Pais que não se separam: o endereço muda, a paternidade permanece
O São Gonçalo ouviu três pais que vivem diferentes configurações familiares e mostram como a presença na vida dos filhos pode permanecer mesmo quando a rotina muda

Por: Yuri Messias*
O fim de uma relação pode mudar a rotina de uma família, mas não encerra o vínculo entre pais e filhos. Quando a convivência deixa de acontecer sob o mesmo teto, muitos pais passam a precisar encontrar novas maneiras de participar da criação, acompanhar o cotidiano dos filhos e manter uma presença ativa.
Neste Dia dos Pais, O São Gonçalo ouviu três pais que vivem situações familiares diferentes. Heron Machado, de 35 anos, divide a criação da filha entre duas casas depois do fim da relação com a mãe da menina. Marcelo Motta, de 39, nunca foi casado nem morou com a mãe da filha, mas procura participar da rotina da pequena Luísa, de 3 anos. Já Raimundo Geraldo, de 59, precisou criar a filha sozinho depois da morte da esposa. As três histórias começam em pontos distintos e esbarram na mesma questão: como continuar sendo pai quando a convivência não acontece sob o mesmo teto?
Leia também:
Helicóptero cai em área de mata na Vista Chinesa, no Rio, e deixa quatro mortos
Niterói promove manhã de inclusão e acessibilidade em celebração ao Dia dos Pais
Servidor público, Heron Machado descreve a relação com Maitê, de 8 anos, como muito próxima. Os dois se encontram com frequência, saem juntos e dividem as mesmas atividades. Segundo ele, a filha acompanha o pai naquilo que ele gosta de fazer, e a companhia virou parte da rotina dos dois.
"Nós somos muito amigos, muito próximos. As coisas que eu gosto de fazer, ela está sempre fazendo comigo."
A proximidade, no entanto, não elimina o principal desafio que ele enxerga na criação. A educação da menina acontece hoje em dois lares. Para Heron, criar é mais simples quando os pais dividem o mesmo teto, pois tudo se resolve no mesmo instante. Fora dele, a conta muda, e ele percebe isso tanto no que tenta ensinar quanto na própria filha.
"Às vezes uma coisa que eu tento corrigir aqui não é corrigida lá, e vice-versa. Às vezes a personalidade da minha filha é uma aqui e é outra na casa da mãe. Comigo ela pode ser um pouco menos bagunceira, e com a mãe, um pouco mais", afirma.
A separação também mudou a forma como ele encara o próprio papel como pai. Heron conta que passou a enxergar de outro jeito o peso de criar uma criança e a importância de se fazer presente como figura paterna. Ele reconhece que parte dessa virada pode ter vindo da maturidade e afirma que também ficou mais maduro com o fim do relacionamento.
"A separação me mostrou o tamanho da responsabilidade. Você tem uma responsabilidade para o resto da vida por uma vida", diz.
Um dos efeitos práticos dessa mudança aparece nos planos dele. O servidor conta que hoje pensaria duas vezes antes de ter outro filho, cautela que não existia quando foi pai pela primeira vez.
"Não sei se eu teria a mesma dedicação, se eu teria o mesmo tempo, se eu teria o mesmo olhar, tendo um filho só. (...) Hoje eu sou mais receoso, mais cauteloso."

