Menos álcool, menos açúcar e mais exercício; como a atual geração se tornou exemplo de busca por saúde
As gerações Y e Z estão cada vez mais imersas no mundo do bem-estar e na busca por qualidade de vida

Suplementos, academia, corrida, alimentos de baixa caloria e dietas fazem cada vez mais parte da rotina de jovens e adultos, mas a busca pelo bem-estar, saúde e longevidade nem sempre foi o foco desta faixa etária. Nos últimos anos, alguns hábitos foram mudando nas gerações mais novas. Essas mudanças afetam não só o estilo de vida como as tendências de consumo, o mercado e a produção.
Basta fazer uma rápida pesquisa nas redes sociais ou uma caminhada pelos corredores dos supermercados para perceber. Alimentos ricos em proteína, produtos diet, opções de baixa caloria e suplementos ganharam espaço tanto nas postagens de influenciadores quanto nas prateleiras dos estabelecimentos, um cenário bem diferente do observado há poucos anos. Além de não serem comuns, esses produtos eram relacionados a idosos ou grupos de pessoas que possuíam alguma restrição alimentar. Hoje, no entanto, é cada vez mais comum ver jovens optando por essas escolhas.
Pesquisas recentes apontam que a geração Y (Millennials) e a geração Z têm atingido níveis inéditos de cuidado com a própria saúde na comparação com outros grupos etários. Eles têm buscado cada vez mais cedo cuidar da sua saúde física e mental, para que no futuro isso não seja um problema grave ou que reduza a sua qualidade de vida.
O que antes era considerado tratamento de redução de danos para idosos, atualmente são considerados essenciais para a rotina de alguns jovens. Um dos exemplos dessa mudança são os produtos sem adição de açúcar. Mesmo quem não possui restrições ao consumo da versão tradicional tem optado por essas alternativas, motivado pela busca por uma alimentação mais equilibrada.
Leia também:
Estado do Rio entra em risco muito alto para incêndios florestais, alerta Defesa Civil
Detran-RJ suspende teleatendimento por previsão de vendaval
Para a desenhista industrial Lívia do Monte, de 21 anos, a preocupação com a alimentação surgiu na prática esportiva. Embora tenha iniciado no judô ainda na infância, foi aos 17 anos, quando passou a integrar um centro de treinamento de alto rendimento, que percebeu como a alimentação interferia diretamente no desempenho esportivo.
"Eu sentia na pele a diferença de ir treinar após se alimentar mal o dia todo com ir treinar após se alimentar corretamente. Você sente seu corpo diferente.”

"Já fui treinar só com uma lasanha na barriga, meu corpo não aguentava o final do treino, tive que ficar fazendo mais pausas de descanso do que o costume. Agora, quando eu me alimentava apropriadamente, eram 3hrs de treino seguidas tranquilamente. Sem a sensação de esgotamento ou cansaço extremo. O que me motivava a comer a batata doce invés de um bolo de chocolate como pré treino, é que se eu comesse a batata doce meu corpo não me castigaria depois, no sentido de cansaço e mal estar."
Depois de perceber que a alimentação influenciava diretamente o rendimento, Lívia passou a estudar mais sobre nutrição. Como deixou de consumir carne vermelha e frango aos 15 anos, buscou alternativas para manter uma ingestão adequada de proteínas e procurou acompanhamento profissional.
"Comecei a estudar e pesquisar sobre alimentação, principalmente em como bater a quantidade de proteína necessária por dia. Também fui ao nutricionista."
A experiência de Lívia reflete uma transformação percebida também nos consultórios. Para a nutricionista clínica e comportamental, Danielle Condeixa, 40, as gerações Y e Z demonstram hoje um interesse maior pela alimentação saudável do que há alguns anos.
"Ao meu ver, isso tem acontecido porque hoje elas têm muito mais acesso à informação, principalmente pelas redes sociais, podcasts e conteúdos sobre saúde. Além disso, existe uma preocupação cada vez maior, não apenas com a prevenção de doenças, mas também com a estética, o desempenho físico, a disposição e a qualidade de vida."

