Flip 2026 tem apagão, filas quilométricas e a força das editoras independentes
Enquanto a programação oficial atrai multidões para debates sobre literatura, democracia e questões contemporâneas, as casas independentes ampliam o espaço para novas vozes, com destaque para autores e editoras de Niterói, Maricá e São Gonçalo

A 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) reafirma seu papel como um dos principais encontros literários do país, reunindo autores consagrados, editoras, leitores e uma intensa programação paralela que transforma a cidade histórica em um grande circuito dedicado aos livros.
Enquanto a programação oficial atrai multidões para debates sobre literatura, democracia e questões contemporâneas, as casas independentes ampliam o espaço para novas vozes, com destaque para autores e editoras de Niterói, Maricá e São Gonçalo.
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Na Casa Gueto, um dos pontos mais movimentados da programação paralela, o lançamento da coleção de poesia Puxadinho reuniu poetas de diferentes gerações em torno de quatro novos títulos: Louça de Banhar, de Jordão Pablo de Pão; Filtro de Barro, de Letícia Fernandes Leal; Colcha de Retalhos, de Suellen Carvalho; e Cadeira de Balanço, de Vini Borges, lançados pela editora Xará, de Maricá, das irmãs Letícia e Isabel Fernandes Leal.
"O livro fala sobre ditados populares, sem a pretensão de explicar os ditados, mas sim de brincar com as metáforas. Tem um pouco de cotidiano, relações, tudo o que a gente cresceu ouvindo", resume Suellen Carvalho, sobre seu lançamento, "Colcha de retalhos".

Também da editora Xará, a autora Ana Lourdes Galvão Maia veio do Acre para lançar "A palavra que se esconde" na Flip. "Encontrei a editora por meio de grupos de leitura e de escrita e agora já estou no meu segundo livro", contou.
O espaço também recebe a Revista Lira, publicação especializada em poesia dirigida pelos niteroienses Marcelo Aceti e Evelyn Murad, além da editora Minimalismos, que em seu catálogo diverso, apresenta A fome de tudo, novo livro do jornalista José Messias Xavier, também de Niterói.

Outro destaque da programação paralela é a Casa Cordel, que mantém agenda intensa dedicada à literatura popular. Entre os lançamentos está Eu sou Lucas, um autista, do cordelista Zé Salvador, obra baseada em uma história real e narrada por um jovem no espectro autista que revisita suas memórias de infância.

O espaço também recebe o poeta Ezequiel Alcântara, morador de São Gonçalo. Pela primeira vez no evento, o jovem cordelista e trovador traz, entre outros títulos, a IV Coletânea de Trovadores Gonçalenses da UBT - São Gonçalo, da qual foi organizador.
"Está sendo uma experiência maravilhosa, única, estar com os amigos do Cordel, falando diretamente ao público sobre o que é esse gênero literário. Está sendo ímpar", contou.
Chama atenção ainda o trabalho da cordelista Dalinha Catunda, reconhecida por ampliar a presença feminina no gênero com uma produção marcada pela irreverência e pelo enfrentamento de temas sociais. Entre suas obras estão Arrolada e A mulher e as peripécias da idade. Ela é conhecida por ser a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC).

Na programação principal, os debates seguem atraindo grande público. Uma das mesas mais concorridas foi "Democracia sob vigília: os livros como saída", na Casa PublishNews, reunindo o jornalista Jamil Chade e o ex-deputado Marcelo Freixo. O interesse foi tão grande que a fila para entrada contornou o quarteirão.
Também registrou lotação máxima o encontro com a escritora cearense Socorro Acioli, realizado na Casa da Leitura e do Conhecimento – Estação Literária Sebrae. Autora do lançamento Amar é inadiável, Acioli conquistou os leitores logo no início do evento: o romance tornou-se o livro mais vendido no primeiro dia da Flip, consolidando o bom momento da escritora junto ao público.
O segundo dia da programação oficial trouxe discussões sobre memória, guerra, ficção e teatro. Entre os destaques estiveram a mesa com os escritores ucranianos Andrei Kurkov e Maria Reva, que abordaram a literatura produzida em meio aos conflitos na Ucrânia, a conversa entre Andréa del Fuego e Paulliny Tort sobre imaginação e criação literária, além da apresentação teatral de Denise Stoklos inspirada na obra de Dalton Trevisan.
Na noite de quinta-feira (23), um apagão atingiu parte de Paraty durante a realização da festa. Apesar da interrupção no fornecimento de energia elétrica na cidade, a programação principal foi mantida graças ao uso de geradores instalados pela organização, evitando o cancelamento das atividades no Auditório da Matriz.
O breu também não interrompeu a festa na Praça Aberta, que acolhe editoras e autores independentes, espaços parceiros, instituições e coletivos locais, além das barraquinhas de lanches e drinques. A energia voltou completamente para toda a cidade de Paraty por volta das 3h dessa sexta-feira (24). Em nota, a concessionária Enel informou que a causa do problema foi um desarme na linha de distribuição de Mambucaba/Paraty.