Na era do streaming, rádio segue como a maior vitrine para novos artistas; entenda!
Estudos revelam que o rádio continua sendo a principal plataforma de música do mundo, proporcionando maior exposição para os sucessos musicais do que todas as demais plataformas somadas

Não é novidade que o rádio segue sendo o principal meio de comunicação de massa para descoberta de novos artistas. De acordo com a pesquisa da Jacobs Media, o rádio FM/AM continua sendo a principal fonte para o lançamento e consolidação da carreira de cantores dos mais variados gêneros. Ainda segundo o estudo, 32% dos ouvintes brasileiros apontam o rádio como a principal forma de encontrar "novidades musicais". Número expressivo, principalmente quando comparado com plataformas como Spotify (8%) e YouTube Music (7%).
Os dados evidenciam que, mesmo diante da popularização das redes sociais e serviços de streaming, o rádio ainda detém grande poder de influência sobre o público ouvinte, através de uma força que está diretamente relacionada à curadoria musical oferecida pelas emissoras, que, ao contrário dos algoritmos automatizados, detém profissionais que entendem o contexto cultural, o momento do público e a identidade de cada programação, gerando uma experiência mais humana, acolhedora e autêntica.
O rádio que consolida e chancela
Uma nova análise da Radiomonitor revela que o rádio continua sendo a principal plataforma de música do mundo, proporcionando maior exposição para os sucessos musicais do que todas as demais plataformas somadas. Na Europa, por exemplo, a audiência gerada pelo rádio é pelo menos cinco vezes maior que a do Spotify, número que se eleva para até 48 vezes em países como a Nigéria, onde o consumo de streaming ainda é limitado.
E globalmente o rádio acaba desempenhando um papel fundamental para a música, impulsionando a própria execução em streamings, vendas de ingressos para shows, vendas físicas, entre outros. Uma série de levantamentos anteriores já haviam apontado a importância do rádio para a música e, em especial, na capacidade do meio em manter um artista ou uma canção por mais tempo como sucesso.
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Ainda segundo o levantamento, o hit mais reproduzido no Spotify em 2024 foi “Espresso”, de Sabrina Carpenter, com 1,6 bilhão de streams globais na plataforma. No entanto, essa mesma faixa foi ouvida mais de 1,3 bilhão de vezes apenas nas emissoras de rádio do Reino Unido ao longo do ano, o que revela que o impacto do rádio vai além da simples reprodução das músicas. Ele impulsiona streams, downloads, vendas físicas e até mesmo a venda de ingressos para shows, uma fonte de renda essencial para artistas.
Além disso, programas ao vivo, entrevistas, notícias e debates culturais ajudam a manter o conteúdo dinâmico e ampliam a percepção de valor do rádio como meio de comunicação, pois em tempos onde os algoritmos dominam, o fator humano continua sendo um diferencial, como é o caso da Rádio Mania, fundada no ano 2000 pelo Grupo Universo, em Niterói, e possui como grande característica o foco no estilo popular, com programas que visam potencializar o artista.
Veja alguns nomes que marcaram presença nos programas da rádio:
- Thiaguinho: O cantor Thiaguinho trouxe seus sucessos para o Centro de Niterói quando marcou presença na Rádio Mania em 2023. O artista foi a atração principal do programa ao vivo e cantou alguns de seus sucessos mais badalados, aproveitando ainda para cantar alguns clássicos de outros artistas, como Rick e Renner e Raça Negra, mantendo a 'tradição' que se iniciou em seu último álbum, o "Meu Nome é Thiago André", em que o artista regravou músicas que gosta de ouvir para comemorar seus 20 anos de carreira.

- Molejo: O grupo Molejo, um dos maiores vendedores de discos, principalmente no gênero samba/pagode, se apresentou no programa Mania Ao Vivo cantando e contando aos ouvintes sobre o início de carreira e o momento em que começaram a conquistar maior espaço no cenário musical. O grupo tinha o sonho de ouvir suas músicas tocando na rádio, mostrando a importância do meio de comunicação como grande impulsionador de artistas.
"Meu pai ligou e falou: 'fica ligado porque vai tocar na rádio'. Avisei a galera do grupo, mas não colocamos muita expectativa e até mesmo desacreditamos que iria realmente tocar. Foi então que tocou e ouvimos nossa música pela primeira vez, sendo mostrada ao país inteiro, foi uma emoção indescritível", disse o vocalista do grupo à época.

- Arlindinho: O cantor, filho do eterno e memorável nome do samba, Arlindo Cruz, se apresentou no programa Mania Ao Vivo e contou sobre as novidades da sua carreira, seus projetos e inspirações, além de falar, emocionado, sobre a importância do seu pai, Arlindo Cruz, na sua história. Ele também fez questão de ressaltar que, das quatro faixas de seu novo projeto, duas já estavam tocando nas rádios, garantindo assim, ao artista, uma resposta muito positiva para o seu trabalho.

