Pesquisa da UFF usa acervo do Jornal O SÃO GONÇALO para resgatar história de Luiz Caçador
Com 95 anos de histórias, OSG já foi fonte de informação de dezenas de pesquisadores nos últimos anos

Ao longo dos seus 95 anos, O SÃO GONÇALO se consolidou como uma fonte confiável de registros e um espaço para discussões pertinentes sobre temas da sociedade em diferentes épocas. Há um ano e meio, o graduando em História, Luis Paulo Sena, 26, da Universidade Federal Fluminense (UFF), iniciou as pesquisas sobre culturas e conhecimentos desenvolvidos em Luiz Caçador, bairro de São Gonçalo. Tudo iniciou a partir de um trabalho que resgata as memórias de certas localidades do município. Durante o desenvolvimento da atividade acadêmica, Luis Paulo observou que não havia monumentos que marcam acontecimentos do passado, no complexo Salgueiro, especificamente, em Luiz Caçador, sendo a região retratada muitas vezes apenas por questões que envolvem segurança pública.
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“O trabalho se desenvolveu melhor a partir da orientação do professor Renato Coutinho e das atividades que são realizadas pela Banda d’Além, na biblioteca de Niterói. São atividades sobre história fluminense, história de Niterói. A partir da minha ida a essas atividades, consegui construir o tema da minha pesquisa, que é basicamente: eu estou olhando para um lugar que eu vejo muita história, cultura acontecendo e que costumeiramente não tem uma voz ativa para registrar. É por isso que o jornal ganha uma dimensão maior dentro da minha pesquisa porque em muitos casos, esses registros, o cotidiano do lugar, estão presentes nas páginas dos jornais”, explicou.

Como recorte para a pesquisa, Luis Paulo estudou o período entre 1973 e 1991, época em que a questão da criminalidade avançou no estado do Rio de Janeiro.
“A pesquisa encerra em 91 porque é quando eu entendo que se consolidou a expansão do narcotráfico sobre o estado do Rio de Janeiro. Essa expansão ganha uma dimensão tão grande que muda a dinâmica social do bairro, estou falando aqui de um bairro que tem o nome de um pai de santo, um bairro que reconhecidamente tem a presença da religião de matriz africana, a Umbanda, como um grande registro da sua história. E quando chega em 91, com a expansão do crime organizado, essa dinâmica muda e você até encontra em pesquisa uma certa alteração das reportagens sobre o local. [...] O que eu encontro pesquisando lá (no acervo do OSG) é que a partir dos anos 90 são sempre matérias que ligam ao bairro a essa questão da criminalidade, o que não era visto com tanta frequência em jornais dos anos 70 e 80, que estão dentro do meu recorte temporal”, explicou.
Ainda de acordo com o estudante, o trabalho acadêmico busca demonstrar que uma região com riquezas naturais e culturais possui sua própria história, muito presente em relatos orais, que muitas vezes não recebem a devida importância.
“É importante a gente pensar que o jornal atua como fonte justamente por registrar memórias e passado que não estão no enquadramento de memórias oficiais do município. Apesar de ter o bairro Luiz Caçador, que por si só já é um grande registro, não tem nada que ressalta essa memória, que destaque esse passado, ou que diga o que ou quem foi o Luiz Caçador. O SÃO GONÇALO tem esse histórico de registrar intimamente os atravessamentos desses locais. O Luiz Caçador é um lugar que promove muita cultura, que tem muita cultura e é um espaço historicamente criminalizado”, disse Luis Paulo.
Jornal O São Gonçalo fonte de pesquisa e histórias
O jornal O SÃO GONÇALO foi fundado em 1931, pelo jornalista e tipógrafo Belarmino José de Mattos, e desde então se consolidou no mercado da informação como um veículo de credibilidade que aborda os mais diversos temas presentes na sociedade e o registro do cotidiano.
“São Gonçalo tem seu próprio jornal e isso é muito importante para a pesquisa de São Gonçalo, para a história e cotidiano da cidade, dos moradores. Estamos falando de uma época em que o acesso à informação não era fácil, você não tinha internet, celular com internet, e o jornal era o que pautava o debate público. Então, eu estou trabalhando com o surgimento de um bairro em um contexto de ditadura, o que deixa tudo mais restrito ainda. O jornal surge por ser essa voz dos bairros, por armazenar a história da cidade e ter sido essa base para o Diário Oficial da prefeitura com os gonçalenses”, explicou Luis Paulo.

“Para a sociedade, o jornal é importante porque preserva a história de comunidades que muitas vezes só aparecem nas páginas policiais. O jornal devolve para essas pessoas o protagonismo de suas histórias, mas além disso, o jornal torna-se importante porque realiza o movimento, em justa medida, da recuperação da autoestima de uma população de uma localidade que convive há anos dentro desse estigma da criminalidade. Dentro do que a minha pesquisa pretende, eu compreendo que o jornal oferece material para superar essa noção de que esse espaço com riqueza natural, cultural e econômica, não tenha uma história, um passado”, contou o estudante da UFF.
Além de informações sobre política, segurança pública, entretenimento, entre tantas outras editorias que compõem um veículo de comunicação, especialmente o OSG, Luis Paulo salienta a importância de o jornal manter uma certa proximidade com o leitor.
“É um espaço de publicação do gonçalense, por exemplo, eu estou no jornal falando sobre a minha pesquisa. Então, ele tem essa relação com a sociedade local e sua importância para a história da cidade, como no meu caso, se dá muito pela possibilidade de pesquisa fluminense, não só em São Gonçalo. Olhando os jornais, eu encontrei muita coisa de Itaboraí, Magé, então para a sociedade não apenas gonçalense, mas também fluminense, o jornal é extremamente importante”, encerrou o graduando.