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Mais de um mês após tentativa de feminicídio em SG, autor do crime continua em liberdade

Polícia Civil ainda não pediu a prisão do autor

relogio min de leitura | Escrito por Ana Carolina Moraes | 19 de outubro de 2021 - 10:35
Nathália contou que vive mal até o dia de hoje e não tem respostas da justiça
Nathália contou que vive mal até o dia de hoje e não tem respostas da justiça -

Mais de um mês após a tentativa de feminicídio contra a estudante de enfermagem Nathália Assis, de 19 anos, o criminoso acusado de ter baleado ela e a largado sem documentos e sem telefone no Hospital Estadual Alberto Torres (HEAT), continua solto e sem punição. A delegacia 73ª DP (Neves), para onde o crime foi encaminhado, ainda não deu respostas sobre a prisão do acusado e informou, através da assessoria de imprensa, que o caso segue sendo investigado sob sigilo de Justiça. O crime ocorreu no dia 11 de setembro deste ano e é o dia que Nathália jamais se esquecerá.

Dados do Dossiê Mulher do Mulher do Instituto de Segurança Pública, divulgados ontem (18), mostram que somente em 2020, 78 mulheres morreram assassinadas por um companheiro ou ex- companheiro.  No estado, 98 mil mulheres foram vítimas de violência. Isso significa que a cada dia 270 mulheres foram atingidas de alguma forma.

Nathália,que vive com medo, espera não ser mais um número nessa estátistica. Ela busca justiça, mas se sente silenciada. 

"A polícia fala para o meu advogado que tem que esperar, o delegado afirma que não tem dúvidas do culpado, mas não o prende. Nem a resposta da medida protetiva que eu pedi contra ele eu recebi. Eu continuou não podendo sair de casa, só para fazer o essencial. Quando vou pra algum lugar é sempre com meu pai ou familiares, nunca sozinha e com a janela do carro fechada. Eu vejo mulheres sendo presas por morderem homens, vi uma na TV que roubou a comida para o filho e foi presa, mas ele que cometeu um crime contra mim continua solto, vivendo a vida dele, se divertindo, é uma sensação horrível para mim", disse ela. 

Nathália passou por uma cirurgia para poder se recuperar fisicamente do ocorrido
Nathália passou por uma cirurgia para poder se recuperar fisicamente do ocorrido |  Foto: Arquivo pessoal
 

Nathália trabalhava para o homem em seu restaurante e foi assim que eles se conhecerem. Ao SÃO GONÇALO  ela contou que o homem não aceitava a rejeição e acabou cometendo o crime. O acusado é casado e teria dado em cima de Nathália até que eles ficaram, mas ela não queria continuar a relação justamente por ele ser comprometido. O homem, além de não aceitar esse fim para o caso que tinha com a jovem, não queria que Nathália saísse, dançasse ou ficasse com outras pessoas. Foi no dia em que Nathália saiu para uma festa para comemorar o aniversário de sua amiga, no dia 11 de setembro deste ano, que o acusado teria ido atrás dela. Após breves discussões dos dois, que discordavam de opiniões, Nathália foi até um 'after' (pós festa) com seus amigos e o acusado também foi, sabendo que ela estaria lá. No local, eles discutiram novamente e ele sacou uma arma e a baleou.

"Tá sendo muito difícil, porque além de ter sofrido essa tentativa de feminicídio, eu perdi minha mãe e meu avô pro câncer e tem dia que eu penso "por que isso tudo ocorreu comigo?". Todo dia eu choro, mas tento me animar porque eu quero conseguir minha vida de volta, eu só não sei o que fazer para isso", disse ela.  

A jovem estudante não entende o motivo de ter que continuar vivendo escondida, enquanto o acusado do crime continua livre, com o comércio funcionando normalmente.

"Eu sei que ele fica me vigiando pelo Instagram, pois eu consegui ver que ele estava entre os visualizadores dos meus Stories pelo perfil dele mesmo. Eu o bloqueei logo em seguida e no Whatsapp também. Mas tem muito perfil fake que ainda fica vendo as minhas coisas, tem amigo dele, familiar e até a esposa que vê meus Stories, então, eu sei que ele sabe o que acontece comigo. Sempre tento bloquear o que dá, mas, como as visualizações do Instagram têm crescido pelo caso, fica difícil", disse ela.