Diferente da "Era de Ouro do Rádio" (quando era a principal forma de entretenimento e lançamento), hoje o rádio funciona como um complemento essencial ao ecossistema digital, chegando, até mesmo, em locais onde nem mesmo a internet se faz presente. Onipresente na vida os brasileiros, ele valida o sucesso de uma música, aumenta o cachê do artista e, principalmente, atinge milhões de pessoas em áreas rurais e no interior do país, onde a internet não é tão acessível ou é cara. Para muitos artistas, o rádio é o principal meio para descobrir novas músicas e artistas.
Confira outros artistas que tiveram/tem suas carreiras atravessadas pelas passagens pelos rádios do país:
- Zezé de Camargo e Luciano: A carreira dos artistas teve forte alicerce no rádio, meio que eles consideram fundamental para o sucesso e longevidade. Zezé, inclusive, já deu entrevistas onde afirma que o rádio é o principal responsável pela permanência da dupla, sendo o primeiro contato musical diário das pessoas ao ligar o carro, por exemplo.
- Gilberto Gil: Grande amante das músicas desde a infância, o cantor começou a tocar instrumentos e compor ainda muito novo e, da adolescência para a juventude, onde participou de diversos grupos que se apresentavam entre amigos e em pequenas festas. Pensando em sua carreira como compositor, porém, Gil também teve suas origens dentro da rádio na produção de jingles comerciais, que renderam ao artista seus primeiros contratos para a gravação de compactos e discos.
- Raimundo Fagner: Com pai cantor libanês radicado no Brasil e a família da mãe repleta de músicos, Raimundo Fagner foi influenciado desde cedo a se dedicar à música. Quando tinha apenas seis anos de idade, o artista se apresentou pela primeira vez em uma rádio local e já chamou atenção até dos mais experientes cantores de rádio. Em 1955, aos sete anos, Fagner ganhou seu primeiro prêmio, como o melhor intérprete da canção “Mãezinha Querida” em um festival de Dia das Mães da emissora Ceará Rádio Clube.
Outros artistas brasileiros contemporâneos, especialmente nos gênero pagode e sertanejo, também seguem com uma carreira fortemente alavancada e consolidada através da execução massiva das músicas nas rádios do país, como é o caso de Gusttavo Lima [que aparece consistentemente no topo dos rankings de execução em rádio no Brasil, com milhares de execuções anuais que sustentam sua popularidade e alcance nacional; Zé Neto & Cristiano, Henrique & Juliano, e Jorge & Mateus [duplas sertanejas que figuram entre os cinco artistas mais tocados, demonstrando a contínua relevância do rádio para o sucesso do gênero; Luan Santana [outro nome forte do sertanejo que mantém uma presença marcante nas programações radiofônicas] e Ana Castela e Lauana Prado [cantoras que embora tenham crescido com a ajuda das mídias digitais e programas de TV, têm suas carreiras solidificadas e impulsionadas pela execução contínua nas rádios]; Grupo Menos É Mais e Sorriso Maroto [grupos de pagode que também utilizam a rádio como um meio importante para divulgar suas músicas e manter a base de fãs].
E não se pode esquecer daqueles que se foram, mas deixaram suas marcas eternizadas nas composições e passagens por cada rádio onde puderam se apresentar e mostram que, independente do tempo e das gerações, a rádio não só resiste, mas se potencializa e destaca a cada novo ano que chega. São eles:
- Carmen Miranda (1909-1955): Uma das mais consagradas e referenciadas artistas brasileiras em todo o mundo, a cantora, atriz e dançarina teve seu início nas "ondas" de rádio. Atuando primeiramente como atriz em radionovelas da Rádio Sociedade Professor Roquete Pinto, em 1929 a artista foi notada pelo diretor da emissora, que encomendou uma versão do samba “Não Vá Sim’bora”, que estabeleceu Carmen como uma grande artista popular da época.
- João Gilberto (1931-2019): Considerado um dos músicos brasileiros mais geniais e revolucionários de todos os tempos, João Gilberto nasceu em Juazeiro, na Bahia, e é o responsável pelo clássico violão da Bossa Nova. Amante da música desde criança, sua carreira começou aos 18 anos na capital baiana, quando abandonou os estudos para se dedicar à música, quando passou a se apresentar na Rádio Sociedade da Bahia em 1947.
- Elis Regina (1945-1982): Considerada a maior cantora brasileira de todos os tempos por muitos amantes e críticos de arte, Elis começou sua carreira na música aos 13 anos, em 1958, como cantora mirim na então Rádio Gaúcha. Dentro da emissora, era chamada pelos colegas e diretores de “A Estrelinha”, por seu jeito de artista e por brilhar nos vocais mesmo com a pouca idade, tendo conquistado duas vezes o prêmio de “Melhor Cantora da Rádio Gaúcha” ainda na adolescência.
- Tim Maia (1942-1998): Antes mesmo da criação do grupo The Sputniks, que lançou as carreiras dos jovens Tim Maia e Roberto Carlos, em 1957, o cantor e compositor carioca na época conhecido como "Tião Maia" se apresentava como baterista e percussionista dos Tijucanos do Ritmo. Em meados dos anos 1950, o grupo se apresentava como banda de apoio em rádios e TVs do Rio e, na época, o artista foi incentivado a trocar seu pseudônimo pela sonoridade de “Tião” no rádio .
- Nelson Gonçalves (1919-1998): Nelson Gonçalves é reconhecido por seus trabalhos como radialista e músico, ficando conhecido, inclusive, como o “Rei do Rádio”, trabalhando em emissoras como a Rádio São Paulo e a Rádio Mayrink Veiga, onde decolou com suas composições.