Filho de funcionário morto em estaleiro Renave afirma: "Foi um herói!"

O caso segue sendo investigado pela Marinha do Brasil

Escrito por Renata Sena e Ana Carolina Moraes 27/07/2021 10:31, atualizado em 27/07/2021 11:23
O caso ocorreu na última segunda-feira (26)
O caso ocorreu na última segunda-feira (26) . Foto: Filipe Aguiar/ Arquivo

"Ele viveu para a empresa e morreu pela empresa. Meu pai é um herói, pois ele salvou uma vida, graças a Deus, ao meu pai, um pai de família vai poder voltar para casa para a sua família". o desabafo emocionado é do estudante de educação física Matheus Henrique da Silva, de 22 anos, filho de José Henrique Pereira da Silva, de 45 anos, que morreu em um acidente na última segunda-feira (26), enquanto trabalhava em um dique flutuante da empresa Renavi, no Barreto, em Niterói. Matheus é o filho mais velho do brigadista. A família do jovem segue em luto, mas afirma que José morreu como um herói, já que sempre viveu para o trabalho e que, mesmo no fim, se dedicou para salvar seus amigos. José foi o responsável pelo resgate de outros de seus dois colegas que estavam com ele no momento do acidente. Antes de vir à óbito, José também tentou salvar Nilo Francisco de Paula, de 68 anos, que também era funcionário da Renavi, mas não obteve êxito. Os corpos dos dois foram encontrados de mãos dadas.

Sobre o caso, o jovem contou que seu pai sempre se dedicou ao trabalho e era reconhecido por todos por sua dedicação. "Meu pai era trabalhador, um homem bom, como todos o conheciam. Ele saía de casa às 5h da manhã e chegava às 22h. Tinham dias que eu não o via. Eu estava há 3 dias sem vê-lo e agora vou ver ele no caixão, no enterro dele. Eu chegava tarde do trabalho e ele também. Isso machuca muito! Meu pai é um herói. Meu pai não tinha faculdade, nem ensino médio, mas ele com o ensino fundamental dele, ele conseguia trabalhar e todo mundo sabe como ele trabalhava bem. Ele esteve 22 anos por aquela empresa", contou ele.

José era uma pessoa que realmente tinha amor à sua profissão. Ele já tinha a possibilidade de se aposentar pelo tempo de serviço, mas, mesmo assim, dizia que não iria parar. 

Matheus relembra que além da persistência e da dedicação ao trabalho, seu pai vai deixar diversos momentos felizes em sua memória. "Minha última lembrança com ele foi maravilhosa! Foi no último domingo (25), no jogo do Flamengo, que o time ganhou do São Paulo por 5 a 1. Eu lembro de estar pulando, batendo na mão dele e falando "pai, pai, pai", a gente estava comemorando. Era uma coisa que nós fazíamos juntos, torcer pro Flamengo. A roupa que trouxemos hoje para ele é a do Flamengo. O meu sonho é me tornar um profissional de educação para unir essa paixão pelo esporte com a minha profissão", contou o jovem.

Além de Matheus, José deixou mais um filho caçula e uma outra filha de consideração.

A família de Nilo Francisco de Paula, de 68 anos, mora quase toda em Friburgo, no entanto, sua filha Débora Damas de Paula, de 40 anos, esteve no Instituto Médico Legal (IML) do Barreto para conseguir seguir com os trâmites para o enterro de seu pai. 

"Meu pai trabalha no Renave há cerca de 15 anos, acredito eu, mas não consigo ter certeza, pois não achamos nenhum documento dele. Nem carteira, nem chave, nada. Tudo podia estar no bolso dele no momento do ocorrido ou pode ter sido encontrado por um bombeiro, não sei. Agora, abriram o armário do trabalho do meu pai e só tinha a roupa que ele usou ontem e o Riocard", contou ela.  

Para Débora, seu pai dedicou a vida ao trabalho, mas, mesmo após a sua morte, a empresa que cuidava do estaleiro em que seu pai atuava não acatou os pedidos dos familiares.

"Eu soube do caso pelo Facebook, nem entrar em contato com a gente a empresa entrou. Pedi aqui para eles pagarem o jazigo do meu pai para enterrarmos ele no Cemitério Parque da Paz, já que os amigos e conhecidos do meu pai moravam na área, para que todos pudessem ir ao enterro e se despedir dele comigo, mas não aceitaram, eles se recusaram a pagar. Eles querem que meu pai seja enterrado pelo município, o que eu me recuso, já que meu pai deu a vida pela empresa, trabalha aqui há anos, viajou e tudo pela empresa. Pedi, então, que a empresa pagasse, pelo menos, o translado até Friburgo para meu pai se enterrado próxima da família, já que lá temos um jazigo. Eu fico chateada, já que não soube de nada por eles, mas sim pela internet. A gente não sabe como era a segurança no trabalho deles, comentaram que eles estavam sem os equipamentos de proteção individual (EPIs), não sabemos como era essa balsa que eles ficavam, nem nada. Ninguém "grandão" da empresa veio falar com a gente, mandaram alguém do RH. Meu pai era aposentado, mas continuava trabalhando, se dedicando à empresa", disse ela.

Além de sua filha, Nilo também tem uma ex-esposa que mora na região.

Relembrando o caso

Dois metalúrgicos, identificados como Niro de Paula, de 68 anos, e José Henrique da Silva, de 45, morreram após um acidente com um dique flutuante da empresa Renavi no fim da manhã desta segunda-feira (26), no Barreto, em Niterói.

De acordo com o Corpo de Bombeiros, equipes foram acionadas para o local às 11h38 para fazer o socorro de uma embarcação que afundou perto da Ilha do Viana, próxima de onde o dique estava sendo construído. 


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