Crítica OSG | Em 'A Odisseia', Christopher Nolan cobra o preço da culpa antes de qualquer retorno para casa
No épico de quase três horas, o diretor troca o espetáculo pela consequência e faz da relação entre Odisseu e Atena o verdadeiro fio condutor da jornada de volta à Ítaca

Poucas histórias sobreviveram por quase três milênios como a Odisseia, de Homero. A jornada de Odisseu de volta para casa após a Guerra de Troia atravessa gerações não pelos monstros e pelos deuses que povoam o caminho, mas pelo que ela diz sobre culpa, memória e retorno. A reportagem de O SÃO GONÇALO foi convidada para a pré-estreia e deixa aqui suas impressões sobre o longa, que estreia nesta quinta (16) nos principais cinemas do país.
Christopher Nolan, diretor de filmes como Oppenheimer e da trilogia Batman, O Cavaleiro das Trevas, assina agora sua própria versão desse mito. A construção de protagonistas perseguidos pelo próprio tempo, homens que carregam consigo as marcas das decisões tomadas sob pressão, é característica de suas obras, e em A Odisseia essa obsessão ganha forma mitológica. O filme reúne Matt Damon como Odisseu, Anne Hathaway como Penélope, Tom Holland como Telêmaco e Zendaya como Atena, numa adaptação de quase três horas, rodada inteiramente em película IMAX.
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Logo nos primeiros vinte minutos, o filme avança em cortes bruscos, quase sem pausa para respirar, como se a própria narrativa estivesse com pressa de deixar Troia para trás. Esse ritmo muda assim que a história passa a acompanhar a busca de Telêmaco pelo pai. A pressa da guerra cede então espaço a um tempo mais contemplativo. A duração dos planos aumenta, os silêncios ganham espaço e a câmera finalmente permite que o olhar permaneça sobre pessoas e paisagens, mais próximo da espera e da procura que vão marcar o restante da jornada.
É esse tempo mais lento que sustenta o enredo, dividido em linhas que avançam em paralelo. Em uma delas, Telêmaco deixa Ítaca em busca de notícias do pai que mal conheceu. Em outra, Penélope segura o trono em nome do filho enquanto tenta conter os pretendentes que disputam seu lugar. Também acompanhamos Odisseu logo após a Guerra de Troia, ainda envolvido nas consequências imediatas da vitória, e há, mais adiante, uma linha em que ele, já em outra ilha, tenta reconstruir quem era antes de Troia e o que de fato lhe aconteceu depois.
Dentro dessa estrutura, Atena acompanha Odisseu como uma presença constante, quase uma conselheira que aparece nos momentos de decisão mais difíceis. Ao longo da jornada, cada escolha dele parece guardar um custo que só se revela mais tarde, como se nenhuma decisão tomada em nome da guerra saísse barata. Nolan constrói esse acerto de contas aos poucos, sem pressa de explicá-lo, deixando que o espectador sinta o peso da cobrança antes de entender de onde ela realmente vem.

Uma das imagens mais poderosas do filme é a da cabeça da estátua de Atena sendo decepada durante a Guerra de Troia pelos próprios soldados de Odisseu. Nolan não apresenta esse gesto apenas como mais um ato de destruição inerente ao conflito. Ao escolher justamente a imagem de uma divindade, transforma a violência militar em profanação. A guerra deixa de atingir apenas homens e cidades e atinge também aquilo que uma civilização reconhece como sagrado. A cabeça decepada torna-se, então, um signo recorrente da transgressão que acompanha Odisseu durante toda a sua jornada de retorno.
Mais adiante, o mesmo corte reaparece associado a um rosto humano ligado diretamente à trajetória de Atena na história, numa cena que reorganiza tudo o que o espectador presumia sobre a natureza dessa presença até ali. É nesse ponto que a presença de Atena se mostra a decisão narrativa mais interessante da adaptação. Enquanto em Homero sua intervenção pertence naturalmente ao universo do mito, em Nolan essa presença adquire uma ambiguidade que aproxima o divino do psicológico. A personagem surge sempre nos momentos em que Odisseu precisa decidir entre seguir adiante ou confrontar aquilo que tentou deixar para trás. Não sabemos ao certo se Atena conduz seus passos ou apenas verbaliza aquilo que sua consciência já sabe. Essa indefinição é decisiva pois desloca o eixo da história, a pergunta deixa de ser "os deuses ainda interferem no destino dos homens?" para se tornar "é possível escapar das próprias escolhas?".
O broche entregue por Penélope a Odisseu antes da partida para a guerra funciona, na minha leitura, como contraponto a essa imagem de corte e punição. Mais do que representar Atena, o broche preserva a promessa feita antes da partida para Troia. Se a cabeça decepada simboliza a ruptura produzida pela guerra, o broche lembra a identidade que Odisseu tenta recuperar ao voltar para Ítaca. No desfecho, o Cavalo de Troia volta a aparecer em cena, carregando o mesmo tipo de marca vista antes, agora sobre o próprio instrumento que tornou toda a tragédia possível.

