Rio Sapê: comunidade se mobiliza para recuperar biodiversidade e resgatar memórias
Projeto "Meu Rio, Minha Vida" une moradores, escolas e instituições em Niterói para limpar o Rio Sapê e devolver seu valor ambiental, social e educacional

O Rio Sapê, localizado no bairro do Sapê, em Niterói, sofre com a presença de lixo, entulho e produtos químicos que poluem suas águas e margens, ameaçando a biodiversidade e a saúde dos moradores. Para reverter esse cenário, o projeto “Meu Rio, Minha Vida” une comunidade, instituições de ensino e órgãos públicos com o objetivo de limpar o rio, recuperar o ecossistema e transformar o espaço em uma área de convivência, lazer e educação ambiental.
Antigamente, quando o Rio Sapê ainda mantinha suas águas cristalinas, os moradores da região utilizavam o espaço como fonte de alimento e lazer. A pesca era comum, e o rio servia de cenário para a infância das crianças, que nadavam e brincavam em suas margens. Hoje, essa realidade ficou no passado. Devido à intensa poluição, com lixo e espuma de produtos químicos, os mais jovens já não têm acesso a esse contato com a natureza, privado de uma vivência que marcou gerações anteriores.
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“Na década de 80 e 90, era um rio muito utilizado pela população local. Chegamos até a ter camarão nesse rio. Era um rio limpo e usávamos como área de lazer. [...] Com os anos atuais, com o crescimento da população, a questão do lixo doméstico foi poluindo o rio. O lixo doméstico é uma das causas. A outra é o despejo de material de obras, que está sendo lançado hoje no rio. É isso que afeta”, explicou Roberto Rosa, de 60 anos, ex-presidente da Associação de Moradores e fundador do projeto ambiental Meu Rio, Minha Vida.

Ainda de acordo com o fundador do projeto, a população é diretamente afetada pela poluição por não conseguir usufruir do recurso hídrico.
“Com a poluição, o rio vai desaparecendo, ele vai morrendo. Hoje, está completamente poluído, e a população sente a falta, porque esteve muitos anos utilizando esse espaço. Era um espaço público, de lazer. [...] Quando chove, ali é uma bacia hidrográfica. Esse rio, se não me engano, tem quatro bacias ao redor. Com a chuva, a via principal, que é a Washington Luís, fica intransitável”, contou Roberto.

Vendo a poluição do rio se agravar a cada dia, a população local sofre com enchentes constantes. Além do risco da criação de um condomínio na localidade, um grupo de moradores começou a luta pela segurança do Rio Sapê há mais de uma década.
“O projeto nasceu pelo fato de sermos crias da comunidade, termos o conhecimento do rio e vermos o rio desaparecendo aos poucos. A gente tem lutado desde 2013. Na época, eu estava como presidente da associação de moradores, e pensou-se em criar um condomínio no espaço. A gente lutou pelo rio. Hoje, a gente fez essa iniciativa juntamente com os entes envolvidos, para o fortalecimento da ideia de que precisávamos revitalizar esse rio, melhorar esse rio, sobreviver!”, disse Roberto.

Junto com os moradores, liderados por Roberto, professores do Instituto Federal do Rio de Janeiro, de Niterói (IFRJ), e da Escola Levi Carneiro, com a Fazenda Carvalho, a Casa Maria de Magdala, a Missão Batista e a Águas de Niterói, além de esforços públicos representados pela Secretaria de Meio Ambiente de Niterói, se uniram para fortalecer o projeto Meu Rio, Minha Vida, que busca limpar o rio e incentivar que o local seja um ambiente de lazer, mas também de estudos.
“A população, por iniciativa popular, da comunidade, partindo de mim, criou o projeto Meu Rio, Minha Vida, que é um projeto ambiental com o intuito de limpar o rio, buscando a renaturalização desse rio, que é uma forma de mitigar os impactos da poluição. A população tem a ideia de que, uma vez limpo, o rio pode ser revitalizado, criando-se um parque, uma trilha ecológica para o turismo local. É isso que a população espera com a limpeza do rio”, contou Roberto.

