‘Proteção’: filme produzido por gonçalenses emociona ao abordar racismo e ancestralidade
Longa estreou no último dia 9, no Cine Odeon, no Centro do Rio, durante a 18ª edição do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul

Um longa-metragem construído ao longo de sete anos, atravessado pela pandemia e impulsionado pela força coletiva de artistas da periferia. Assim é Proteção, filme que estreou no último dia 9, no Cine Odeon, no Centro do Rio, durante a 18ª edição do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, e vem impactando o público com uma narrativa intensa sobre racismo, ancestralidade e escolhas.
À frente do projeto está o diretor Alberto Sena, nascido e criado em São Gonçalo, cidade onde construiu sua trajetória cultural. “Sou cria de São Gonçalo. Minha vida cultural toda foi aqui”, destacou. Ao seu lado, o produtor executivo Marcos Moura também reforça a ligação com o território. “Nasci e sempre vivi na região, na divisa entre São Gonçalo e Itaboraí”, contou.
O longa nasceu de um processo marcado por desafios e persistência. O roteiro foi escrito em 2018, as filmagens começaram no ano seguinte, mas precisaram ser interrompidas com a chegada da pandemia. A produção foi retomada em 2021 e finalizada apenas no ano passado.
Ao longo desse percurso, a equipe precisou se reinventar diversas vezes. “Eu costumo dizer que fazer esse filme foi como trocar o pneu do carro com ele em movimento”, contou Alberto, ao lembrar das adaptações feitas durante as gravações para manter a essência da história.
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Entre os momentos mais marcantes, está a gravação de cenas em um hospital poucos dias antes do início da pandemia. “Se não fosse naquela semana, a gente não conseguiria mais gravar”, destacou o diretor.

Sem financiamento inicial, Proteção foi viabilizado a partir de parcerias e do engajamento da equipe, formada majoritariamente por profissionais da região. Para Marcos Moura, o longa representa mais do que um projeto audiovisual. “Foi o primeiro longa de muita gente. Para a gente, foi uma escola. Tudo foi feito no coletivo, desde transporte até alimentação. A equipe acreditou na história e abraçou o projeto”, afirmou.
A coincidência entre ficção e realidade também marcou o processo. O roteiro, escrito antes da pandemia, já abordava uma epidemia com recorte social. “Quando veio a Covid-19, a gente viu na vida real algo muito próximo do que estava no filme. Isso impactou todo mundo”, completou o produtor.
Com cerca de 90% da equipe composta por profissionais negros, o longa reforça o protagonismo dentro e fora das telas. A atriz Luana Arah, uma das protagonistas, também tem trajetória ligada à região. Nascida em Niterói, ela cresceu no Cubango e viveu parte da juventude em São Gonçalo. “Sempre quis ser atriz, mas só consegui investir nisso depois que comecei a trabalhar”, contou.

Na trama, Luana interpreta Zayla, personagem marcada por laços familiares, ancestralidade e espiritualidade. “Foi um desafio e um aprendizado. Ela me ensinou a ser mais flexível, a entender que nem tudo está sob nosso controle”, afirmou.
A atriz também destacou os desafios da representatividade no audiovisual. “A maioria dos projetos de cinema negro ainda não tem financiamento. A gente faz por propósito, por valores. Mas isso precisa mudar. Representatividade também é remuneração e oportunidade”, pontuou. Segundo ela, o debate vai além da presença em cena. “Não é só sobre quantidade, é sobre qualidade. Muitas vezes o personagem negro está na história, mas não ocupa de fato esse lugar na narrativa.”
A construção estética do filme também se destaca como um dos pilares da narrativa. A diretora de arte Laís de Souza e a diretora de caracterização Ana Méndez atuaram de forma integrada para dar identidade visual à obra. “A imagem comunica valores, posicionamento e identidade”, explicou Laís, que também contribuiu com conhecimento técnico por sua formação em biomedicina. A partir dessa combinação, decisões importantes foram tomadas durante o processo criativo. “Percebemos que não se tratava de um vírus, mas de uma bactéria, e isso mudou toda a lógica do filme”, afirmou.

O trabalho minucioso da caracterização também exigiu precisão. “Cada textura, cor e relevo foram pensados. Fizemos testes de pele, maquiagem e efeitos para chegar ao resultado ideal, muitas vezes sem chance de refazer”, destacou Ana. Mesmo com limitações financeiras, a equipe apostou na criatividade e na colaboração para viabilizar o projeto. Materiais alternativos e soluções improvisadas fizeram parte do processo, sem comprometer a qualidade final.
A estreia no Cine Odeon, com sala cheia, marcou a equipe e reforçou o alcance da produção. “Foi muito emocionante ver quase 600 pessoas assistindo ao filme, numa quinta-feira à noite. Isso mostra que existe uma demanda por essas narrativas”, afirmou Marcos.
O impacto também se reflete na reação do público. “As pessoas podem esperar um discurso que passa na cabeça de todo mundo, mas que quase nunca é dito”, resumiu Alberto.
Entre emoção, tensão e identificação, Proteção provoca reflexões profundas. “Você pode até não concordar com o que está sendo dito, mas vai se enxergar ali. É um filme que tira da zona de conforto”, destacou a equipe. Mais do que entretenimento, o longa se consolida como um retrato de resistência e afirmação. “É um filme de pretos, mas é um filme para toda a sociedade. Todo mundo pode assistir e sair refletindo, a partir da sua própria vivência”, concluiu Luana.