Além de ir atrás de Nathália nos lugares em que ela estava, o acusado, por diversas outras vezes, ainda usou palavras para denegri-la.  

"Ele sempre falou que tinha ciúme, fez ameaças, mas eu nunca achei que ele realmente ia fazer isso e atirar em mim. Quando a gente vê outros casos pela TV a gente fica chocado e acha que nunca vai acontecer com a gente. Quando eu me vi baleada no hospital foi um choque para mim. Logo eu que era a amiga que sempre falava para as minhas amigas terminarem quando elas viviam um relacionamento tóxico, passei por isso. Eu fui mais uma estatística de vítimas de feminicídio, mas graças a Deus não morri. Mesmo assim, eu espero que essa estatística diminua com o tempo e que menos mulheres sofram essa violência. Eu resolvi denunciar para transformar a minha realidade, para que outras mulheres consigam denunciar também. Foi difícil, pois eu gostava dele e entender o que ele fez comigo foi doloroso, mas tem mulher que tem filho, que é casada e é muito pior. Mas, espero que vendo o meu caso elas denunciem se passarem pelo mesmo", contou a jovem. 

Leia Mais:  "Até quando vou continuar com medo de sair de casa?", questiona jovem baleada pelo patrão

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Nathália, que antes tinha sonhos, viu sua história mudar de cabeça para baixo com o caso. "Eu tinha sonhos e planos e hoje não consigo ficar em pé muito tempo e nem sentada muito tempo, pois já sinto dor onde foi a cirurgia e também nas pernas, pois o tiro pode ter pego em algum nervo, ainda estamos investigando isso com os médicos. Eu tinha sonhos e metas antes, estava estudando e hoje repenso minha vida, tenho medo dele me achar. Eu perdi minha mãe 20 dias antes do ocorrido por causa de depressão e eu penso que se ela estivesse aqui talvez eu conseguisse lidar melhor com isso no quesito psicológico, mas, mesmo assim, tive todo o apoio dos meus amigos e familiares, incluindo o meu pai", afirmou ela. 

A jovem pretende conseguir ajuda psicológica também para lidar com o trauma que passou. Os piores momentos da vida dela foram os 16 dias no hospital, sendo três destes no Centro de Terapia Intensivo (CTI) e 13 na enfermaria. "O tiro eu lembro que nem senti, na hora fiquei em choque e não senti dor, mas o problema foi a recuperação. A bala atingiu 30% de um dos meus fígados e 40% de outro, perfurou meu pâncreas e o estômago. Eu desentubei rápido no hospital, mas fiquei uma semana e meia sem poder beber água e comer algo enquanto estava internada, só me alimentava por sonda e com o remédio entrando pela minha veia do pescoço. Foi horrível! Eu vejo outros casos de mulheres que são agredidas como a Duda Reis com o Nego do Borel, da Mariana Ferrer e de uma menina da Tijuca que foi morta pelo namorado com 15 anos na última semana e isso me dá força pra denunciar. Mas, ao mesmo tempo, eu me sinto sem amparo da justiça, pois se uma blogueira denuncia e não ganha, ela que tem voz, imagina eu que não tenho? Mas busco me manter forte e lutar todos os dias", disse ela.

Nathália contou que vive mal até o dia de hoje e não tem respostas da justiça
Nathália contou que vive mal até o dia de hoje e não tem respostas da justiça |  Foto: Layla Mussi
 

Tudo o que Nathália pede é que a justiça seja feita e que o acusado pague pelo crime que cometeu. "No início, ele não queria que eu denunciasse, foi até no hospital que eu estava internada pedir isso, agora ele está confiante, saindo e se divertindo como se nada fosse acontecer. O que eu mais quero é que ele pague e seja preso, quero minha rotina de volta, quero poder sair, malhar, ir ao mercado e quero que a medida protetiva que pedi contra ele seja aceita. Eu vejo muitos amigos meus indo até o restaurante dele até hoje e se divertindo lá, dando dinheiro para ele, e assim que eu vejo que são amizades falsas, pois veem o meu sofrimento e continuam lá no local dele, é difícil", disse ela.

O OSG entrou em contato com a Polícia Civil que informou que "o caso foi registrado na 74ª DP (Alcântara) e encaminhado à 73ª DP (Neves). A investigação segue sob sigilo."

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