Apesar dos esforços do projeto, ainda é perceptível a grande quantidade de lixo e espuma de produtos químicos ao longo do Rio Sapê. Contudo, os moradores mais antigos já conseguem perceber uma melhora por parte da população.
“A gente percebe pouca, mas alguma melhora. Observamos que há interesse da comunidade em rever o rio, no qual os moradores antigos têm experiência própria. Eu, no caso, tomei muito banho no rio, pesquei muito peixe. Além disso, lembro que, quando criança, naquela época, não havia água no nosso bairro. Era água de poço; as senhoras iam para o rio lavar as roupas nas pedras. A maioria trabalhava assim, lavando roupa para fora. Isso nos faz lembrar as dificuldades daquela época e a facilidade que temos hoje”, contou o morador Carlos Eduardo Estrela, de 71 anos.

Mesmo com todos os apoiadores, ainda é cedo para afirmar quando o Rio Sapê, que tem sua nascente no Parque da Colina, terá suas águas cristalinas de volta, pois a colaboração necessária vem principalmente de empresas.
“A gente não tem um cronograma tipo ‘ah, quando o rio vai estar próprio para banho?’. A gente ainda não tem isso, porque dependemos do poder público e também de instituições como a Águas de Niterói. Já traçamos um plano de contato com eles, mas ainda é algo incerto. A gente não tem uma data de quando vai iniciar. Inclusive, a ligação de algumas casas aqui do bairro ainda não está ligada à rede de esgoto; vai direto para o rio”, explicou Bruno Gomes, de 37 anos, professor de Gestão e Inovação do IFRJ, que propôs que o Meu Rio, Minha Vida fosse um projeto de extensão.

Educação aliado ao Rio Sapê
A partir da mudança de pensamento da comunidade em relação ao Rio Sapê, muitas crianças estão conhecendo e estudando mais sobre a natureza durante o processo de recuperação, graças ao projeto.
“Com todo esse trabalho da equipe do IFRJ com a comunidade, o professor Ney, da Escola Municipal Levi Carneiro, tem um trabalho com os alunos de monitoramento da água, e tivemos uma visita guiada desses alunos dentro do rio, fazendo esse monitoramento. Então, já é um caminho que temos conquistado a respeito da melhoria dele”, disse Roberto.

Para o professor Bruno, quando o Rio Sapê estiver despoluído, será um ambiente natural propício para que os alunos das instituições parceiras possam ter contato saudável com a natureza e também aprender a preservar o meio ambiente.
“Além da questão de revitalizar, de realmente limpar e fazer a drenagem, estamos buscando ampliar o projeto, criando uma trilha ecológica, possibilitando a criação de um observatório, levando os alunos para fazer práticas extensionistas no entorno do rio, tanto aqui (IFRJ) quanto na Escola Municipal Levi Carneiro. Acreditamos que o IFRJ pode ser um elo entre instituições públicas e privadas para atrair os olhares para o cuidado com esse rio”, explicou o professor Bruno, do IFRJ.

O principal objetivo do projeto Meu Rio, Minha Vida é melhorar as condições do rio. Entretanto, para a comunidade estudantil local, a iniciativa simboliza uma oportunidade de conhecimento.
“Temos aqui dois cursos diretamente ligados à questão ambiental, como o curso de pós-graduação em Projetos Ambientais. E temos a intenção de, nos próximos anos, criar o curso de Engenharia Ambiental. Hoje, o nosso instituto tem duas engenharias na graduação, e o terceiro curso no eixo de meio ambiente seria Engenharia Ambiental. Então, vemos esse projeto como uma forma de inserção também nesse terceiro eixo”, explicou o professor.

Rio Sapê e comunidade
O projeto Meu Rio, Minha Vida participará, no dia 1º de outubro, de um evento promovido em parceria com a Associação de Moradores e a Secretaria de Meio Ambiente de Niterói, com o objetivo de analisar iniciativas semelhantes que obtiveram resultados positivos.
“Vamos trazer políticas sociais de renaturalização de rios que deram certo, para nos inspirarmos e chamar a população para dentro do projeto. Vamos doar mudas para plantio e também colher experiências de moradores que aproveitaram o rio no passado, para reviver isso novamente”, disse Bruno Gomes.








Sob supervisão de Marcela Freitas