Famílias retornam às casas sobre antiga linha férrea de São Gonçalo
Apesar de várias demolições, projeto de mobilidade urbana do município nunca saiu do papel

Por Daniela Scaffo
Quase seis anos depois da desapropriação dos imóveis na Linha Férrea, que corta o Jardim Catarina, em São Gonçalo, muitas famílias estão retornando ao espaço e reconstruindo novas casas nos escombros das antigas construções. Um problema semelhante ocorre em quase toda extensão da Avenida Presidente Kennedy, nos bairros da Trindade, Nova Cidade e Bairro Antonina.
A desapropriação, que começou pelo Jardim Catarina, aconteceu após o anúncio da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), que durante visita a São Gonçalo, prometeu recursos de R$ 2,5 bilhões para a construção de um monotrilho, ligando Niterói e São Gonçalo, com extensão até Itaboraí, formando, então, a sonhada Linha 3 do metrô.
Na época, algumas famílias que moravam na Rua Adelaide de Lima foram indenizadas, mas o projeto de mobilidade urbana do município nunca saiu do papel. Em 2017, o poder municipal que chegou a anunciar um novo projeto de mobilidade, o serviço rápido de ônibus (BRS), que consistia na criação de uma nova via (binário) aproveitando uma pequena parcela do eixo desativado da antiga ferrovia (mesmo traçado proposto para a Linha 3 do metrô). A proposta, no entanto, também não foi concretizada.
"A prefeitura realizou a desocupação de cerca de 300 casas no Jardim Catarina. Algumas famílias foram indenizadas, mas a prefeitura não demoliu todas as construções. Então, algumas pessoas retornaram e alugaram os imóveis que receberam. Estão fazendo até novas casas", contou uma mulher, que preferiu não se identificar.
Na Rua Presidente Kennedy, o problema não é diferente. Em quase todo o trecho da antiga linha férrea que passa pelos bairros de Trindade, Nova Cidade e Bairro Antonina, foram construídos imóveis irregulares.
Um deles fica na altura da praça de Nova Cidade. Segundo os moradores, um homem chegou a construir um local para venda de suas flores. A prefeitura retirou o comerciante irregular do local, mas não destruiu o imóvel, que está sendo ocupado por moradores de rua.
"Ele fazia um trabalho muito bonito com as flores e ficava tudo arrumadinho, mas era irregular e a prefeitura tomou as providências. Depois de tirarem o rapaz daqui, não derrubaram a construção, que agora virou alvo de moradores de rua", disse a dona de casa Ivacir Teixeira, 57.
A também dona de casa Iara Andrade, 62, contou que tem medo de passar por aquele trecho da rua, devido a falta de movimento.
"Estamos muito abandonados pelo poder público. Quando o rapaz trabalhava aqui, tinha um movimento a mais. Agora, não tem mais ninguém e a prefeitura ainda deixou os escombros, que pode ser alvo de alguém malicioso, usuários de drogas ou assaltantes", explicou.
Em resposta ao caso, a Prefeitura respondeu que "a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social irá realizar ação, em conjunto com outros setores, para verificar a real situação das famílias que possivelmente estão voltando a ocupar a linha férrea para, a partir daí, realizar o atendimento socioassistencial necessário a estas pessoas e tomar as providências necessárias.
O contrato para estudos e projetos para a implantação do BRS e ciclovia em São Gonçalo já está na quarta etapa. O prefeito da cidade, José Luiz Nanci, conseguiu garantir a retomada do projeto em abril de 2018, após encontro com representantes da Secretaria Nacional de Transporte e Mobilidade Urbana, em Brasília. Os recursos são oriundos do Ministério de Desenvolvimento Regional, através da Caixa Econômica Federal.
O projeto do BRS, que está sendo elaborado pelo consórcio Coba Logit, consiste na criação de um binário aproveitando o eixo desativado da antiga linha férrea e o sistema viário do município. O binário deverá ser composto por faixas exclusivas destinadas ao transporte coletivo, com uma linha principal ligando Neves a Alcântara (que também receberá a ciclovia), além de linhas alimentadoras.
Até o momento, as três primeiras etapas de estudos já abordaram: levantamento de informações e pesquisas, análise do sistema, elaboração e análise de alternativas e levantamentos topográficos e cadastrais.
Apenas após o término e conclusão da elaboração dos projetos, será possível pleitear recursos para execução das obras junto ao Ministério de Desenvolvimento Regional".