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Dia Internacional da Mulher: conheça a história de resistência e transformação de quatro gonçalenses

Em diferentes espaços, elas têm contribuído para inspirar outras mulheres e fortalecer suas comunidades

relogio min de leitura | Escrito por Nayra Silva com edição de Cyntia Fonseca | 08 de março de 2026 - 08:00
Da ciência à psicologia, da atuação comunitária à gestão na área de hotelaria
Da ciência à psicologia, da atuação comunitária à gestão na área de hotelaria -

Em meio a tantas notícias de violência, feminicídios e agressões que ainda marcam a realidade de muitas mulheres no país, histórias de quem transforma, cuida, acolhe e inspira ajudam a mostrar outra face da luta feminina. No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, trajetórias de força, resistência e dedicação ganham ainda mais significado. Em São Gonçalo, quatro mulheres de diferentes áreas têm se destacado por suas histórias de superação, trabalho e impacto na comunidade, mostrando que, mesmo diante de desafios, o protagonismo feminino segue abrindo caminhos e transformando realidades.

Da ciência à psicologia, da atuação comunitária à gestão na área de hotelaria, essas mulheres carregam em suas trajetórias histórias que dialogam com educação, resistência, ancestralidade e compromisso com o coletivo. Conheça quatro personagens que, em diferentes espaços, têm contribuído para inspirar outras mulheres e fortalecer suas comunidades.


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Bruna Batista da Silva, de 34 anos, supervisora de Alimentos e Bebidas
Bruna Batista da Silva, de 34 anos, supervisora de Alimentos e Bebidas |  Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

A trajetória de Bruna Batista da Silva, de 34 anos, supervisora de Alimentos e Bebidas começou há cerca de 15 anos, quando participou de um curso profissionalizante oferecido por grandes hotéis do Rio de Janeiro. Moradora do Zumbi, durante a formação teve a oportunidade de conhecer diferentes setores da hotelaria e acabou se apaixonando pela área de Alimentos e Bebidas.

Ao longo da carreira, passou por grandes redes hoteleiras, como Intercontinental, Marriott e Accor, onde atua atualmente. Hoje, Bruna é supervisora de Alimentos e Bebidas, responsável pela operação de duas torres hoteleiras e cinco pontos de venda. Sua experiência inclui implantação de hotéis, transição de marcas e reestruturação de equipes. Além da trajetória profissional, ela também investe na formação acadêmica. Atualmente cursa Administração pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), por meio do projeto Cecierj. Bruna também é mãe solo de Miguel, de 7 anos.

Sua trajetória ganhou ainda mais reconhecimento após receber o Prêmio Gastronomia Preta 2025, algo que ela considera um divisor de águas em sua carreira. “O prêmio foi um momento em que consegui reconhecer toda a minha caminhada. Muitas vezes estamos sempre tentando entregar o máximo possível, e aquela foi a hora de olhar para trás e perceber o quanto já conquistei”, conta.

Para ela, um dos maiores desafios da carreira foi enfrentar o racismo estrutural em um setor que, por muitos anos, foi dominado por homens. “Em muitos momentos senti que precisava entregar três ou quatro vezes mais para ser reconhecida. Mesmo assim, sempre acreditei no meu potencial e busquei na educação uma forma de transformação.” Hoje, além da paixão pela gastronomia, Bruna também busca abrir caminhos para outras pessoas, principalmente profissionais negros. “As mãos negras sempre estiveram dentro da gastronomia, mas muitas vezes não estão em evidência. Quero ajudar a abrir caminhos para que mais pessoas possam ocupar esses espaços.”

Fátima Maria dos Santos, 65 anos
Fátima Maria dos Santos, 65 anos |  Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

Atleta de handebol e corredora de longa distância nos anos 1970, Fátima Maria dos Santos, 65, conhecida como Fátima Cidade, precisou abrir mão da carreira esportiva e acadêmica para criar as três filhas. Após viver um relacionamento marcado por violência, voltou para o bairro Birapitanga, em Itaúna, São Gonçalo, onde iniciou sua atuação comunitária.

