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Escritoras de São Gonçalo celebram a força da literatura negra como instrumento de resistência

Escritoras gonçalenses refletem sobre o papel da literatura negra na luta contra o racismo e as desigualdades

relogio min de leitura | Cristine Oliveira 25 de julho de 2026 - 09:34
Para Renata Toledo, escrever é um ato político que amplia vozes historicamente invisibilizadas e preserva histórias
Para Renata Toledo, escrever é um ato político que amplia vozes historicamente invisibilizadas e preserva histórias -

Desde o surgimento da escrita, as palavras têm sido utilizadas como instrumento de resistência diante das desigualdades e das opressões. No Brasil e em outros países da América Latina, escritoras negras como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Nancy Morejón transformaram suas vivências em literatura, denunciando o racismo, a pobreza e as desigualdades sociais. Neste sábado (25), quando se celebram o Dia do Escritor e o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, O SÃO GONÇALO ouviu as gonçalenses Renata Toledo e Joselene Negra Black, que mantêm vivo esse legado por meio da escrita.

Em um mesmo dia, o Brasil celebra duas datas importantes para a cultura. O Dia do Escritor surgiu após a realização do I Festival do Escritor Brasileiro, organizado pela União Brasileira de Escritores (UBE), realizado em 25 de julho de 1960. A data foi oficializada pelo então ministro da Educação e Cultura, Pedro Paulo Penido, como forma de homenagear a categoria.


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Ainda em 25 de julho, também são celebradas duas datas que homenageiam as mulheres negras e suas lutas. O Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha foi criado em 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Negras Latinas e Caribenhas, realizado em Santo Domingo, na República Dominicana. O evento teve como objetivo debater as desigualdades que afetam essas mulheres. No Brasil, a data coincide com o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, criado em homenagem à líder quilombola.

A celebração do Dia do Escritor e do Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha é uma maneira de valorizar a contribuição desse grupo para diferentes aspectos da sociedade e também da cultura, por meio de obras literárias, segundo a escritora gonçalense Renata Toledo, de 48 anos.

“Bem, celebrar o dia 25 de julho, que é o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional do Escritor, é reconhecer, ao mesmo tempo, a contribuição histórica, política e cultural das mulheres negras e o papel da literatura como instrumento de memória, reflexão e transformação social. Para mim, essa data também tem um significado afetivo muito especial, porque, há quatro anos, eu lancei o primeiro livro, 'Que é o duro que não tem nome'. E, quando essas duas celebrações se encontram, elas nos lembram que escrever também é um ato político e que a literatura preserva memórias, rompe silêncios, amplia vozes historicamente invisibilizadas e fortalece identidades”, disse a escritora, que escreve há cinco anos.

A literatura negra feminina latino-americana

Essas datas reforçam a importância do legado das escritoras negras que abriram caminhos para que talentos como o de Renata possam escrever e ser reconhecidos. Além disso, representam um momento de homenagear as mulheres que seguem na luta por uma literatura mais valorizada no país, usando as palavras como ferramenta no combate ao racismo e às outras desigualdades.

“Entre as minhas principais referências estão Conceição Evaristo, com a sua potência da escrevivência; Carolina Maria de Jesus, que transforma a experiência em um documento histórico fundamental; Lélia Gonzalez, com suas reflexões sobre raça, gênero e cultura, que permanecem muito atuais; Sueli Carneiro, uma referência indispensável no pensamento negro feminino; além de Bell Hooks, Angela Davis e Patricia Hill Collins, que ampliam a compreensão sobre o feminismo, a educação e a produção de conhecimento. No plano local, eu encontro inspiração em mulheres que constroem diariamente a literatura de São Gonçalo, especialmente minhas companheiras do coletivo Escritoras Vivas. Eu acredito que ninguém escreve sozinho, então toda escritora carrega consigo vozes das mulheres que vieram antes dela e das que seguem escrevendo ao nosso lado”, refletiu Renata.

