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Contra a violência, projeto social oferece defesa pessoal gratuita para mulheres em São Gonçalo

A iniciativa é uma parceria entre os projetos Na Mira Delas e Fé na Luta

relogio min de leitura | Escrito por Renata Sena | 19 de fevereiro de 2026 - 09:46
A iniciativa é uma parceria entre os projetos Na Mira Delas e Fé na Luta
A iniciativa é uma parceria entre os projetos Na Mira Delas e Fé na Luta -

Diante do crescimento dos casos de violência contra mulheres no Brasil, um projeto social em São Gonçalo tem buscado oferecer mais do que acolhimento: autonomia. Localizada no bairro Mutondo, uma igreja abriu as portas para aulas gratuitas de defesa pessoal voltadas exclusivamente para mulheres e adolescentes a partir dos 13 anos.

A iniciativa é uma parceria entre os projetos Na Mira Delas e Fé na Luta. O segundo já acontecia na igreja e oferecia aulas de diversas modalidades de luta para crianças, jovens e adultos da comunidade. A defesa pessoal, oriunda do projeto Na Mira Delas, passou a integrar as atividades como uma resposta direta ao cenário de insegurança enfrentado por muitas moradoras.

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À frente das aulas está a lutadora Luanda Fragoso, de 28 anos. Nascida em Nilópolis e morando há quatro anos em São Gonçalo, ela conta que iniciou no esporte ainda criança, em um projeto social, começando pela capoeira aos sete anos. Depois vieram o karatê, o judô, iniciado em 2011, e o jiu-jitsu, modalidade à qual tem se dedicado nos últimos anos.

“Minha família não era uma família que apoiava os esportes, então muitas vezes eu tinha que ir com amigas. Mas o esporte foi minha válvula de escape e hoje eu garanto que, se eu tivesse tido o esporte como aliado desde sempre, eu não teria passado por algumas coisas”, relembra.

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Para Luanda, a defesa pessoal vai além da técnica. “Existe um divisor do que é um esporte e do que é uma realidade. O esporte vira carreira, objetivo, foco. É excelente quando uma criança ou um adolescente chega sem perspectiva e vê no esporte uma profissão, um estilo de vida. Mas existe a realidade de quem não quer virar esportista, não quer se dedicar a isso, mas quer e precisa aprender a se defender”, afirma.

Segundo ela, as aulas trabalham situações práticas, como percepção de risco, postura corporal e reação em momentos de abordagem. “A defesa pessoal tem o poder de romper a paralisação que a vítima encontra no momento da abordagem inesperada. Ela acelera o pensamento. A mulher passa a saber o que fazer. E existe outra vantagem: a vítima não fica desesperada, mas o agressor se surpreende, porque eles nunca esperam reação. O fator surpresa fica do lado da mulher”, explica.

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Entre as orientações estão medidas preventivas simples, como estar atenta a comportamentos suspeitos, escolher onde sentar em transportes por aplicativo, preferencialmente atrás do motorista, e entender como se desvencilhar em caso de agressão. As aulas também ensinam pontos estratégicos do corpo onde golpes podem ser aplicados para facilitar a fuga.

“Não temos mais a fantasia do sexo frágil, mas biologicamente as mulheres têm limitações diferentes das dos homens. Por isso é importante o conhecimento, para saber onde aplicar o golpe. Com sabedoria, a mulher pode decidir o que fazer e controlar, inclusive, a gravidade da ação que vai aplicar”, diz.

Segundo a professora, muitas alunas têm entre 40 e 50 anos e estão tendo o primeiro contato com uma modalidade de luta. “É a primeira vez de muitas, e elas estão quebrando essa barreira.”

Luanda também compartilha experiências pessoais de momentos em que se sentiu vulnerável na juventude. “Já passei por diversos momentos em que me senti encurralada. Quando olho para trás, vejo que nunca passaria pelo que passei com o conhecimento que tenho hoje. O esporte me trouxe a energia do confronto, porque o confronto exige ação e reação”, afirma. “Hoje eu me olho e sei que sou forte para encarar qualquer situação”, completa, destacando que não se refere à força física.

As aulas acontecem às quartas e sextas-feiras, das 19h30 às 20h30, exclusivamente para mulheres. “Na aula, o homem é só para apanhar”, brinca, ao explicar que os treinos simulam situações reais de defesa. E mesmo sendo “só para apanhar”, o professor de judô Gustavo de Abreu, de 28 anos, participa das aulas.

Luanda Fragoso e Gustavo Abreu
Luanda Fragoso e Gustavo Abreu |  Foto: Layla Mussi

“Eu venho ajudar na simulação, porque considero um prazer participar de um projeto como esse”, afirma Gustavo, que foi o primeiro aluno do projeto Fé na Luta a se tornar professor. “Eu comecei como aluno, cheguei aqui em 2015, me graduei e hoje atuo como professor”, conta.

O projeto é coordenado pelo pastor Gilvan Junior, idealizador da iniciativa. Segundo ele, a ideia surgiu da necessidade de ampliar o papel social da igreja. “O projeto começou com o incômodo de entender que éramos uma igreja que funcionava muito para dentro. Queríamos ser resposta para a comunidade”, afirma. “Fizemos um rateio entre os membros e começamos.”

Pastor Gilvan Junior e Luanda Fragoso
Pastor Gilvan Junior e Luanda Fragoso |  Foto: Layla Mussi

Para o pastor, a igreja tem como função servir à comunidade e ser um lugar de abrigo. Além da defesa pessoal, o espaço oferece aulas de judô com o professor Gustavo, que já integrou a equipe de judô dos Fuzileiros Navais. Ele destaca que o esporte também atua na formação de valores e na construção da disciplina.

“O esporte traz conscientização. A luta constrói uma percepção de valores”, reforça Luanda. Para ela, encaminhar jovens para o tatame pode mudar trajetórias. “A luta dá oportunidade de profissão, inclusive. Uma pessoa sem condição começa brincando e pode virar professor.”

O projeto é aberto à comunidade e não exige que os participantes sejam membros da igreja.

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Serviço

Igreja Central do Mutondo

Rua Gaspar de Freitas, Mutondo, São Gonçalo

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