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Pioneira do futebol feminino, Cenira Sampaio, capitã da Seleção Brasileira, relembra a luta que transformou a modalidade

Cenira fez história em clubes como Flamengo, Radar e Vasco

relogio min de leitura | João Pedro Pereira 05 de julho de 2026 - 08:00
Cenira Sampaio foi capitã da Seleção Brasileira na primeira Copa do Mundo Feminina
Cenira Sampaio foi capitã da Seleção Brasileira na primeira Copa do Mundo Feminina -

Falta cerca de um ano para o pontapé inicial da Copa do Mundo Feminina de 2027, sediada no Brasil. Será a 10ª edição do Mundial e, pela primeira vez, a competição será disputada na América do Sul.

A equipe comandada por uma nova geração, que reúne nomes experientes como Marta e jovens promessas como Tainá Maranhão, representa o presente do futebol feminino brasileiro. Mas a trajetória que levou o país a sediar uma Copa do Mundo começou muito antes, graças às atletas que enfrentaram preconceitos, falta de estrutura e pouca visibilidade para abrir caminho para as gerações seguintes.

Entre essas pioneiras está Cenira Sampaio. Ex-meia e um dos grandes nomes da história do futebol feminino brasileiro, ela foi capitã da Seleção Brasileira nas duas primeiras edições da Copa do Mundo Feminina, disputadas em 1991, na China, e em 1995, na Suécia.

Cenira Sampaio foi capitã da Seleção Brasileira na primeira Copa do Mundo Feminina
Cenira Sampaio foi capitã da Seleção Brasileira na primeira Copa do Mundo Feminina |  Foto: Layla Mussi

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Hoje, aos 61 anos, Cenira conta que começou a jogar bola aos 7 anos de idade, na rua, com os irmãos.

“Eu sempre joguei bola com meus irmãos, meus parentes. Eu comecei com 7 anos jogando bola na rua, foi assim que tudo começou”, conta.

No Brasil, entre 1941 e 1979, as mulheres foram proibidas de jogar futebol. Em 1941, durante o Estado Novo, foi publicado o Decreto-Lei nº 3.199, de 14 de abril, que dizia, em seu artigo 54, que: "Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país".

Em 1965, já durante a Ditadura Militar, foram detalhados os esportes considerados “incompatíveis” para as mulheres: lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo aquático, polo, rugby, halterofilismo e beisebol.

Foi nesse contexto de proibição que Cenira deu seus primeiros chutes na bola, apoiada por sua mãe. “Minha mãe sempre incentivou, meu pai não gostava, queria que eu jogasse basquete. Eu joguei um pouquinho de basquete, mas eu gostava mais de futebol.”

Cenira contou com o apoio materno e insistiu em seu sonho
Cenira contou com o apoio materno e insistiu em seu sonho |  Foto: Layla Mussi

Em 1979, o decreto que proibia a prática do esporte por mulheres foi revogado, culminando na regulamentação da modalidade em 1983.

Cenira conta que começou jogando futebol de areia pelo Leminho. Durante um campeonato disputado em Cabo Frio, o proprietário do Esporte Clube Radar, impressionado com o desempenho das atletas após uma derrota para o Leminho, convidou a equipe para integrar o recém-criado departamento de futebol feminino do clube. Foi nesse momento que a ex-jogadora fez a transição da areia para o campo, iniciando a trajetória que a levaria à Seleção Brasileira. O Radar foi apenas o primeiro clube de sua carreira de sucesso, com passagens por Flamengo, Vasco, Corinthians, Portuguesa, Palmeiras e São Paulo.

A ex-jogadora lembra que, apesar de o Brasil ter participado da edição experimental do Mundial, em 1988, ela não foi convocada. A oportunidade veio três anos depois, quando disputou a primeira Copa do Mundo Feminina oficial da Fifa, realizada na China, em 1991, carregando a braçadeira de capitã da Seleção Brasileira.