Segundo a nutricionista, essa mudança também alterou o perfil das pessoas que procuram acompanhamento profissional.
"Muitas pessoas já chegam ao consultório sabendo alguns conceitos sobre alimentação e buscando melhorar os hábitos. Ao mesmo tempo, esse excesso de informações gera confusão também, porque nem tudo o que circula na internet tem embasamento científico."
Para ela, uma das principais funções do nutricionista passou a ser justamente orientar o paciente diante do grande volume de informações disponíveis.
"Uma parte importante do meu trabalho é ajudar essas pessoas a separar o que realmente faz sentido do que é apenas uma tendência. O objetivo é mostrar que uma alimentação saudável não precisa ser restritiva ou complicada, mas sim equilibrada, adaptada à rotina e sustentável a longo prazo."
Para millenials e jovens adultos da Geração Z, cuidar da saúde virou parte do dia a dia, da rotina e da identidade pessoal. Ou seja, não se baseia em apenas reagir a um problema, mas sim de uma construção de um futuro melhor, com qualidade de vida, energia, bem-estar e longevidade.
A nutricionista observa que essa preocupação aparece também entre seus pacientes. Segundo ela, embora atenda predominantemente pessoas da Geração Y, os motivos que levam à mudança de hábitos vão além do emagrecimento.
"Os principais motivos dos meus pacientes que me procuram são o desejo de emagrecer, ganhar massa muscular e melhorar a saúde de forma geral. Agora meu maior foco é atender mulheres. Percebo que muitas mulheres procuram o acompanhamento porque querem ter mais disposição, controlar a compulsão alimentar, melhorar a relação com a comida e aliviar sintomas relacionados ao ciclo menstrual, menopausa ou condições como a síndrome dos ovários policísticos."

Danielle afirma que o conceito de alimentação saudável também passou a ser associado ao envelhecimento com qualidade.
"As pessoas entendem que a alimentação não influencia apenas o peso, mas também na energia, no sono, no desempenho nos treinos, na saúde hormonal e na prevenção de doenças. Hoje vejo uma procura não apenas quando existe um problema, mas também como uma forma de investir no bem-estar a longo prazo."
Álcool e cigarro
Por décadas, o consumo de álcool e de cigarro esteve associado à juventude. Hoje, esse cenário começa a mudar. Pesquisas nacionais e internacionais mostram que as novas gerações, especialmente a Geração Z, estão reduzindo o consumo de bebidas alcoólicas, fumando menos e colocando a saúde no centro das decisões de consumo.
A proporção de jovens de 18 a 24 anos que não bebem passou de 46% para 64% em apenas dois anos, de acordo com a sétima edição do levantamento "Álcool e a Saúde dos Brasileiros", do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), realizado pelo Ipsos-Ipec com 1.981 entrevistados em setembro de 2025. Na faixa de 25 a 34 anos, a abstinência subiu de 47% para 61%. Na população em geral, o índice de abstêmios passou de 55% para 64%. O consumo abusivo entre os jovens de 18 a 24 anos caiu de 20% para 13% no mesmo período, e a maioria deles, quando bebe, consome uma ou duas doses por ocasião.
Entre as hipóteses levantadas por especialistas e por publicações do setor para explicar esse resultado estão:
- Maior preocupação com saúde e bem-estar. O aumento do consumo de atividades físicas e intensificação da exposição de corpos e estilos de vida nas redes sociais têm afetado grande parte dos jovens a repensar a sua relação com o próprio corpo.
- Aumento no uso de medicamentos controlados entre os mais novos. Levantamento da Far.me, farmácia on-line por assinatura, que analisou tratamentos entre janeiro e setembro de 2024, aponta que 82% das crianças e jovens de até 17 anos que fazem uso contínuo de medicamentos utilizam remédios psiquiátricos, com destaque para os tratamentos de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e de depressão. O metilfenidato, principal medicamento para TDAH, é usado por 16% dos meninos e 7% das meninas do grupo analisado. A bula desses medicamentos contraindica o consumo de álcool durante o tratamento.
- O aumento do uso de Ozempic e outros remédios para o emagrecimento, que inibem a fome. O uso é mais acentuado na faixa acima dos 40 anos, mas a tendência é de ampliação. A patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic, expirou em 20 de março de 2026, depois de o Superior Tribunal de Justiça negar o pedido da Novo Nordisk para estender o prazo. O primeiro similar nacional chegou às farmácias em junho de 2026, a partir de R$ 452 por caneta, contra os cerca de R$ 1,3 mil cobrados pelo produto de referência antes da concorrência.
Essa mudança já demonstra uma influência na indústria de alimentos, bebidas, no varejo, no mercado fitness e até no setor farmacêutico. Segundo o Global Wellness, o mercado global movimenta cerca de US$ 5,6 trilhões e pode alcançar US$ 9 trilhões até 2028. O Brasil representa aproximadamente US$ 96 bilhões desse mercado, ocupando a 12ª posição mundial, com destaque para os segmentos de alimentação saudável e cuidados pessoais, que somam US$ 69,6 bilhões.
O acesso à informação também ajuda a explicar a adoção desse tipo de comportamento. O bem-estar parou de ser associado exclusivamente à prática de exercícios físicos e começou a integrar a qualidade do sono, controle da ansiedade, redução do tempo de tela e hábitos alimentares considerados mais equilibrados.
Esse novo comportamento dos consumidores também pressiona empresas e fabricantes. 86% dos brasileiros já adicionaram ao menos um hábito mais saudável à rotina, enquanto 45% reduziram o consumo de alimentos industrializados, de acordo com dados divulgados pela NielsenIQ. Assim, para acompanhar a demanda, as indústrias aumentaram as opções de produtos com menos açúcar, itens ricos em proteínas, alimentos funcionais e versões com menos ingredientes artificiais.
Para Danielle, essa adaptação da indústria é positiva, desde que o consumidor saiba interpretar as informações presentes nos rótulos.
"Hoje, as pessoas estão mais preocupadas com a saúde e buscam opções que facilitem uma alimentação equilibrada no dia a dia. Vejo que o mercado acompanha essa demanda e oferece produtos com melhor qualidade nutricional, ingredientes mais simples e maior transparência nos rótulos."
Apesar disso, ela faz um alerta para os produtos vendidos como saudáveis.
"Nem todo produto que se apresenta como 'saudável' realmente é. Por isso, a educação nutricional continua sendo fundamental."
A desenhista Lívia afirma que essa preocupação passou a fazer parte da sua rotina.
"Leio os ingredientes dos produtos. É a primeira coisa que eu vejo quando pego algo industrializado na prateleira. Se tiver muitos aditivos, eu não compro."
Segundo ela, isso fica evidente principalmente nos leites vegetais.
"Algumas marcas têm só aveia, água e conservante. Outras, que prometem ser naturais, trazem aromatizantes e vários aditivos."
A nutricionista ressalta que uma alimentação equilibrada vai além dos produtos com apelo fitness.
"As pessoas precisam aprender a interpretar os rótulos e entender que uma alimentação saudável vai muito além de produtos com apelo fitness ou natural. A base da alimentação ainda deve ser composta por alimentos in natura e minimamente processados, enquanto os produtos industrializados podem fazer parte da rotina de forma equilibrada e consciente."
Essa tendência de busca por bem-estar também está afetando outros setores. A rede de academias Smart Fit tem previsão de abrir mais de 300 novas unidades ainda esse ano. A quantidade de provas de corrida de rua no Brasil cresceu 85% em 2025 na comparação com o ano anterior, movimentando cerca de 15 milhões de inscrições. Já as famosas canetas emagrecedoras respondem por oito dos dez produtos de maior faturamento das farmácias brasileiras atualmente, baseado no levantamento da NielsenIQ referente ao primeiro trimestre de 2026.

