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Após demolições no Jardim Catarina, comerciantes esperam há oitos anos por indenizações

Os comerciantes foram retirados do local em 2013

relogio min de leitura | Ana Carolina Moraes 12 de março de 2021 - 10:17
Comerciantes do Catarina se sentem prejudicados até hoje
Comerciantes do Catarina se sentem prejudicados até hoje -

Há cerca de oito anos, a Prefeitura Municipal de São Gonçalo retirou os comerciantes da linha do trem localizada na Rua Adelaide de Lima, no bairro do Jardim Catarina. Na época, o órgão prometeu que ali seria construído um monotrilho, a Linha 3 do Metrô, ligando Niterói e São Gonçalo, com extensão até Itaboraí e, além disso, os comerciantes retirados do local ganhariam um box no Alcântara. Hoje, cerca de 50 famílias são afetadas com a situação e ninguém recebeu o prometido, muito pelo contrário, os comerciantes da região tiveram que se realojar em outras localidades e sentiram a perda de seus clientes. A linha do metrô também não foi construída na região, hoje, o local é uma praça. 

Uma praça foi construída no local onde seria a Linha 3 do Metrô
Uma praça foi construída no local onde seria a Linha 3 do Metrô |  Foto: Leonardo Ferraz
 

Na época, a linha do trem era ocupada por construções irregulares, incluindo moradores também, os quais lhes foi prometido uma casa no programa Minha Casa Minha Vida. Todos foram retirados do local em janeiro de 2013. 

"Na ocasião, não mostraram nenhum projeto dessa linha para os comerciantes retirados, apenas a proposta. Mas, mesmo assim, as retroescavadeiras estiveram aqui em janeiro, dias depois da assembleia com representantes da prefeitura que informaram que aqui se tornaria a linha do metrô. Na época, o secretário, que estava representando o órgão público municipal, disse que não deixaria ninguém sem amparo. Logo que os comerciantes foram retirados, lhes foi prometido o box no Alcântara, todos ficaram animados. Aqui, no local, só sobram entulhos dos antigos comércios, tudo foi destruído", contou a advogada Camila Costa, de 28 anos, que representa os comerciantes envolvidos no caso desde 2016. Ela já iniciou, ao todo, dez ações contra a prefeitura sobre a situação. Até o momento, apenas uma ação foi ganha, sendo que a prefeitura recorreu da decisão judicial.

Uma praça foi construída no local onde seria a Linha 3 do Metrô
Uma praça foi construída no local onde seria a Linha 3 do Metrô |  Foto: Leonardo Ferraz
 

Em julho de 2013, no entanto, a situação mudou. Segundo Camila, agora seria construída não mais a linha 3 do metrô, mas uma via para ajudar no trânsito do Alcântara.

"Fizeram uma outra assembleia e informaram que seria uma via de mão dupla para ajudar no trânsito dos bairros próximos. Mas, mesmo assim, continuaram prometendo o box para os comerciantes que ficavam na região. Na época, fizeram até o cadastro dos comerciantes, mas depois disso não fizeram nada, sendo que todos estes donos de estabelecimentos pagavam seus alvarás em dia. Quando mudou a gestão, os prefeitos seguintes, através da defensoria, afirmaram que não tinham responsabilidade com o caso e não fizeram nada. Hoje, o local se tornou uma praça, que a prefeitura afirma ser para o bem estar da população, mas eu não vejo bem estar se os comerciantes continuam sofrendo sem respostas e ainda perderam seus clientes e seus pontos de trabalho na via principal. Vale informar que em uma parte da avenida foi construída a praça, mas ainda há uma parte em que estão apenas entulhos até hoje", contou a advogada.

Mesmo com a praça, uma parte da região continua com entulhos
Mesmo com a praça, uma parte da região continua com entulhos |  Foto: Leonardo Ferraz
 

Aflitos, os comerciantes, que estavam no local há mais de 30 anos, compartilharam que tinham esperança na promessa feita em 2013, mas tiveram que seguir suas vidas e se readaptar à nova realidade sem seus antigos postos de trabalho. 

O barbeiro Marcelo Antônio Tavares, de 48 anos, possuía uma barbearia com seu pai no local onde hoje é a praça.

"Foi horrível quando tiraram a gente daqui. Falaram do box no Alcântara, mas nada foi feito. Se dependesse desse box estaríamos passando fome. Tivemos que nos readaptar e hoje eu continuo no Catarina só que em outra localização, pagando aluguel agora. Perdemos clientes e tudo, pois não deu tempo de avisar que mudaríamos de lugar na época", contou ele que teve seu comércio ali por 23 anos.

Daniel Alves falcão, de 56 anos, tinha uma papelaria no local há 10 anos quando foi retirado em 2013. Ele também esperou pela promessa, mas não conseguiu nada.

"Nós ficamos na expectativa já que o box foi anunciado em uma reunião com a prefeitura. Eu pagava todos os meus impostos, mas, mesmo assim fui retirado sem nada. Eu fiquei um tempo, depois de ser retirado daqui, com meu material em casa aguardando pelo box, tive que trabalhar em outro lugar para conseguir dinheiro, já que as contas continuavam chegando. Ano passado, consegui juntar dinheiro e abri uma nova papelaria em Itaboraí, ou seja, longe de casa. O questionamento não é nem a melhoria do lugar, eu questiono mesmo é o modo  como foi feito", contou.

Comerciantes foram retirados do local em janeiro de 2013
Comerciantes foram retirados do local em janeiro de 2013 |  Foto: Leonardo Ferraz
 

Já Maria Célia da Silva Araújo, de 53 anos, que tinha um salão de beleza na região que durou 11 anos, conta que também esperou pelo box, mas teve que reabrir um salão dentro de casa.

"Eu tive que abrir meu salão em casa. Minha família agora tem que dividir o espaço com o salão. Eu esperei o box, mas não veio. Eu perdi vários clientes, pois o fluxo aqui era bom. Eu não acho certo tirarem a gente daqui já que pagávamos tudo, mas já fizeram né. Na época, me falaram que meu alvará nem valia de nada", relatou ela.

O dono de bar Edison Barbosa Gomes, de 72 anos, também teve que se realojar.

"Eu tinha meu bar nessa avenida por cerca de 15 anos antes de nos tirarem daqui. Agora, eu estou em outro lugar, pagando aluguel e mais longe do movimento", afirmou o mesmo.

Procurada, a Prefeitura Municipal de São Gonçalo ainda não se pronunciou sobre o caso. Já o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ) informou que os processos estão em andamento, e não estabeleceu um prazo para uma conclusão final. Para consultar o andamento, os envolvidos devem ingressar com os números do processos. 

Confira matérias anteriores sobre o caso:

Espaço que seria destinado ao metrô vai virar área de lazer em São Gonçalo

Famílias retornam às casas sobre antiga linha férrea de São Gonçalo

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