Após acidente em estaleiro no Barreto, ex-funcionários denunciam falta de segurança: 'Situação só piora'

Um acidente deixou dos funcionários da empresa mortos na última segunda-feira (26)

Escrito por Ana Carolina Moraes 27/07/2021 17:25, atualizado em 27/07/2021 18:12
Acidente ocorreu na última segunda-feira (26)
Acidente ocorreu na última segunda-feira (26) . Foto: Filipe Aguiar

Após o acidente que causou a morte de dois homens identificados como Nilo de Paula, de 68 anos, e José Henrique da Silva, de 45, ambos funcionários do estaleiro da empresa Renavi, nessa segunda-feira (26), O SÃO GONÇALO recebeu outras denúncias de ex-funcionários destacando diversos problemas com a segurança. Lembrando que a Renavi é atualmente considerada uma das maiores no quesito de reparos navais da América Latina.

O ex-caldeireiro Leonardo Álvares Cardoso, de 39 anos, afirmou que já comeu refeições azedas no local. Ele afirma também que a empresa demora a prestar assistência aos funcionários quando estes precisam de médicos na Ilha do Viana, localizada na Baía de Guanabara, onde ficam aqueles que atuam no reparo de navios.

Leonardo atuou na empresa por dois anos, mas pediu demissão há dois meses. Segundo ele, sempre havia questões que a empresa impunha para pagar menos aos funcionários intermitentes. "Um funcionário intermitente só ganha quando trabalha, ganhamos por segundo. No nosso contrato dizia que ganhávamos de acordo com as horas trabalhadas, então, o cálculo do nosso salário era em cima disso, quando tralhávamos mais, as vezes, não recebíamos tudo que tínhamos para receber. Aos fins de semana, só ganhávamos 50% dos valores combinados. Diversas vezes nossos salários vinham diferente do que combinávamos ou do que tinha no contrato", contou ele,  que hoje tem seu negócio próprio, na empresa 'Metalmente Rústico'. 

Outra questão, segundo o ex-funcionário da empresa, é que muita gente que é intermitente não recebeu o seguro-desemprego; e nem sempre a empresa cumpria os horários com os funcionários, descontando do salário deles no final do mês.

"Tinha horário para a nossa balsa sair, mas se a gente chegasse no horário e a balsa não estivesse lá para nos levar da costa para a ilha, era descontado do nosso salário, como se a culpa do atraso da balsa fosse nossa. A gente chegava cedo para cumprir os horários, mas a própria balsa não. Além disso, quando a gente precisava de suporte médico na ilha, um enfermeiro tinha que sair a pé da sua base, que fica longe de onde trabalhamos, verificar o caso e depois retornar para a sua base, pegar seu carro, ir novamente até aquele que precisava de ajuda e levá-lo para a balsa para saírem da ilha. O pior ainda é que tinham que esperar o horário da balsa para sair da ilha, mesmo com o funcionário passando mal, pois o dono afirmava que iria gastar muito combustível. Tinham 6 botes, conhecidos como praieiras, na ilha que nunca eram usados, nem para emergências como essas. Tínhamos que esperar a balsa que saía de 45 em 45 minutos. Um amigo meu teve um mal súbito e esperou a barca, quase morreu. Detalhe que se você usar um dos seis botes, mesmo passando mal, a responsabilidade é sua e não mais da empresa e você ainda tem que pagar", relatou.

O ex-funcionário da empresa contou que no auge da pandemia haviam balsas cheias de pessoas, causando aglomeração e que isso fazia ele e outros funcionários se sentirem inseguros. "Eles não têm respeito por ninguém. Muitas vezes colocavam os soldadores para vigiar a gente nos tanques, por exemplo, isso é errado, pois quem tem que vigiar a gente é uma pessoa específica e não o cara que também está soldando. Não tinham placas, caso alguém morresse nos tanques. A comida é podre, completamente azeda, principalmente no turno da noite. E ainda sem contar a falta de equipamentos de proteção individual (EPIs) que você só tinha direito a um, além de roupas que era uma a cada seis meses, as vezes, andávamos com roupas rasgadas e tínhamos que esperar os seis meses para trocar. É cada coisa que se falar, só piora!", relatou Leonardo.

O caso do acidente

Dois homens perderam a vida após o desabamento de um dique no estaleiro nessa última segunda-feira (26), no Barreto, em Niterói. Com isso, duas famílias perderam seus entes queridos e sofrem o luto. Um vídeo que está circulando na internet mostra um homem contando como foi o acidente. Ele, que estava no dique quando este afundou, contou que haviam dois lados do dique, um estava com a tampa fechada e outro estava aberta, entrando água. 

"Do lado de cá ainda estava mais tranquilo, aí foi quando eu meti a mão (na escada) e aí apagou tudo, apagou a luz do tanque. Aí eu fui subindo a escada por conta da pressão da água, chegou lá em cima a tampa da passagem estava fechada, aí eu falei 'pronto, deu ruim'. Eu pensei, na hora, que o Henrique, que estava em cima, estava segurando para não entrar água. Quando eu senti que aliviou, eu empurrei a tampa e a pressão... já fui tentando nadar, tentando sair", contou ele no vídeo. Ele ainda conta que começou a nadar e sentiu dificuldade por estar de bota e casaco. Ele disse que chegou a ver o Nilo tentando subir a escada para alcançar uma das portas, mas a pressão da água derrubou os dois. Ao final, ele lembra que viu os amigos jogando EPIs fora, mas que não conseguiu mais identificar ninguém enquanto nadava para tentar se salvar.

Em uma página no Facebook, algumas outras pessoas afirmam terem trabalhado para o estaleiro em questão e que sempre sentiram problemas com relação à segurança da empresa. "Muito triste, que não é a primeira vez, trabalhei lá e eles sempre dão um jeito de esconder da mídia", contou uma pessoa. "Eu aprendi a minha profissão nesse estaleiro e sei que a culpa não é da segurança do trabalho, mas sim do próprio estaleiro, que não dá suporte para esses profissionais. Eu comecei lá em 1989 e vi tanta gente morrer... voltei em 2020 e vi pouca melhora (...)", disse uma segunda pessoa.

A família das vítimas conversou com o OSG. 

Procurada, a empresa não se pronunciou sobre o caso.

Gostou da matéria?
Compartilhe!

Veja também

Mais lidas