Há 40 anos observando o céu de São Gonçalo: conheça a história do Clube de Astronomia Leonardo da Vinci
Criado em 1986, clube nasceu após a passagem do cometa Halley e já promoveu observações, exposições e eventos de astronomia em São Gonçalo

Você observa o céu noturno com que frequência? Para Milton Machado, astrônomo amador e morador do bairro Lindo Parque, em São Gonçalo, olhar para as estrelas é um hábito que já dura pelo menos 40 anos. Fundador do Clube de Astronomia Leonardo Da Vinci, ele organizou sua paixão junto com outros entusiastas pela astronomia do município.
“O clube foi fundado por mim, oficialmente, em 23 de outubro de 1986, numa comemoração entre amigos no dia do meu aniversário. Este ano, nós estamos completando 40 anos de clube. E, ao longo da história, muita coisa aconteceu”, conta.
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“Começou na minha casa, num quartinho onde eu fazia os trabalhos da feira de ciências da escola. Cheguei a ser campeão da feira por cinco anos. O pessoal nem queria que participasse mais”, comentou, com bom humor. “Depois, o clube acabou passando por várias transformações”, relembrou.
Uma dessas transformações foi a mudança do nome oficial do clube. Inicialmente chamado de Nasa Clube Brasil, inspirado na agência espacial americana, Milton acabou encontrando uma identidade própria para o grupo.

O astrônomo amador comenta que sempre se interessou por ciências, mas o estopim para criar o clube foi a passagem do cometa Halley pela Terra, em 1986.
“Na época houve muita propaganda, muita coisa", relembra ele que, à época, servia ao Exército no Terceiro Batalhão de Infantaria, na Venda da Cruz, em São Gonçalo.
“Resolveram fazer uma festa dentro do quartel para observar o cometa. Eu fiquei super animado, chegaram a colar cartazes dentro do quartel. Pensei que ia poder olhar por um telescópio, olhar os céus e ver o cometa”, contou.

O ânimo deu lugar à frustração quando descobriu que não poderia participar da festa. “Quando foi chegando próximo eu descobri que era só para sargentos e oficiais. Só os soldados que estivessem trabalhando poderiam ir”, disse, rindo ao lembrar da história. “Fiquei barrado na festa do cometa, perdi a carona da cauda dele.”
Milton usou o episódio como a motivação que faltava para transformar o seu já existente clube de ciências em um clube focado em astronomia. Assim, nasceu o Clube de Astronomia Leonardo Da Vinci.
“De hoje em diante, quem quiser ver um cometa que estiver passando, um eclipse ou algum outro fenômeno astronômico, o clube vai tratar de fazer essa pessoa ver. Ninguém vai ser barrado no nosso baile das estrelas”, definiu assim o propósito do grupo.
O clube foi fundado por Milton e mais três pessoas. Ele aponta para as dificuldades tecnológicas na época para encontrar outras pessoas que compartilhassem do mesmo interesse.

“Eram eu e umas três pessoas. Naquela época era um pouco mais difícil de juntar as pessoas, porque não tinha internet, não tinha nada, né? Até telefone era difícil, poucas pessoas tinham telefone”. Hoje, o clube conta com cerca de 30 pessoas, que se comunicam pelas redes sociais para marcar observações na casa de Milton.
“Eu recebo um amigo um dia, depois outro, mas o pessoal desanimou bastante com essa questão de não ter esse espaço adequado”.
Em 2006, o clube conseguiu firmar parceria com o Centro Cultural Vila Lage, quando saiu do quartinho e ganhou um espaço próprio.
“Teve um um bom período, mais de 10 anos, que nós fizemos uma parceria com o Centro Cultural Vila Lage. Aí o clube funcionou lá por um tempo, construímos até um observatório”.
A parceria, encerrada em 2018, foi marcada pela realização de diversos eventos e observações astronômicas em São Gonçalo. Entre as principais iniciativas esteve a participação no Ano Internacional da Astronomia, promovido pela ONU e pela UNESCO em 2009, quando o clube representou São Gonçalo e cumpriu uma agenda de atividades locais voltadas à astronomia simultaneamente a mais de 150 países participantes.

O clube promoveu a abertura da programação em São Gonçalo, com uma exposição na Sala de Arte do Instituto Cultural Brasil - Estados Unidos (ICBEU), além de palestras e outras atividades. Ao longo do ano, a agenda incluiu noites de observação e as chamadas “Noites Galileanas”, que celebraram os 400 anos das primeiras observações astronômicas feitas por Galileu Galilei com uma luneta.
“Depois que acabou a parceria com o Centro Cultural, eu tive que trazer as coisas para casa e, até o momento, eu não arranjei um outro espaço para expandir essa coisa que ficou compactada”, comentou.
O clube segue em busca de um local, uma parceria ou incentivo público para conseguir se transferir para um espaço maior e oferecer os serviços de forma confortável para os gonçalenses.
“O acervo do clube tem mais de 300 livros de astronomia, livros de faculdade, de ensino de astronomia, mas está tudo muito compactado e não tem nem acesso, porque está assim, uns atrás, outros na frente, fila dupla na estante”, lamentou.

Para Milton, o clube é importante por preencher um espaço vazio na oferta de cultura e ciência para a população do município. “Muitas pessoas também têm uma curiosidade científica e não encontram uma válvula, um mecanismo que vá suprir essa curiosidade, essa vontade de ter acesso a algumas tecnologias. E aí o clube vem suprir esse déficit de informação”.
Ele explica que, apesar do espaço apertado em sua casa, basta alguém entrar em contato pelo seu WhatsApp, disponível no site oficial do clube, para agendar uma visita e fazer uma observação em seu telescópio, que fica na laje da residência.

“Aqui tem uma escadinha, tem um observatório lá em cima, compacto, onde fica o telescópio montado. É o mesmo telescópio que ficava lá no centro cultural”.
Apesar das adversidades, o clube segue com a agenda ativa em 2026. Em março, participou da Feira Literária Arte em Movimento (FLAM), realizada em São Gonçalo e Tanguá. “Este ano, nós já fizemos um evento bacana que foi uma feira literária que teve aqui em São Gonçalo e também em Tanguá. E aí o clube participou com uma exposição grande, foram dez mesas”
Enquanto segue em busca de um novo espaço, o clube resiste e segue com o propósito inicial de não deixar ninguém barrado no baile das estrelas.
"Eu acho que a melhor forma de ensinar é com exemplo, e o melhor exemplo é o exemplo prático. Você poder tocar o telescópio. E em São Gonçalo não tem nenhum local oficial, não tem um planetário, não tem um observatório oficial da cidade. Então, se você quer ter contato com esse tipo de material, esse tipo de coisa, você tem que ir para o Rio, tem que ir para o Planetário da Gávea, tem que ir para o Observatório Nacional".
Quem se interessar em fazer uma visita para conhecer melhor a história e realizar uma observação com o telescópio do clube basta entrar em contato com o Milton pelo WhatsApp, disponível no site oficial do Clube de Astronomia Leonardo Da Vinci.
*Sob supervisão de Cyntia Fonseca