Essas imagens ainda ecoam quando a guerra finalmente fica para trás e Odisseu enfrenta a última etapa da viagem. Depois de passar por naufrágios, ficar preso em uma caverna com o ciclope e conseguir salvar sua tripulação das mãos de uma feiticeira, ele finalmente atravessa o último trecho do mar rumo a casa, em cima de uma tábua de madeira. Depois de tanta batalha vencida, esse trecho soa deliberadamente pequeno, quase silencioso, menos heroico e épico do que as cenas anteriores. É como se o filme separasse a coragem exigida para sobreviver aos monstros da coragem, mais discreta, exigida para simplesmente aceitar voltar para casa depois de tanto tempo fora, sem glória, sem plateia, apenas com a vontade de reencontrar quem ficou esperando.
A contenção emocional encontra respaldo técnico na fotografia de Hoyte van Hoytema, que evita o excesso de saturação que se tornou hábito em filmes recentes. Em vez de transformar a epopeia em espetáculo visual, opta por uma paleta controlada, na qual a luz parece constantemente filtrada pela memória. O resultado não é apenas estético, ao reduzir o contraste cromático, o filme desloca o olhar do espectador da grandiosidade da guerra para o desgaste psicológico de quem sobreviveu a ela. Cada paisagem parece carregar o peso de algo que já aconteceu, como se o mundo inteiro estivesse contaminado pelas consequências da Troia. Os flashbacks seguem a mesma lógica, Nolan não os trata como blocos explicativos destacados da ação presente, e sim como lembranças vividas junto com o próprio Odisseu.
O desenho de som reforça essa textura. Logo no início, um bardo, interpretado por Travis Scott, bate o cajado contra o chão e canta a canção da vitória de Odisseu em Troia, e o som do impacto funciona quase como uma batida de tambor ritual, marcando o compasso da narrativa antes mesmo de a trama começar a se desenrolar. A mesma lógica de eco aparece na trilha sonora, a melodia que acompanha o canto das sereias, quando Odisseu resiste ao chamado delas no meio da viagem, retorna quase intacta no momento em que ele finalmente reencontra Penélope, como se a música reconhecesse ali a outra sereia que ele sempre tentou alcançar.
O vento atravessa praticamente todas as etapas da narrativa. No plano físico, conduz embarcações, anuncia tempestades e determina o avanço da viagem. No plano simbólico, funciona como aquilo que não pode ser controlado, ao contrário do mar, que Odisseu enfrenta com inteligência e estratégia. Em diversos momentos, ele parece carregar vozes, memórias e presenças invisíveis, aproximando-se da própria tradição oral que permitiu à Odisseia sobreviver durante quase três mil anos. Antes de existir como livro, a Odisseia existiu como voz, e ao transformar o vento em presença constante, Nolan parece lembrar que essa história atravessou séculos sendo carregada pelo ar muito antes de ser registrada no papel.

O elenco sustenta essa estrutura em diferentes graus. Anne Hathaway, como Penélope, e John Leguizamo, como o fiel Eumeu, entregam as atuações mais completas do filme, cada um sustentando sozinho boa parte da carga emocional de suas respectivas linhas do tempo. Matt Damon carrega o desgaste físico e moral de Odisseu com a mesma sobriedade que marca a fotografia, Tom Holland dá a Telêmaco a ansiedade de um herdeiro que mal conhece o pai que herdou, e Robert Pattinson faz de Antínoo um vilão covarde e traidor, digno de repulsa do público. Zendaya, como Atena, é a atuação coadjuvante mais marcante do filme, mesmo com pouco tempo de tela ela carrega boa parte da força simbólica da história e sustenta sozinha a ambiguidade que atravessa o enredo.
Samantha Morton, como Circe, Elliot Page, como Sinon, e Lupita Nyong'o, como Clitemnestra, completam o elenco em papéis também curtos, mas igualmente bem aproveitados. Himesh Patel, como Euríloco, e Jon Bernthal, como Menelau, cumprem bem seus papéis coadjuvantes, ainda que sem o mesmo impacto dos nomes citados acima. Ryan Hurst, como Mentor, Benny Safdie, como Agamêmnon, e Mia Goth, como Melanto, ocupam papéis menores, mas ajudam a povoar o mundo ao redor de Odisseu com rostos reconhecíveis, mesmo quando o roteiro lhes reserva pouco espaço além da função que cumprem na trama.

A fidelidade de Nolan a Homero aparece com mais clareza na jornada paralela de Telêmaco, que retoma diretamente os primeiros cantos da Odisseia dedicados ao filho antes mesmo do reencontro com o pai. Já o Cavalo de Troia, tão citado quando se fala do mito, não pertence à Odisseia nem à Ilíada, sua origem está na Eneida, de Virgílio, escrita séculos depois. Nolan mistura essas tradições sem esconder a costura, o que já é, em si, um comentário sobre como o mito de Troia chegou até nós remendado por vozes diferentes ao longo de quase três mil anos. Mais do que buscar fidelidade arqueológica, Nolan parece interessado em mostrar que os mitos sobrevivem justamente porque nunca deixaram de ser recontados.
No fim, a guerra destrói quase tudo que Odisseu jurou proteger como rei e como líder, soldados, súditos, a própria ideia de lar que ele ajudou a sustentar. O preço que ele paga por essa destruição é alto, medido em anos de ausência, de culpa e de perdas que não se desfazem. A única coisa que sobrevive intacta à guerra é aquilo que nunca pertenceu a ela, a família. É por isso que o retorno de Odisseu pesa tanto, ele não volta como um herói condecorado, volta como um homem que só recupera, ao final de tudo, aquilo que de fato amava e nunca deveria ter colocado em risco.
*Sob supervisão de Cyntia Fonseca