Flip 2026: terceiro dia de evento destaca memória, resistência e literatura
A expectativa é receber até domingo (26), cerca de 35 mil pessoas

O terceiro dia da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) seguiu reafirmando a diversidade de vozes que marca a edição deste ano. Entre auditórios lotados, debates sobre literatura, saúde, democracia e direitos humanos, a programação oficial dividiu atenções com as dezenas de casas parceiras espalhadas pelo centro histórico. Nem mesmo uma nova queda de energia elétrica, a segunda consecutiva durante o evento, diminuiu o entusiasmo do público, que seguiu ocupando ruas, livrarias e espaços culturais ao longo da sexta-feira (24). A expectativa é receber até domingo (26), cerca de 35 mil pessoas.
Um dos momentos mais aguardados da programação principal foi a mesa entre o médico e escritor Drauzio Varella e a escritora alemã Carmen Stephan. A conversa aproximou as experiências narradas em O Médico Doente e Malária, obras que tratam de doenças tropicais e da proximidade com a morte.
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Outro destaque da sexta-feira foi a participação da ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia, que levou ao debate reflexões sobre democracia, Constituição e cidadania, aproximando direito e literatura em uma das mesas mais concorridas do dia.
Já no encerramento da programação principal, a escritora norte-americana Katie Kitamura discutiu os limites entre realidade e ficção, ao lado da espanhola Marta Pérez-Carbonell, em uma conversa sobre narradores, memória e construção literária.
Também ganhou protagonismo a escritora Bethânia Pires Amaro, vencedora do Prêmio Jabuti de Contos em 2024, que dividiu a mesa .perdura.apesar com a autora mauriciana-francesa Natacha Appanah. Em sua participação na Flip, Bethânia apresentou o romance Ressalga, inspirado nas histórias de trabalhadoras sexuais retratadas a pedido de Jorge Amado durante sua atuação política. A obra propõe um olhar humanizado sobre personagens historicamente invisibilizadas, colocando no centro da narrativa mulheres frequentemente excluídas da literatura tradicional.

O direito das mulheres, inclusive, esteve entre as declarações mais fortes das autoras. "Cada vez mais temos que estar vigilantes, porque a cada avanço existe um recuo, e às vezes o recuo é maior do que o avanço", afirmou Nathacha Appanah, autora de Trópico da Violência, O Último Irmão e Noite no Coração.
Enquanto isso, a programação paralela seguiu ampliando os debates. Na Casa da Favela, literatura, memória e resistência conduziram os encontros do dia, com mesas dedicadas às narrativas periféricas, ao direito à memória e à valorização de produções culturais das favelas brasileiras.
Na Casa Gueto, a sexta-feira terminou, mais uma vez, em clima de celebração da bibliodiversidade com o Sarau Erótico, em que cada pessoa recebe um xote de vinho de cortesia e uma fita para indicar sua vibe: 🟢 tô na pista | 🟡 me seduza | 🔴 melhor não. A proposta irreverente reuniu autores, editoras independentes e leitores em um encontro descontraído.
A programação não sofreu interrupções significativas, apesar do novo apagão registrado durante a tarde. A organização voltou a recorrer a geradores para manter as atividades da programação principal, enquanto muitos espaços independentes adaptaram suas atividades.
Penúltimo dia
Neste sábado, Dia do Escritor e penúltimo dia da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) promete concentrar um dos maiores públicos desta edição. Entre os destaques da programação principal estão a poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares, vencedora do Prêmio Camões 2025, e a consagrada escritora britânica Zadie Smith, autora de Dentes Brancos, obra incluída pela revista TIME na lista dos 100 melhores romances em língua inglesa publicados entre 1923 e 2005.
Outro dos momentos mais aguardados acontece na Casa Sesc, cuja programação coincide com a mesa de Zadie Smith. A instituição recebe, às 18h, a intelectual e ativista norte-americana Angela Davis, referência mundial nas discussões sobre feminismo negro, antirracismo e abolicionismo penal.
O encontro será realizado no Sesc Caborê, com mediação da jornalista Flávia Oliveira. Embora o espaço esteja localizado fora do Centro Histórico, onde se concentra a programação da Flip, a conversa será transmitida ao vivo em um telão instalado na Casa Sesc, permitindo que o público do festival acompanhe o debate.