A escritora gonçalense Renata Toledo destaca a literatura como ferramenta de memória, resistência e fortalecimento de identidades
A escritora gonçalense Renata Toledo destaca a literatura como ferramenta de memória, resistência e fortalecimento de identidades |  Foto: Reprodução - Arquivo pessoal

São Gonçalo conta com coletivos literários que, além de promoverem a cultura e ampliarem o acesso à literatura, fazem da escrita uma forma de resistência. Entre eles estão o Coletivo Escritoras Vivas e o Coletivo Casulo, dos quais Renata Toledo faz parte e ajuda a manter vivo o legado de autoras como Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo.

“São Gonçalo é um território fértil, marcado por intensa produção cultural, por coletivos literários que reinventam o modo de existir aqui dentro da cidade. Eu faço parte do coletivo Escritoras Vivas e do coletivo Casulo e vivo essa potência de perto. Então, São Gonçalo é muito importante para mim, [...] porque o território não é apenas um cenário da minha literatura, ele faz parte da própria narrativa”, contou a escritora.

Integrante dos coletivos Escritoras Vivas e Casulo, Renata Toledo enxerga São Gonçalo como parte essencial de sua trajetória literária
Integrante dos coletivos Escritoras Vivas e Casulo, Renata Toledo enxerga São Gonçalo como parte essencial de sua trajetória literária |  Foto: Reprodução - Arquivo pessoal

Joselene Negra Black

Porém, para que a literatura periférica chegue a todos, o acesso à cultura ainda é um dos maiores desafios. Para a escritora Joselene Negra Black, de 57 anos, a rotina agitada costumava fazer com que as datas passassem despercebidas, sendo uma realidade que, de acordo com ela, afeta muitas outras pessoas e reflete um problema cultural mais amplo.

A escritora Joselene Negra Black defende o acesso à cultura como caminho para fortalecer a literatura periférica e valorizar a memória das mulheres negras
A escritora Joselene Negra Black defende o acesso à cultura como caminho para fortalecer a literatura periférica e valorizar a memória das mulheres negras |  Foto: Reprodução - Arquivo pessoal

“Eu só fui entender essa data, de fato, quando eu tive acesso à cultura. Antes, essa data passava por mim despercebida, e eu creio que passa por muita gente ainda despercebida. Porque nem todo mundo tem acesso à cultura. Somos analfabetos culturais, porque não foi dado a nós, moradores de favela, pretos, periféricos, esse direito à cultura como um lazer. A gente precisa trabalhar, e trabalhar, e trabalhar, para ter o que comer, para ter comida na mesa. Então, essa data, para mim, é um marco, um marco histórico, e uma forma de eu me colocar no mundo, entender o que essas mulheres, o nosso povo negro, fizeram para que eu pudesse, hoje, estar falando com vocês e transmitindo qual é a importância dessa data”, contou a escritora com seis anos de experiência.

Ainda de acordo com a escritora, essas datas ajudam a garantir que, no futuro, sua voz, por meio da escrita, seja lembrada pelas próximas gerações, assim como ocorre com as principais escritoras negras brasileiras.

“Então, essa caminhada, essa trajetória, me fez conhecer histórias e mulheres negras, o que me deixa com muito orgulho. Estar entre elas, eu sei que amanhã alguém vai lembrar de mim, da minha escrita, assim como eu lembro e como eu tenho a oportunidade, hoje em dia, de ler, de acessar outras escritas. Como mulher negra, eu fico até emocionada de saber a importância dessas mulheres”, contou.

Por fim, recordar e festejar as trajetórias femininas negras por meio da escrita é um passo fundamental para resgatar histórias que foram historicamente apagadas. Ao dar visibilidade às escritoras negras, abre-se espaço para que a escrita continue cumprindo o seu papel mais importante: o de reparar ausências e libertar futuros.

Sob supervisão de Marcela Freitas 

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