29).

O longa experimental foi desenvolvido por um grupo de moradores do bairro Nacional, em Contagem, Minas Gerais, que criou uma rede de suporte para familiares de encarcerados no sistema prisional, a A.P.N (Aliança Periférica Nacional).
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Durante a roda de conversa, os diretores do longa, Desali e Rafael Rocha, e o ator “CJ”, falaram sobre a produção do filme, a temática, o roteiro e responderam perguntas do público à cerca de liberdade, e sobre o que é feito com ela. Os diretores foram questionados sobre algumas escolhas, como a cena em que personagens usam um dialeto criado por eles próprios, por pura brincadeira. Isso acabou funcionando bem e despertou curiosidade sobre o que significava o diálogo dentro do filme.
"A gente estava livre ali, e eu disse ‘Pablo (ator), vou te contar um relato e você pega e complementa como você quiser. Daí disse o relato de uma galera do Rosenberg (presídio), do bairro Nacional mesmo e veio o canto, terminando com uma música do RZO: ‘e o mundão lindão e perigoso como um alçapão. Trago ou sinto a falta de vários irmãos, se liga na missão, coisa do coração. Sofrimento traz a razão. No fim, quem vai rir ri melhor, Periferia segue então’, que é algo lindo” completa o diretor.
Então, seguindo para as exibições, às 18h foi apresentado o longa “Obeso Mórbido”, dirigido, roteirizado e estrelado por Diego Bauer. O longa de 93 minutos, produzido em Manaus, apresenta um ator com histórico de obesidade, que está supostamente no seu auge, profissional e físico, após uma longa maratona de sacrifícios em que conseguiu perder 30kg. Porém essas mudanças vêm acompanhadas de inseguranças e dilemas sobre identidade, masculinidade, gordofobia e autoestima.
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O filme brinca, misturando realidade e ficção, baseado nas experiências do próprio autor, diretor e ator protagonista. Diego está na casa dos 20 anos, morando sozinho e vivendo da carreira de ator peças publicitárias para o comércio de Manaus, onde sempre viveu. Fora dessa rotina, ele
se desdobra fazendo academia e levando a vida tradicional do jovem adulto numa grande cidade, mas longe dos grandes centros onde poderia fazer sucesso nacional.
Diego tem uma obsessão com sua imagem e essa rotina de se mostrar um novo personagem, olhando com desprezo o seu passado, mas também de outras pessoas com sobrepeso, ativa características de um ex-gordo gordo fóbico. Diego também se assume misógino, obcecado por sexo e disposto a usar seu corpo não pelo prazer em si, mas pelo prazer de usar a sua imagem.
Sem pudores, o diretor trabalha seus próprios dilemas estéticos e físicos, e usa desses transtornos internos, para deixar em aberto para o público questões sobre como influenciar ou ser influenciado por quem nos rodeia, para mudanças, hábitos saudáveis, derrocadas e volta ao ponto de partida, no caso de Diego, a obesidade.
O ritmo do filme é moderado, bem ligado ao protagonista que usa de olhares, gestos, comportamentos e poucas, falas quando está sozinho na tela.Já em cenas em que é exposto a diálogos, Diego se permite à reflexões, seja sobre sua sexualidade, masculinidade e sua relação com “amigos” e família. As cenas expõem os seus arredores e o que pensam esses que estão dialogando. Mas, na tela apenas transparece o que parece se sentir obrigado a falar por ser quem é, ou acha que se tornou.
Obeso mórbido é um filme desconfortável para quem assiste. Mostra um relato cru sobre o vício em comer, cenas de distúrbios alimentares, que causam abalos por crises de imagem e no relacionamento interpessoal do homem brasileiro médio.
Outro longa do penúltimo dia da Mostra de Tiradentes foi “Dolores”, que conta a história de uma mulher que sonha em abrir um cassino em São Paulo, e no seu aniversário de 66 anos, tem uma visão de que sua vida vai mudar, decidindo correr atrás desse sonho.

O filme se desenrola na busca do sonho de Dolores e da retomada do relacionamento com sua filha, Deborah e a neta, Duda, que haviam se afastado da idosa após a morte do patriarca da família. Ele aborda todos os dramas individuais de três mulheres periféricas e como cada uma à sua maneira corre atrás de seus sonhos, constantemente sendo interrompidas e atrapalhadas por homens que estão relacionados à suas histórias.
É importante destacar e parabenizar o trabalho de produção e montagem de elenco, porque a semelhança física de Deborah e Duda é impressionante. Inclusive as duas personagens são as que mais passam por uma 'montanha russa' de situações por conta das consequências de Dolores correr atrás dos seus sonhos, que estão interligados ao seu vício em apostas.
Deborah, assim como a mãe, é empreendedora, costureira, focada em vender seus produtos próximos à penitenciária, onde está preso seu companheiro, a quem faz visitas regulares e aproveita para conseguir uma renda extra nos dias de visitas. Seu sonho é expandir os negócios e depois disso se mudar para o Paraguai.
Enquanto isso, Duda sonha em procurar um abrigo das confusões de casa, trabalhando em uma loja de armas, onde seu chefe, Enzo, participa de um esquema sujo envolvendo PMs, e planeja ir aos Estados Unidos para expandir os negócios, levando seu braço direito junto, o que ilude a jovem.
A assinatura da direção é de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes, que fazem um bom trabalho em mostrar que sonhar é o direito de todo mundo, e correr atrás disso é um direito, independente de qualquer característica da pessoa. A produção é de Sara Silveira, que participou de uma roda de perguntas após o filme e foi o grande destaque da exibição, mostrando ênfase na valorização de obras cinematográficas brasileiras, que procuram principalmente a reflexão. Ela dedica a produção do filme a Chico Teixeira, que faleceu em 2019 e roteirizou o filme, que faria parte da ‘Trilogia dos Afetos’, com “A Casa de Alice”(2007) e “Ausência” (2014).
“Me sinto muito bem e honrada de ter a oportunidade de contar como esse filme foi feito e tenho certeza aí que Chico deve estar à volta, porque entrego a ele aos orixás, a Deus, à Lua, à cidade de Tiradentes, à Dolores, e claro pra vocês, que sem vocês a gente não existe, sem o olhar do público da gente", disse a produtora em seu depoimento dedicado ao cineasta.
Sara também enfatizou que esse tipo de filme é o caminho para o cinema brasileiro continuar chegando ao Oscar. “O cinema de autor, reflexivo, precisa ter mais espaço, para que a gente continue crescendo e continue chegando ao Oscar. Fazer um cinema revolucionário é o caminho para o cinema brasileiro, e eu vou morrer velha e revolucionária pelo cinema brasileiro! Eu sonho com cinema brasileiro médio, que faz pensar, que te toca, e se isso aconteceu, eu já ganhei porque eu entrei na mente de vocês. É isso que é importante!”, finalizou.
Sob supervisão de Marcela Freitas