Renda, escolaridade e acesso à informação interferem
Apesar desse cenário, alguns estudos mostram que a mudança de hábitos não acontece da mesma forma para toda a população. A renda, a escolaridade e o acesso à informação influenciam diretamente a adoção de um estilo de vida mais saudável. A própria pesquisa do Cisa registra abstinência maior entre pessoas com ensino superior, de 49% para 62% em dois anos, moradores do Sudeste, de 51% para 62%, e integrantes das classes A e B, de 44% para 55%. Produtos considerados mais nutritivos costumam custar mais caro, enquanto frutas, verduras e alimentos frescos ainda enfrentam barreiras relacionadas ao preço e à praticidade.
Mesmo entre quem incorporou hábitos mais saudáveis, manter a disciplina nem sempre é simples. Hoje, conciliando trabalho e faculdade, Lívia afirma que já não consegue dedicar o mesmo tempo ao esporte que praticava durante os treinos de alto rendimento.
"Sinceramente, hoje em dia eu já não tenho uma vida tão ativa de atividade físicas. Acabei saindo do judô por conta do trabalho e faculdade, faço musculação vez ou outra, estou bem mais parada do que antes. Antes eu era bem focada em manter uma alimentação adequada, hoje em dia não tanto…"
Apesar da mudança de rotina, ela afirma que muitos hábitos permaneceram.
"Então muita coisa eu mantenho mais por estética do que por disciplina de comer bem. Mas em geral, eles caminham juntos sim."
A estudante conta que ainda procura manter uma alimentação equilibrada no dia a dia.
"Ainda procuro manter uma dieta balanceada, por costume mesmo. Eu não sou fã de frituras, não bebo refrigerante, não consumo fast food, etc... Mas não sou tão regrada como antes."
Outro contraste aparece na saúde mental. Ao mesmo tempo em que as novas gerações falam mais sobre ansiedade, estresse e autocuidado, os indicadores seguem preocupantes. O relatório World Mental Health Day 2024, do Instituto Ipsos, realizado em 31 países, coloca o Brasil como o quarto país mais estressado do mundo, com 42% da população relatando esse sentimento.
O mesmo descompasso aparece no ambiente de trabalho. A terceira edição do Check-up de Bem-Estar da Vidalink, realizada com 11.600 trabalhadores de 250 empresas, mostrou que 30% dos profissionais da Geração Z estão insatisfeitos com o próprio bem-estar, contra 25% dos millennials e 17% da Geração X. É também a geração que mais declara não fazer nada para cuidar da saúde mental.
*Sob supervisão de Cyntia Fonseca