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Escritoras de São Gonçalo se unem no Agosto Lilás contra a violência: 'Não é assunto de casa fechada'

Coletiva Escritoras Vivas promove série de vídeos sobre relacionamento abusivo, violência contra crianças, racismo e formas invisíveis de agressão

relogio min de leitura | Redação
Autoras da coletiva Escritoras Vivas abordam diferentes formas de violência e buscam transformar histórias e experiências em instrumentos de conscientização
Autoras da coletiva Escritoras Vivas abordam diferentes formas de violência e buscam transformar histórias e experiências em instrumentos de conscientização -

A literatura ganhou novas formas de ocupar o debate sobre a violência contra as mulheres. Em São Gonçalo, a Coletiva Escritoras Vivas promove uma campanha especial durante o Agosto Lilás, reunindo autoras em uma série de vídeos nas redes sociais que abordam diferentes formas de violência e buscam transformar histórias e experiências em instrumentos de conscientização.

Idealizada pela autora Cindy Ximenes, que em breve lançará o livro A boca do furacão, pela Editora Mapa das Letras, a campanha reúne escritoras que aderiram ao movimento a partir de narrativas ficcionais e autoficcionais. A proposta é utilizar a potência da palavra para falar sobre situações que muitas vezes permanecem escondidas dentro de casa, nos relacionamentos e até mesmo em comportamentos considerados socialmente “normais”.

A série foi construída com um alerta aos espectadores sobre a abordagem de temas sensíveis e apresenta, até o momento, quatro recortes: relacionamento abusivo; violência sexual contra crianças e adolescentes; violência e racismo; e violência invisível. Para assistir a todos os vídeos, o Instagram é @escritorasvivas.


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Quando o ciúme deixa de ser “prova de amor”

O primeiro vídeo trata dos relacionamentos abusivos e chama atenção para comportamentos que podem ser confundidos com demonstrações de afeto. Ciúme, controle, invasão de privacidade, constrangimentos, provocações, toques físicos indesejados e humilhações são apresentados como sinais que podem ser normalizados ao longo de uma relação.

A campanha também questiona o ciclo em que episódios de violência são seguidos por pedidos de desculpas e presentes, como se um gesto de arrependimento pudesse apagar a agressão.

O alerta ganha dimensão diante dos dados mais recentes. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, companheiros e ex-companheiros responderam por 79,8% dos autores identificados de feminicídios registrados no Brasil em 2025. O mesmo levantamento registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, o maior número da série histórica e o quarto recorde consecutivo do indicador.

O segundo vídeo da campanha aborda a violência sexual contra crianças e adolescentes e chama atenção para a importância de respeitar os limites corporais desde a infância.

As escritoras questionam a naturalização de comportamentos como obrigar crianças a abraçar ou beijar adultos, defendendo que os pequenos devem ter autonomia para estabelecer seus próprios limites e precisam ser protegidos pelos adultos, inclusive quando não pertencem à própria família.

A campanha também chama atenção para o caráter silencioso desse tipo de violência, que pode não ser denunciada no momento em que acontece e, em alguns casos, só vir à tona anos depois. O questionamento deixado pelas autoras resume a preocupação: como pensar em futuro sem pensar em proteger nossas crianças?

Mulheres negras enfrentam violência atravessada pelo racismo

O terceiro vídeo coloca em discussão a relação entre violência contra a mulher e racismoA campanha destaca que mulheres negras estão submetidas a uma sobreposição de vulnerabilidades relacionadas a raça, gênero e classe social.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública citados pela Fundação Perseu Abramo mostram que, em 2023, mulheres negras representaram 63,6% das vítimas de feminicídio, 68,6% das vítimas das demais mortes intencionais de mulheres e 52,5% das vítimas de estupro e estupro de vulnerável. O levantamento também aponta que 45% delas sofreram algum tipo de violência praticada por parceiro íntimo ao longo da vida.

O quarto vídeo aborda a chamada violência invisível, que não necessariamente deixa marcas físicas, mas pode produzir impactos profundos na saúde mental, na dignidade e na autonomia das vítimas. A campanha questiona por que mulheres ainda precisam provar aquilo que sofreram quando a agressão não pode ser facilmente identificada pelos olhos.

Entre as formas de violência não física estão a violência psicológica, patrimonial e moral, frequentemente naturalizadas ou tratadas como conflitos comuns dentro das relações. Estudo publicado nos Cadernos Ibero-Americanos de Direito Sanitário, da Fiocruz, identificou predominância de trabalhos sobre violência psicológica, seguida das violências patrimonial e moral, apontando a necessidade de ampliar a abordagem dessas formas de violência.

Por que Agosto Lilás?

O período escolhido para a campanha também tem significado histórico. O Agosto Lilás foi instituído nacionalmente pela Lei nº 14.448/2022 como mês de proteção à mulher e de conscientização para o fim da violência contra as mulheres.

A escolha de agosto está diretamente relacionada à Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), sancionada em 7 de agosto de 2006. Este ano, a legislação completa 20 anos como um dos principais marcos brasileiros de prevenção e enfrentamento à violência doméstica e familiar contra as mulheres.

Durante o mês, são estimuladas ações de conscientização sobre as diferentes formas de violência, os direitos das mulheres, os mecanismos de proteção e os canais de orientação e denúncia.

Ao reunir autoras e diferentes formas de narrativa, a campanha mostra que a literatura também pode ser espaço de denúncia, acolhimento e reflexão. A iniciativa idealizada por Cindy Ximenes dialoga ainda com o lançamento de A boca do furacão, seu próximo livro pela Editora Mapa das Letras, e amplia uma discussão que ultrapassa as páginas da ficção.

A mensagem central da campanha é direta: violência contra a mulher não é assunto privado. É uma questão de direitos, proteção e responsabilidade coletiva. Para mulheres que precisam de orientação ou desejam denunciar uma situação de violência, o Ligue 180, Central de Atendimento à Mulher, funciona 24 horas por dia.

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