Nos anos 1990, tornou-se presidente da associação de moradores e passou a atuar diretamente no enfrentamento à violência de gênero. Também participou de iniciativas sociais no lixão de Itaoca e ajudou a construir o projeto Mãe Auxiliar, voltado ao cuidado de mulheres gestantes. A mobilização comunitária também integrou a luta pela construção do Hospital Estadual Alberto Torres (Heat), no Colubandê.

Já atuando como servidora pública na área da saúde, Fátima decidiu aprofundar os estudos e ingressou na graduação em Enfermagem, em 2003. Durante a formação e a atuação em maternidades públicas, passou a se dedicar ao debate sobre violência obstétrica e direitos das gestantes.

Em 2008, apresentou o trabalho de conclusão de curso sobre violência no atendimento às gestantes na Região Metropolitana II. Depois disso, realizou pós-graduação em Direito e Saúde pela Fiocruz e voltou ao ativismo no Movimento de Mulheres de São Gonçalo. Em 2014, ajudou a criar a Roda de Conversa com Gestantes, Amigos, Familiares e Puérperas, iniciativa que orienta mulheres sobre direitos no pré-natal, parto e puerpério. O projeto segue ativo até hoje, oferecendo apoio e informação.

Ao longo da trajetória, Fátima também passou a integrar o Conselho Municipal da Mulher, o Conselho Estadual dos Direitos da Mulher e a Rede de Enfrentamento à Violência contra a Mulher do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Seu trabalho já recebeu moções de reconhecimento e premiações estaduais, além de uma indicação ao Prêmio Mulher Cidadã Carlota Pereira de Queiroz, no Congresso Nacional. “Nós, mulheres, não podemos aceitar a falta de respeito com nossos corpos. Somos nós que parimos o mundo”, afirma.

Patrícia Dias Galvão Alves, 28 anos
Patrícia Dias Galvão Alves, 28 anos |  Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

Desde criança, Patrícia Dias Galvão Alves, de 28 anos, biomédica e pesquisadora, demonstrava curiosidade pela ciência. Gostava de observar a natureza e se encantava com as visitas escolares à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Na época, não imaginava que, anos depois, faria parte da instituição. Formada em Biomedicina, com habilitação em Biologia Molecular e Biomedicina Estética, além de técnica em Análises Clínicas, Patrícia sempre teve interesse pela investigação científica. Durante a graduação, foi aluna destaque, atuou como monitora de Biologia Molecular e participou de projetos acadêmicos e de extensão.

Sua trajetória na ciência começou na iniciação científica no Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), onde pesquisou hantavírus e arenavírus em roedores. Ao mesmo tempo, estagiava no Pronto Socorro Central de São Gonçalo, conciliando a rotina entre estudos, estágio e deslocamentos entre São Gonçalo, Niterói e Rio de Janeiro.

Hoje é mestre em Ciências pelo Programa de Pós-graduação em Medicina Tropical da Fiocruz. Em seu estudo, investigou a circulação de vírus zoonóticos em populações de mamíferos silvestres no Maciço da Pedra Branca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, região que abriga o Parque Estadual da Pedra Branca, considerada a maior floresta urbana das Américas.

A pesquisa busca compreender como vírus como hantavírus e arenavírus circulam entre animais silvestres e qual o potencial de interação entre fauna, ambiente e populações humanas que vivem próximas a áreas de floresta.

Segundo Patrícia, esse tipo de estudo tem grande importância tanto para a ecologia das doenças quanto para a saúde pública, já que entender a circulação desses vírus em ambientes naturais permite antecipar riscos de transmissão e fortalecer estratégias de vigilância epidemiológica.

Um dos resultados do trabalho foi a identificação de um novo hantavírus em morcegos, o que amplia o conhecimento científico sobre a diversidade viral e potenciais reservatórios. A pesquisadora ressalta que o vírus identificado não é patogênico para humanos.

Esse tipo de pesquisa também se insere na abordagem de Uma Só Saúde, que integra saúde humana, animal e ambiental. Ao compreender quais vírus circulam naturalmente na fauna, é possível desenvolver estratégias de prevenção e monitoramento de doenças emergentes.

