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Agosto Lilás: meninas de projeto social carioca conquistam o Mundial Feminino de jiu-jitsu

Sete atletas do projeto Journey Rio voltaram do Mundial Feminino com duas medalhas de ouro, três de prata e duas de bronze

relogio min de leitura | Redação
Representando a equipe Journey Rio, do sensei Fabrício Batista, todas as sete atletas que foram para a competição conquistaram medalhas: duas de ouro, três de prata e duas de bronze
Representando a equipe Journey Rio, do sensei Fabrício Batista, todas as sete atletas que foram para a competição conquistaram medalhas: duas de ouro, três de prata e duas de bronze -

O Agosto Lilás é tradicionalmente associado à conscientização e ao enfrentamento da violência doméstica e familiar contra a mulher. Mas falar em prevenção também significa pensar em como meninas e mulheres podem crescer conhecendo a própria força, desenvolvendo confiança e ocupando espaços. Foi o que sete meninas de um projeto social de jiu-jitsu da Zona Norte do Rio fizeram no último dia 9, durante o Mundial Feminino da CBJJO (Confederação Brasileira de Jiu-Jítsu Olímpico), realizado na Fortaleza de São João, no bairro da Urca, Zona Sul do Rio de Janeiro.

Representando a equipe Journey Rio, do sensei Fabrício Batista, todas as sete atletas que foram para a competição conquistaram medalhas: duas de ouro, três de prata e duas de bronze. O resultado ajudou a equipe a alcançar o 7º lugar na classificação por equipes, entre 110 participantes. “Mesmo levando apenas sete atletas, conseguimos essa colocação. Imagina se tivéssemos levado o dobro!”, afirma Fabrício.


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No tatame, sete histórias diferentes

Aos 14 anos, Isabella Almeida foi uma das campeãs mundiais. Ela chegou ao projeto em um dos momentos mais difíceis de sua vida, depois da perda do pai. Convidada por uma amiga, encontrou no jiu-jítsu um espaço para sair de casa, conviver com outras meninas e reconstruir a confiança. Depois da perda do pai, Isabella passou a encontrar no projeto um espaço de acolhimento. “Às vezes eu ainda choro, até mesmo durante os treinos, mas o projeto e as pessoas que estão comigo me dão forças para não desistir”, desabafa.

Manuela Luísa Rodrigues, a Manuzinha, de apenas 9 anos, também voltou do Mundial como campeã. A pequena, que é faixa cinza, pratica jiu-jitsu há cerca de dois anos e meio e também faz judô. Mesmo com apenas 9 anos, ela já é a atleta da equipe com o maior número de medalhas e terminou 2025 invicta em todas as competições das quais participou. Ela conheceu o esporte por meio do pai, que é amigo do sensei Fabrício. “Eu considero minha equipe como uma família. Gosto muito deles, são a minha família do tatame”, diz.

Jullia Santos, de 15 anos, foi vice-campeã. Ela conheceu o esporte por meio de uma amiga e completou dois anos de prática agora em agosto. Antes de mergulhar nas artes marciais, ela fazia balé. Jullia conta que o jiu-jitsu mudou sua maneira de agir, pensar e enfrentar dificuldades. “Hoje o jiu-jitsu não é só um esporte para mim, já é um pedaço da minha vida”, resume.

A também vice-campeã, Yasmin Rodrigues, de 14 anos, começou a treinar em novembro de 2025 depois de conhecer o projeto por meio de uma amiga que praticava muaythai. Para ela, o jiu-jitsu trouxe mais confiança, força e coragem e ensinou a não desistir daquilo que realmente gosta. Yasmin também vê no esporte uma possibilidade de aprender a se defender diante da violência. “O jiu-jitsu me ensinou a ser forte, corajosa e nunca desistir do que eu realmente gosto e a acreditar em mim”, afirma.

Sophia Oliveira, de 12 anos, conquistou a medalha de prata. Ela treina há cerca de sete meses e conheceu o projeto depois de participar de uma colônia de férias promovida pelo sensei Fabrício. Ela nunca havia praticado outro esporte antes na vida. No jiu-jitsu, aprendeu que nem sempre é preciso ganhar para evoluir e descobriu disciplina, persistência e coragem. Para outras meninas que estejam passando por momentos difíceis, ela deixa uma mensagem: “Não tenha medo de tentar. Talvez o jiu-jitsu não resolva todos os problemas, mas pode ajudar a descobrir uma força que ela nem sabia que tinha. E, principalmente, não desista de si mesma.”

Isabella Melo, a Isabelinha, de 13 anos, ficou com o bronze. Ela conheceu o projeto por meio de um primo e pratica jiu-jitsu há cerca de nove meses, depois de já ter feito judô. Para ela, o esporte pode ser descoberto aos poucos, com uma aula experimental e a oportunidade de perceber se realmente gosta da modalidade. “Eu aprendi muitas coisas legais no projeto, principalmente sobre amizade”, conta a medalhista.

