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Autora de Niterói lança livro sobre realidade de uma mãe atípica

Em 'O Sorriso de Alana', Carol Reis conta a trajetória da filha e fala sobre maternidade, inclusão e os desafios enfrentados por mães atípicas

relogio min de leitura | João Pedro Pereira sob supervisão de Renata Sena
De acordo com Carol, o título do livro, ‘O Sorriso de Alana’, faz referência à maneira como a jovem, hoje com 18 anos, encara a própria vida
De acordo com Carol, o título do livro, ‘O Sorriso de Alana’, faz referência à maneira como a jovem, hoje com 18 anos, encara a própria vida -

A experiência de ser mãe de uma criança atípica, os desafios da inclusão e a importância de não perder a própria identidade. Esses são alguns dos temas abordados pela autora niteroiense Carol Reis em 'O Sorriso de Alana', livro lançado em março de 2026, que narra a trajetória da filha da autora, que tem paralisia cerebral e baixa visão, além de não falar e não possuir mobilidade.

A ideia de transformar a própria história em livro surgiu de uma sugestão do pai de Carol. Segundo ela, o projeto precisou esperar um momento em que houvesse tempo e, principalmente, preparo emocional para revisitar experiências difíceis. A escrita começou em setembro de 2025, com o auxílio de Aura Pinheiro, responsável por conduzir as perguntas que deram forma de livro à trajetória de mãe e filha.


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O processo fez Carol retornar a momentos marcantes de sua vida, entre eles a perda de um filho, Enzo, que faleceu aos 28 dias de vida. Anos depois, diante do diagnóstico da filha, ela se questionou sobre como conseguiria lidar com uma nova realidade.

“Quando você descobre que seu filho tem deficiência, você fica frustrada. É o primeiro sentimento que você sente. Todo mundo quer um filho perfeito. Só que a gente esquece que as pessoas não são perfeitas”, conta.

A autora afirma que a perda anterior a fez refletir sobre sua capacidade de enfrentar os desafios que viriam com a maternidade atípica. Segundo ela, o acompanhamento psicológico foi fundamental.

De acordo com Carol, o título do livro, ‘O Sorriso de Alana’, faz referência à maneira como a filha, hoje com 18 anos, encara a própria vida. Para ela, a filha demonstra uma força que muitas vezes surpreende até quem está mais próximo.

“Ela está sempre sorrindo para a vida", comenta Carol
“Ela está sempre sorrindo para a vida", comenta Carol |  Foto: Yuri Messias

“Ela está sempre sorrindo para a vida. Ela é a pessoa mais forte e resiliente que eu conheço. Ela já passou por diversas situações que eu não conseguiria viver como adulta, uma pessoa dita 'normal', típica, e ela passou sorrindo, mostrando o tempo todo: ‘Mãe, vale a pena viver’”, afirma.

Uma história sem romantização

Ao elaborar o livro, Carol conta que não quis construir uma narrativa idealizada sobre a maternidade atípica. Segundo ela, a intenção foi mostrar a realidade e, ao mesmo tempo, apresentar possibilidades de empoderamento para mulheres que, muitas vezes, deixam seus próprios projetos de lado para cuidar dos filhos.

“Eu não quis romantizar. Eu coloquei a minha vida como ela foi, como ela é. E mostrar que a mulher pode ser mãe atípica, mãe típica, pode trabalhar, estudar, casar novamente, ser feliz... tem que se amar. Não perder a sua identidade”, disse.

Ao comentar sobre a realidade da maioria das mães atípicas, Carol afirma ser "exceção".
Ao comentar sobre a realidade da maioria das mães atípicas, Carol afirma ser "exceção". |  Foto: Yuri Messias

“Eu sou uma exceção, na realidade. A regra, infelizmente, é a mãe solo com um filho com deficiência, sem saber o que fazer com aquela situação e sem ter alguém para cuidar dela. Porque, quando a gente fala disso é real. Quem cuida de quem está cuidando?”, comenta a autora, que recebe apoio do marido e também pode contar com o pai da Alana nos cuidados com a jovem, chamando atenção para a realidade de muitas mães atípicas.

