“Ascensão social é ter para onde voltar”: Conheça a ‘Psicologia em Diáspora’, primeira clínica psicológica racializada de São Gonçalo
Espaço criado pelas psicólogas Ana Carolina e Tainara Cardoso propõe atendimento conectado às realidades do território, da raça e da ancestralidade

Uma proposta de cuidado em saúde mental construída a partir das vivências da população negra e periférica de São Gonçalo. Essa é a base da Psicologia em Diáspora, clínica fundada pelas psicólogas Ana Carolina Cruz, 33, e Tainara Cardoso, 32, a primeira clínica racializada do município, localizada na Estrada Raul Veiga, número 500, sala 518, em Alcântara.
Nascidas em São Gonçalo, as profissionais compartilham a defesa de uma psicologia conectada às experiências de quem cresceu nas periferias. Enquanto Tainara nasceu e foi criada no Complexo da Chumbada, Ana Carolina tem suas raízes no Complexo da Coruja.
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Além da psicologia, Tainara atua como contadora de histórias, enquanto Ana Carolina também é arteterapeuta e instrutora de Kemetic Yoga. A trajetória das duas ajudou a moldar a proposta da clínica, que busca integrar questões como raça, território, classe, gênero e ancestralidade ao cuidado psicológico.
Para Tainara, permanecer em São Gonçalo e desenvolver o trabalho no município foi uma escolha consciente. "Foi uma decisão política nossa permanecer aqui. Não falo que é fácil, não, tá? Porque os tributos são altíssimos pra manter (...) Mas a gente vem pensando nesses oito anos que a gente não abre mão de estar aqui."

Ao falar sobre ascensão social, a psicóloga destaca que o conceito não está necessariamente ligado a deixar o território onde se vive. Para ela, a possibilidade de crescer sem romper com as próprias raízes também representa uma forma de conquista. “Na nossa teoria, a gente entende que ascensão social é muito mais você ter pra onde voltar sempre. Porque a garantia é que você sabe que tem pra onde voltar. E aí, por isso, a gente nunca decidiu sair de São Gonçalo.”
Vida, história e memória: São Gonçalo para além da violência
A psicóloga afirma que a iniciativa também surge como uma resposta às narrativas que costumam associar a cidade apenas à violência. "Eu também entendi que falar do território é o que faz sentido pras pessoas. A gente tá cansado de ver São Gonçalo no jornal da TV com uma narrativa que fala muito de violência. São Gonçalo é sinônimo de violência pra muitas pessoas, mas aqui também tem muita produção de vida, tem história, tem memória."

Segundo ela, a proposta da Psicologia em Diáspora é construir uma prática clínica que dialogue diretamente com a realidade da população local. "A gente começou a pensar na possibilidade de construir esse espaço e que faz sentido ter uma clínica que seja, pra gente, 'aterrada'. Que é um termo que a gente utiliza na psicologia social pra falar de uma clínica que é de onde você vem, que faz sentido, é um solo que você pisa. Não é uma clínica tradicional da psicologia, com referências bibliográficas de autores da Europa ou norte-americanos."

A ideia de uma psicologia racializada, explica Tainara, parte do reconhecimento de que diferentes grupos sociais enfrentam desafios distintos ao longo da vida. "A gente sabe que o ponto de partida não é a mesma coisa. Para quem vem de favela, para quem vem de periferia, para quem é pobre, para quem é preto, a gente sabe que não é a mesma coisa. Tem gente que sai do zero, mas tem gente que sai do menos cem."
Ela destaca que a discussão sobre raça faz parte da escuta clínica. "Uma pergunta que eu sempre faço aos pacientes é: o que a sua cor tem a ver com a sua dor? Quando a gente fala sobre pensar uma psicologia racializada, muitas pessoas já associam a: 'então vocês atendem somente pessoas negras?'. E não é isso. A gente pensa racialidade; pessoas brancas também são racializadas."
Atendimento voltado para crianças e adolescentes
Segundo Tainara, o trabalho com crianças se difere dos atendimentos à adultos. De acordo com ela, parte da compreensão de que o brincar é uma ferramenta fundamental para o cuidado psicológico. Ela explica que é por meio das brincadeiras que muitas crianças expressam sentimentos, vivências e conflitos que ainda não conseguem verbalizar com clareza.
A psicóloga também chama atenção para o risco de interpretações precipitadas sobre determinados comportamentos. Na avaliação dela, muitas crianças acabam recebendo diagnósticos ou sendo encaminhadas para processos de medicalização sem que suas histórias de vida, contextos familiares e realidades sociais sejam devidamente considerados.
"A clínica com a criança é uma clínica de muitas violações. Crianças são muito violadas, as pessoas não ouvem as crianças. Mas a criança tem uma sensibilidade, consegue apurar o ambiente que ela vive de uma forma extraordinária."
De acordo com Ana Carolina Cruz, embora o atendimento ao público infantojuvenil e ao adulto tenha especificidades próprias, a proposta da Psicologia em Diáspora parte da escuta de diferentes formas de expressão: verbal, gestual, artística e corporal.
Segundo ela, a iniciativa busca acolher vivências atravessadas pelo racismo, mas não reduz a experiência de seus pacientes a ele. "Somos espaço que viabiliza a escrita de histórias de resgate da potência e autonomia das pessoas, considerando a cultura como motor dessa estrada", finaliza Ana.
*Sob supervisão de Cyntia Fonseca