Brasil reduz homicídios enquanto feminicídios crescem, aponta Anuário da Segurança Pública
Relatório registra a menor taxa de mortes violentas em 14 anos, mas aponta alta dos feminicídios no país e aumento das mortes violentas intencionais e da letalidade policial no Rio de Janeiro

O Brasil registrou, em 2025, a menor taxa de mortes violentas intencionais dos últimos 14 anos, de acordo com o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Apesar do avanço, a redução da violência não ocorreu da mesma forma para todos os grupos. Enquanto os homicídios caíram, os feminicídios e as tentativas de feminicídio voltaram a crescer, mantendo a violência contra as mulheres como um dos principais desafios do país.
O contraste também aparece no Rio de Janeiro. Enquanto o Brasil registrou queda das mortes violentas intencionais, o estado seguiu na direção oposta, com aumento desse indicador. O Anuário revela o crescimento da participação das mortes decorrentes de intervenção policial no total de mortes violentas registradas no estado, reforçando um cenário que destoa da tendência nacional.
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Ao todo, o país registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, um aumento de 4% em relação ao ano anterior. Outra crescente foi o número de tentativas de feminicídio, visto que 4.189 mulheres sobreviveram, representando uma alta de 5,9%, o equivalente a uma tentativa a cada duas horas. Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os números mostram que a violência letal contra mulheres segue avançando mesmo com a queda geral dos homicídios.
Os números revelam ainda que o feminicídio costuma ser o desfecho de uma sequência de violências. Em 2025, o país registrou 286.270 casos de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica, 788.531 ameaças, 60.830 ocorrências de violência psicológica e 132.025 registros de descumprimento de medidas protetivas de urgência, reforçando que a violência contra a mulher vai muito além dos casos que terminam em morte.

Outro dado relevante é a relação entre feminicídios consumados e tentativas. Para cada mulher assassinada por razões de gênero em 2025, quase três sobreviveram a uma tentativa, o que reforça, na avaliação do Fórum, a importância da identificação precoce dos sinais de violência e do fortalecimento das políticas de proteção às mulheres em risco.
Esses números, porém, refletem apenas os casos que chegaram ao conhecimento das autoridades. Pesquisas de vitimização, feitas por meio de entrevistas diretas com a população, indicam que parte significativa das mulheres agredidas nunca registra boletim de ocorrência nem procura o sistema de justiça, por medo do agressor, dependência econômica, desconfiança nas instituições ou naturalização da violência de gênero. Por isso, os 1.571 feminicídios contabilizados em 2025 tendem a representar um piso, não o total real de casos ocorridos no país.
No Rio de Janeiro, houve aumento nas mortes violentas intencionais que subiram de 3.809 para 3.890 entre 2024 e 2025, alta de 2,1% na direção oposta à da média nacional. Nesse total, cresceu também o peso da letalidade policial, com as mortes decorrentes de intervenções policiais passando de 703 para 798 casos, aumento de 13,5%. A proporção desses casos em relação ao total de mortes violentas subiu de 18,5% para 20,5%, ou seja, uma em cada cinco mortes violentas registradas no estado em 2025 decorreu de ação policial.

Esse aumento da violência letal no estado também se refletiu, embora de forma distinta, nos crimes contra mulheres. O Rio de Janeiro registrou 265 homicídios de mulheres em 2025, frente a 248 no ano anterior, alta de 6,8%. Desse total, 105 foram classificados como feminicídio, uma leve redução frente aos 107 casos de 2024. A proporção de feminicídios em relação ao total de homicídios de mulheres recuou de 43,1% para 39,6%, o que sugere que o crescimento das mortes de mulheres no estado esteve concentrado em motivações que não a de gênero.
O número de tentativas de feminicídio no estado, ao contrário do observado no país, recuou de 382 para 307 casos entre 2024 e 2025, queda de 19,7%. As tentativas de homicídio contra mulheres em geral também diminuíram, de 753 para 679 registros. Ainda assim, a proporção de tentativas de feminicídio em relação ao total de tentativas de homicídio contra mulheres seguiu elevada, caindo de 50,7% para 45,2%.

Os demais indicadores de violência contra a mulher no estado mostram um quadro misto. A lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica teve leve queda, de 42.742 para 42.363 casos, e as ameaças cresceram de 46.203 para 47.464 ocorrências, alta de 2,7%. Já a violência psicológica teve o aumento mais expressivo, de 4.025 para 5.113 registros, alta de 27%, seguida pela perseguição (stalking), que subiu de 4.681 para 5.580 casos, alta de 19,2%. Os registros de descumprimento de medidas protetivas de urgência também avançaram, de 4.846 para 5.870, aumento de 21,1%.
Ainda assim, o Anuário deixa claro que a queda das mortes violentas não se distribui de forma uniforme entre os grupos da população. A persistência do crescimento dos feminicídios e das demais formas de violência contra a mulher mostra que a redução dos homicídios, por si só, não é suficiente para retratar a realidade da violência no país.
Redes de atendimento à mulher
- Central de Atendimento à Mulher: Ligue 180. Serviço de utilidade pública oferecido pelo governo federal, por meio do Ministério das Mulheres, para fornecer informações sobre os direitos e garantias das mulheres em situação de violência e informar locais e contatos dos serviços mais próximos e apropriados para cada caso.
- Disque Denúncia: Na Região Metropolitana utilize o (21) 2253-1177. Nas demais regiões, utilize o telefone 0300-253-1177 (elimina tarifas DDD) ou através do APP Disque Denúncia RJ. Central de atendimento especializada em atender a população que vivencia ou presencia ações criminosas.
- SMMU - Secretaria Municipal da Mulher da Prefeitura de Niterói: (21) 983210548
- DEAM - Delegacia de Atendimento à Mulher - São Gonçalo: (21) 3119-0214 / (21) 3119-0201
- Centro Especializado de Atendimento a Mulher – CEAM - Itaboraí: (21) 2635-3452
- Casa da Mulher Heloneida Studart - Maricá: (21) 99107-9691