Para Carol, o cuidado com a própria saúde emocional é parte importante para seguir com o cuidado de um filho. “Para a gente poder estimular o nosso filho, a gente tem que estar bem. A gente tem que estar feliz com a gente, a gente tem que estar forte com a gente”, afirma.

Carol destaca o cuidado com a própria saúde mental como um dos pilares fundamentais para o cuidado com os filhos
Carol destaca o cuidado com a própria saúde mental como um dos pilares fundamentais para o cuidado com os filhos |  Foto: Yuri Messias

Entre as questões abordadas pelo livro estão as dificuldades encontradas no cotidiano de pessoas com deficiência. Alana é cadeirante e precisa de cuidados com o cateter em intervalos regulares. Por esse motivo, a família precisa avaliar se determinados espaços possuem estrutura adequada para receber Alana.

“Você tem que ir primeiro ao local fazer uma auditoria para ver se sua filha pode ir. Porque ela tem que estar preparada para o local. Mas o certo era que todos os locais fossem preparados para receber todo mundo”, comenta.

De acordo com ela, a falta de banheiros adaptados e de locais adequados para realizar os cuidados necessários limita a participação da filha em atividades cotidianas. Em uma viagem a Foz do Iguaçu, por exemplo, a família precisou alterar os horários do procedimento por não encontrar um local adequado. No fim da viagem, Alana precisou ser levada a um hospital por conta de uma infecção urinária.

“Eu gostaria que ela participasse junto com a irmã dela. Só que eu tenho que escolher entre o bem-estar dela e a saúde dela ou sair com ela e seja o que Deus quiser. E não é isso que eu quero. Eu quero que minha filha viva por muito tempo", contou Carol, que também tem uma filha de 4 anos.  

Inclusão pelo samba

A busca por espaços de participação, onde Alana pudesse ocupar lugares que lhe pertencem por direito, levou Carol a elaborar, em parceria com a escola de samba de Niterói Unidos da Viradouro, uma ala de inclusão na escola mirim, voltada para crianças com deficiência. “Eu sempre fui uma incentivadora e quero ver minha filha em todos os espaços, porque ela pode ir onde ela quiser ir”, comenta.

Segundo Carol, pais de crianças com diferentes tipos de deficiências passaram a enxergar o espaço da escola de samba como um local de lazer e convivência que nem sempre encontraram em outros ambientes.

Em meio a tantas dificuldades, Carol relembra as páginas bonitas da história da filha
Em meio a tantas dificuldades, Carol relembra as páginas bonitas da história da filha |  Foto: Yuri Messias

"O pai de uma criança autista me disse uma vez: 'Eu nunca imaginava que eu poderia estar me divertindo com o meu filho em um ensaio de escola de samba, por conta do barulho”, relata Carol.

“A protagonista dessa história é ela”

Carol faz questão de destacar que, embora o livro tenha sido escrito a partir de sua experiência como mãe, Alana é a protagonista. “Eu sempre falei para minha filha: ‘Filha, a mamãe está aqui para lutar por você. Eu sou sua voz, mas a protagonista dessa história é você’. A protagonista desse livro é ela. Não teria esse livro se não tivesse a Alana."

"A protagonista desse livro é ela. Não teria esse livro se não tivesse a Alana”, afirma Carol Reis
"A protagonista desse livro é ela. Não teria esse livro se não tivesse a Alana”, afirma Carol Reis |  Foto: Yuri Messias

Carol espera que o livro ajude outras mães a reconhecerem que suas vidas não precisam se resumir à rotina de cuidados dos filhos. “Eu sou mãe da Alana, mas eu sou Carol Reis. Quando a Alana está com o pai, eu sou Carol Reis. Quando a Alana está comigo, eu sou a mãe da Alana e mãe da Aurora. Então, você vai encontrar isso tudo aqui nesse livro.”

Trajetória de mãe e filha é contada em seu livro 'O Sorriso de Alana'
Trajetória de mãe e filha é contada em seu livro 'O Sorriso de Alana' |  Foto: Yuri Messias

Para outras mães atípicas, especialmente aquelas que enfrentam a maternidade sem uma rede de apoio, Carol deixa uma mensagem: “Que tenham muita força, porque não é fácil. Mas que estimulem seus filhos e nunca desistam deles. Porque eles são presentes na nossa vida”, finaliza.

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