Cordel conquista espaço na Flip, mas ainda pede protagonismo à altura de sua importância cultural
Entre os dias 23 e 25 de julho, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) promoveu a Casa do Cordel, transformando seu Escritório Técnico na Costa Verde em um ponto de encontro para cordelistas, pesquisadores, artistas e público interessado nessa tradição literária

A presença da Literatura de Cordel na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) reforçou um debate cada vez mais necessário: embora reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil desde 2018, o cordel ainda ocupa um espaço tímido na programação dos grandes eventos literários do país.
Entre os dias 23 e 25 de julho, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) promoveu a Casa do Cordel, transformando seu Escritório Técnico na Costa Verde em um ponto de encontro para cordelistas, pesquisadores, artistas e público interessado nessa tradição literária. A iniciativa reuniu oficinas, mesas de debate, palestras, aulas-show, lançamentos de folhetos, apresentações culturais e atividades de formação, distribuídas também pelo Museu de Arte Sacra de Paraty e pela Praça do Cordel, no Centro Histórico da cidade.
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A programação gratuita potencializou a força do gênero como expressão artística viva, popular e profundamente ligada à memória, à oralidade e à identidade brasileira. No entanto, na opinião de alguns literatos, ainda assim, a concentração das atividades em uma programação paralela evidencia que há espaço para um avanço maior: incorporar o cordel de forma mais significativa à programação principal da Flip e de outros festivais literários.
No último sábado (25), uma das mesas mais representativas da programação foi "A importância das academias de letras para o cordel", reunindo os acadêmicos Jordão Pablo de Pão (AGLC/AFL) e Zé Salvador (AGLC/ABLC). Durante o encontro, os pesquisadores apresentaram a trajetória das academias dedicadas ao gênero, discutiram seus processos de fundação e destacaram o papel dessas instituições na preservação da memória, da pesquisa e da produção artística nacional. A atividade foi articulada pelo Iphan e pelo Ministério da Cultura.

A Casa do Cordel reuniu, além da programação formativa, importantes nomes da produção contemporânea do cordel brasileiro. Entre os destaques o lançamento do cordelista Zé Salvador, 'Eu sou Lucas, um autista', obra inspirada em uma história real e narrada por um jovem no espectro autista que revisita as próprias memórias de infância. O lançamento aproximou novos leitores do gênero e evidenciou a capacidade do cordel de dialogar com temas atuais e relevantes, ampliando seu alcance para diferentes públicos.
Outro poeta, cordelista e trovador, morador de São Gonçalo, Ezequiel Alcântara participou pela primeira vez da Flip. Entre os títulos apresentados esteve a IV Coletânea de Trovadores Gonçalenses da UBT – São Gonçalo, organizada por ele. Para o escritor, a participação no evento representa um momento marcante em sua trajetória.
"Está sendo uma experiência maravilhosa, única, estar com os amigos do Cordel, falando diretamente ao público sobre o que é esse gênero literário. Está sendo ímpar."
Outro nome de destaque foi a cordelista Dalinha Catunda, uma das maiores referências femininas da literatura de cordel no Brasil. Reconhecida por abrir caminhos para a presença das mulheres no gênero, sua obra aborda temas sociais com humor, sensibilidade e olhar crítico. Entre seus títulos estão Arrolada e A mulher e as peripécias da idade. Dalinha também marcou a história ao tornar-se a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC).
"Acho que abrir mais espaço para o cordel significa entender o que é essa diversidade de vozes que existem na literatura brasileira. Precisa ser mais que uma homenagem ao povo nordestino ou algo do tipo. É reconhecer uma produção que nasceu da cultura popular, que é secular, transmitida de geração em geração e por isso merece cada vez mais destaque", resumiu Letícia Correa, leitora de Campo Grande.