A experiência de Marcelo Motta começa de outro ponto. Jornalista, ele é pai de Luísa, de 3 anos, mas nunca morou com a mãe da menina, e os dois nunca foram casados. A casa compartilhada, que a separação desfaz na vida de outros pais, no caso dele nunca chegou a existir. Como a filha ainda está em fase de amamentação, a convivência acontece principalmente por visitas, em fins de semana alternados. O calendário, porém, é o piso, e não o teto.
"Nunca faltei às visitas, mas minha presença não está restrita aos períodos determinados. Sempre estou com minha filha quando possível, ou quando há alguma emergência de ordem de saúde. Afinal, temos que ser pais em todas as horas", afirma.
Quando o encontro presencial não é possível, a conversa migra para a tela. As videochamadas partem tanto dele quanto da menina. Marcelo diz que a proximidade entre os dois é importante para o desenvolvimento da menina e que respeitar o espaço da mãe faz parte do arranjo. Para ele, o fato de não dividirem o mesmo endereço não interferiu na relação entre os dois.
O primeiro Dia dos Pais dos dois ficou guardado como uma cena simples, e ele o descreve como o melhor de todos.
"Ela passou o dia dormindo no meu colo. Mas era tudo de bom", lembra.
Em outro Dia dos Pais, com a filha já falando e brincando, a data rendeu mais. A troca de presentes, por enquanto, corre no sentido inverso do habitual, e o jornalista trata isso como uma etapa provisória.
"Enquanto ela é bebê, eu levo os presentes. Quando ela crescer, será a vez dela."
A chegada de Luísa também mudou o jeito dele de olhar para a própria vida. Marcelo afirma que a filha é o grande amor da vida dele e o verdadeiro significado do amor. Conta que passou a dar mais atenção ao tempo, ao aprendizado e às coisas pequenas depois que virou pai, coisas que, segundo ele, quem não tem filho costuma não notar.
"Quando o filho chega, tudo muda, nossa visão de mundo, tudo", resume.
Desde que a menina nasceu, os dois passaram todos os Dias dos Pais juntos. Este domingo já está reservado para a pequena.

A história de Raimundo Geraldo é diferente das anteriores. Aos 59 anos, o pensionista não precisou reorganizar a criação com a mãe da filha, porque, infelizmente, ficou sem ela. Pamela tinha 11 anos quando a esposa dele faleceu.
"Quando eu perdi a esposa, a luta foi grande, porque aí eu virei pai e mãe", conta.
Ao sofrimento da perda somou-se a responsabilidade de cuidar da menina sem alguém para dividir a rotina. Geraldo descreve o período como uma fase de muito esforço e faz questão de dizer que deu certo.
"Consegui criar minha filha com muita luta, muita correria, mas graças a Deus deu tudo certo."
A relação dos dois com a data, porém, é bem mais antiga. O pensionista lembra do primeiro Dia dos Pais que passou depois do nascimento da filha, quando ela ainda era um bebê.
"Ela era bebezinha, mas eu lembro muito bem dessa data. Foi uma felicidade."
O tempo passou e a comemoração continuou de pé. Pamela hoje é casada e mora em outra casa, mas o encontro anual resistiu à mudança de lar e à vida adulta dela. Depois do almoço, cada um volta para a sua casa, e Geraldo, que não tem mais companheira, trata o encontro como uma conquista.
"Só em passar o Dia dos Pais com o filho já é grande coisa."
A filha guarda dessa história uma memória que começa antes da perda. Do primeiro Dia dos Pais que consegue lembrar, o que ficou não foi o domingo, foi o que veio antes dele.
"Minha lembrança é de estar escolhendo presente pro meu pai com a minha mãe. E lembro de quando dei o presente a ele, mas o dia em si não."
Depois da morte da mãe, a data ganhou outro peso para ela. Hoje, o domingo é sobre o que aquele homem fez para dar conta de tudo, inclusive do que não sabia.
"O Dia dos Pais se tornou muito mais significativo, porque eu celebro o dia do homem que abdicou de muita coisa da vida dele para me dar uma educação boa e tentar entender o mundo feminino ainda mais."

As três histórias mostram arranjos familiares distintos. Para alguns pais, a nova rotina significa dividir a criação entre duas casas. Para outros, construir a convivência sem nunca ter compartilhado o mesmo endereço com a mãe da criança. Há também quem precise assumir a criação sozinho depois de uma perda. Em todos os casos, a relação segue sendo construída no dia a dia, em um almoço de domingo, em um passeio, em uma videochamada ou na disposição de estar por perto quando for necessário.
Neste domingo (9), cada um deles cumprirá a própria versão da data. Marcelo já preparou o recado para a filha.
"Luísa, obrigado por existir. A sua chegada me apresentou o verdadeiro significado do amor. Papai te ama muito."
Geraldo, que voltará a almoçar com Pamela, mandou o dele.
"Amo muito ela, é o presente infinito que Deus me deu. Sempre estarei aqui, pronto para ajudar no que estiver ao meu alcance, como pai presente."
*Estagiário sob supervisão.