Além disso, o estudo reforça a importância da preservação de áreas naturais dentro das cidades. O Parque Estadual da Pedra Branca, importante área de conservação da Mata Atlântica em meio a uma região urbana densamente povoada, demonstra como a proteção ambiental também está diretamente ligada à saúde pública. “A ciência também mostra como a saúde humana, animal e ambiental estão conectadas. Entender esses processos é fundamental para prevenir futuras doenças”, explica.

Patrícia finaliza dando um conselho para as mulheres que querem seguir na ciência. "Não desistam quando o caminho parecer difícil. A ciência exige muito de nós, horas de estudo, frustrações e experimentos que nem sempre dão certo, mas também nos dá a oportunidade de descobrir, contribuir e deixar um legado. Muitas vezes precisamos conciliar uma dupla jornada, lidar com cobranças internas e externas e, ainda assim, manter sonhos para além da pesquisa. O conhecimento é algo que ninguém pode tirar de você, e sempre vale a pena investir nele. A ciência precisa de mais mulheres ocupando espaços de liderança, chefia e tomada de decisão. O caminho ainda é longo, mas precisa ser ocupado”.

A psicóloga Patrícia Muniz, 38 anos
A psicóloga Patrícia Muniz, 38 anos |  Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

Criada no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, Patrícia dos Santos Muniz, 38, psicóloga e pesquisadora, construiu sua trajetória acadêmica e profissional a partir das experiências vividas no território onde nasceu e cresceu. Mulher negra e filha de um casal interracial, ela afirma que as relações comunitárias da favela foram fundamentais para sua formação enquanto pessoa e também como profissional.

Foi justamente a partir dessas vivências que surgiu o interesse em estudar as relações humanas e compreender as dinâmicas sociais presentes nas comunidades. Ao ingressar na graduação em Psicologia, Patrícia buscava aprofundar esse olhar sobre as pessoas e os contextos em que vivem. No entanto, durante os primeiros anos de formação e de atuação profissional, chegou a se sentir distante da forma como a psicologia era apresentada.

A mudança aconteceu quando passou a trabalhar na área social, em São Gonçalo. Nesse contexto, percebeu que a psicologia poderia dialogar diretamente com as realidades vividas nas periferias e nos territórios populares. “Eu entendi que a questão não era falta de identificação com a psicologia, mas com uma psicologia que não dialogava com a minha realidade, com as pessoas de onde eu venho”, explica.

A partir dessa reflexão, decidiu retornar à universidade como pesquisadora. No mestrado, desenvolveu um estudo voltado para os modos de vida e as potências existentes nas favelas, buscando apresentar um olhar que vá além das narrativas que frequentemente associam esses territórios apenas à violência e à precariedade. Segundo Patrícia, seu objetivo foi mostrar que, apesar da ausência de políticas públicas e das dificuldades enfrentadas diariamente, as favelas também são espaços de organização social, cultura, solidariedade e resistência.

Atualmente, ela cursa doutorado na Universidade Federal Fluminense (UFF), onde continua pesquisando as subjetividades faveladas e periféricas, investigando como a psicologia pode ser construída e aplicada dentro dos territórios de favela, respeitando suas especificidades culturais e sociais. Além da atuação acadêmica, Patrícia também desenvolve trabalho comunitário no projeto Vozes Periféricas, iniciativa do Movimento de Mulheres em São Gonçalo. O projeto atua no fortalecimento da autoestima e da autonomia de mulheres do Complexo do Salgueiro por meio de acompanhamento psicossocial, rodas de conversa, atividades culturais e cursos de formação.

Para ela, permanecer na universidade também é uma forma de representar o lugar de onde veio. “Eu me sinto uma representante do Salgueiro dentro da universidade. Estar nesses espaços também é uma forma de mostrar que pessoas da favela produzem conhecimento e podem contar suas próprias histórias.”

Como mensagem para outras meninas e mulheres da periferia que desejam seguir na universidade, Patrícia reforça a importância da educação e da persistência. “A educação é um espaço de poder. O caminho não é fácil, mas o conhecimento transforma. Precisamos ocupar esses espaços e contar nossas próprias histórias.”

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