Da programação paralela, um dos eventos mais esperados da Casa Gueto, acontece a partir das 20h30: a Festa Flopou. Cada um que adquirir um livro, ganha um chope.
Atmosfera mágica e diversa
Quem frequenta a cidade durante a Flip, sabe que Paraty ganha uma atmosfera singular. As ruas de pedra do Centro Histórico se transformam em um grande ponto de encontro onde leitores, escritores, artistas, intelectuais, estudantes e turistas, que dividem o mesmo espaço, formando um retrato da diversidade cultural que marca o festival. Na noite de sexta-feira (24), personalidades conhecidas do público, como os atores Thiago Lacerda e Alessandra Negrini, além do escritor e historiador Eduardo Bueno, entre outros, foram vistos misturando-se naturalmente aos milhares de visitantes que ocupam a cidade durante a festa.
Programação oficial da Flip
Programação da Flip 2026
Sábado (25/7)
10h | Mesa 14 – "a saída é a volta"
Com: Eduardo Halfon e Paloma Vidal
O escritor guatemalteco Eduardo Halfon, de origem judaica, criado nos Estados Unidos e residente em Berlim, encontra a escritora argentina Paloma Vidal, que vive no Brasil e passou por Estados Unidos e França. Em comum, ambos transformam deslocamentos, identidade e pertencimento em matéria literária. Halfon escreve em espanhol, embora tenha o inglês como principal idioma; Paloma escreve em português, apesar de o espanhol ser sua língua materna.
12h | Mesa 15 – "se o delírio te eleva à potência do abismo"
Com: João Cezar de Castro Rocha e Paulo Schiller
Mediação: Anabela Mota Ribeiro
O crítico literário João Cezar de Castro Rocha e o psicanalista e tradutor Paulo Schiller discutem os avanços do autoritarismo e da extrema direita na contemporaneidade. A partir de seus livros mais recentes, os ensaístas refletem sobre os fatores históricos, culturais e psicológicos que explicam esse cenário.
15h | Mesa 16 – "o boi é só. o boi é só. o boi"
Com: Ana Paula Tavares
Vencedora do Prêmio Camões 2025, a poeta, ensaísta e pesquisadora angolana Ana Paula Tavares fala sobre sua trajetória e uma obra profundamente marcada pela história de Angola e pela emancipação feminina. A autora também aborda sua relação com o Brasil por meio da língua portuguesa e da literatura.
17h | Mesa 17 – "não mais sabemos do barco, mas há sempre um náufrago"
Com: Hisham Matar e Milton Hatoum
Os premiados escritores discutem memória, autoritarismo e literatura. Hisham Matar relembra o desaparecimento de seu pai durante o regime de Muammar Gaddafi, na Líbia, enquanto Milton Hatoum aborda os impactos da ditadura militar brasileira em sua recente trilogia.
19h | Mesa 18 – "e este chão não existe, e esta paz é vertigem"
Com: Zadie Smith
Uma das maiores vozes da literatura contemporânea em língua inglesa, a britânica Zadie Smith conversa sobre sua trajetória e os temas recorrentes de sua obra, como colonialismo, imigração, racismo e identidade.
Domingo (26/7)
10h | Mesa 19 – "a porta está aberta"
Com: Ernesto Mané e Ève Guerra
Mediação: Adriana Ferreira Silva
Os autores refletem sobre a diáspora africana contemporânea, imigração, pertencimento, famílias birraciais e identidade. Ernesto Mané narra a busca por suas origens na Guiné-Bissau, enquanto Ève Guerra relata a experiência de repatriar o corpo do pai do Congo para a Europa.
12h | Mesa 20 – "nunca crer no que não canta"
Com: Leonardo Gandolfi e Mateus Baldi
A mesa reúne escritores que transitam entre poesia, música, cidade e cotidiano. O encontro propõe uma reflexão sobre como poemas, canções e paisagens urbanas dialogam e se transformam em literatura.
15h30 | Mesa 21 – "o que faço desfaço, o que amo desamo"
Com: Eva Baltasar e Susy Freitas
A escritora catalã Eva Baltasar e a amazonense Susy Freitas discutem suas obras marcadas pela originalidade e pela desconstrução dos estereótipos femininos. Em seus romances, ambas apresentam personagens que enfrentam situações-limite na busca pela autonomia e pelo próprio desejo.