"Em 1988 já teve uma experimental, mas eu não fui. Em 1991 foi oficial mesmo. Eu fui a primeira capitã na China", relembra.

Cenira em destaque com as atletas da Seleção Brasileira em 1991
Cenira em destaque com as atletas da Seleção Brasileira em 1991 |  Foto: Divulgação/ CBF

Quatro anos depois, Cenira voltou a defender a Seleção na Copa do Mundo de 1995, disputada na Suécia. Ela destaca o orgulho de ter participado do início da trajetória da equipe em competições internacionais.

Cenira em ação pela Seleção na Copa de 1995, em partida contra a Alemanha
Cenira em ação pela Seleção na Copa de 1995, em partida contra a Alemanha |  Foto: Reprodução/ Bongarts/ Getty Images

Naquela época, porém, a realidade era muito diferente da estrutura encontrada pelas atletas atualmente. Segundo Cenira, a falta de investimento fazia parte da rotina das jogadoras.

"Antigamente, a gente jogava praticamente em campo de areia. A gente treinava o dia inteiro, comprava nossa própria marmita para poder se alimentar. Era totalmente diferente de hoje."

A ex-jogadora comenta as dificuldades enfrentadas por atletas de sua época
A ex-jogadora comenta as dificuldades enfrentadas por atletas de sua época |  Foto: Layla Mussi

Mesmo diante das dificuldades, o futebol transformou sua vida. Cenira conta que foi por meio do esporte que conseguiu concluir a graduação em Educação Física e conhecer diversos países.

"Graças a Deus, foi o futebol que me permitiu fazer a minha faculdade e conhecer cinco continentes."

Para Cenira, ela e as demais atletas de sua geração tiveram um papel fundamental para que o futebol feminino conquistasse espaço no Brasil. Embora considere que ainda falte reconhecimento às pioneiras, ela acredita que o trabalho realizado abriu caminho para as novas gerações.

"Nós fomos pioneiras nisso. Ainda falta muito reconhecimento por parte das pessoas em relação ao nosso trabalho, mas o futebol feminino cresceu muito."

Cenira e seu neto jogando bola no estádio Caio Martins, em Niterói
Cenira e seu neto jogando bola no estádio Caio Martins, em Niterói |  Foto: Layla Mussi

Ela também acredita que a realização da Copa do Mundo Feminina de 2027 em solo brasileiro representa uma oportunidade única para impulsionar ainda mais a modalidade.

"É muito importante. Espero que isso faça as pessoas valorizarem mais o futebol feminino. Hoje os clubes praticamente são obrigados a ter equipes femininas, e isso ajuda no crescimento."

Atualmente, morando no bairro Engenhoca, em Niterói, Cenira continua ligada ao esporte. Aos 61 anos, atua como professora de Educação Física e dá aulas de futebol no Complexo Esportivo Caio Martins, contribuindo para a formação de novos atletas e compartilhando a experiência acumulada ao longo de uma carreira que ajudou a escrever os primeiros capítulos da história da Seleção Brasileira feminina.

Pioneira da Seleção Brasileira feminina, Cenira Sampaio hoje compartilha sua experiência com novos atletas no Complexo Esportivo Caio Martins, em Niterói.
Pioneira da Seleção Brasileira feminina, Cenira Sampaio hoje compartilha sua experiência com novos atletas no Complexo Esportivo Caio Martins, em Niterói. |  Foto: Cenira Sampaio/ Arquivo Pessoal

Às meninas que sonham em seguir carreira no futebol, ela deixa um conselho simples.

"Que elas foquem no que querem. O futebol feminino vai crescer, tenho certeza disso."

A expectativa para a Copa do Mundo de 2027 também é de confiança. Depois de ajudar a construir os alicerces da modalidade no país, Cenira espera ver a Seleção conquistar, enfim, o título inédito diante da torcida brasileira.

"Vamos ganhar essa Copa do Mundo, se Deus quiser", finalizou.

Sob supervisão de Marcela Freitas 

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