Maria Eduarda Godoy, de 12 anos, também conquistou o bronze. A mãe procurou o projeto porque sua filha era sedentária e não praticava atividades físicas. “No início, ninguém acreditava muito que ela continuaria, por causa do ritmo intenso dos treinos. Aos poucos, percebeu sua evolução e decidiu continuar", conta o sensei. Antes do jiu-jitsu, ela praticou futsal, natação, balé e ginástica. No projeto, encontrou amizade, respeito, confiança, disciplina e uma segunda família. “Hoje, para mim, o projeto significa uma segunda chance, também uma segunda família”, afirma Duda, como é chamada carinhosamente pelos amigos de equipe.

Um projeto que nasceu para criar oportunidades

A trajetória do trabalho do professor Fabrício Batista começou com a chamada Ação da Alegria, criada para oferecer a crianças de áreas carentes atividades lúdicas, artísticas, físicas e coletivas. Em julho de 2024, ele iniciou aulas gratuitas de jiu-jitsu aos pés da comunidade do Engenho da Rainha. Depois vieram iniciativas como o Cine Alegria e a Colônia de Férias Alegria.

Atualmente, o projeto atende cerca de 30 crianças e adolescentes, entre 4 e 17 anos, além de adultos das regiões de Pilares, Inhaúma e Engenho da Rainha. Para o sensei, o crescimento da participação feminina nas artes marciais também acompanha uma procura maior por aulas de defesa pessoal. Na Journey Rio, cerca de 70% dos alunos são meninas e mulheres. “A procura feminina aumentou bastante”, observa Fabrício. O grupo reúne atletas que estão entre os primeiros colocados do ranking da CBJJD (Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu Desportivo) e competidores campeões brasileiros, estaduais, sul-americanos e mundiais.

Fabrício é atleta desde os 14 anos e acumula 28 anos de experiência nas artes marciais. Formado como professor de jiu-jitsu em 2010, também atuou como voluntário e estagiário de Educação Física e trabalhou com futebol e muaythai. A origem do projeto, segundo ele, está na necessidade de oferecer oportunidades às quais muitas crianças não têm acesso. “O objetivo era simples, mas não tão fácil: trazer alegria a crianças de áreas carentes, dando oportunidade de participarem de atividades lúdicas, artísticas ou físicas e atividades coletivas para interação social”, explica.

Hoje, uma das maiores dificuldades é manter o projeto sem apoio ou suporte governamental. A busca por patrocinadores e parceiros é necessária para que o trabalho possa continuar e crescer. “A maior dificuldade é manter esses projetos deste tipo sem apoio ou qualquer suporte governamental, porém aprendi que a própria sociedade se ajuda”, afirma Fabrício.

O Agosto Lilás também precisa olhar para os meninos

Criado em 2016 no Mato Grosso do Sul para marcar os dez anos da Lei Maria da Penha, o Agosto Lilás se tornou uma campanha nacional em 2022. A mobilização busca conscientizar sobre as diferentes formas de violência contra a mulher, divulgar mecanismos de proteção e estimular a prevenção.

De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e do DataSenado, que detalham o cenário dos últimos cinco anos (2021 a 2025), os números da violência contra a mulher continuam preocupantes no país. O Brasil registrou 1.571 feminicídios só em 2025.

Na violência sexual contra crianças e adolescentes, as meninas representam cerca de 87% a 90% das vítimas. Além disso, parte da violência sofrida por meninas dentro de casa pode ficar diluída nos registros de violência contra suas mães, enquanto situações de negligência, abandono e abuso psicológico também enfrentam subnotificação.

Por isso, combater a violência contra mulheres e meninas não pode significar apenas ensinar as vítimas a se proteger. Também envolve educar meninos e homens para que não reproduzam comportamentos violentos. No Brasil, existem iniciativas como a Campanha do Laço Branco, que mobiliza homens pelo fim da violência contra as mulheres, e ações de compromisso público como Homens Unidos pelo Fim da Violência.

A própria Lei Maria da Penha prevê grupos reflexivos e de reeducação para homens autores de violência, com abordagens que trabalham questões como machismo, controle, paternidade e inteligência emocional. Também existem projetos voltados à educação de meninos nas escolas, com conteúdos sobre igualdade de gênero, respeito ao corpo e às decisões das meninas e resolução de conflitos sem violência.

No tatame, as meninas da Journey Rio encontram uma parte dessa transformação. Não porque o jiu-jitsu seja uma solução para a violência, mas porque o esporte pode abrir caminhos para confiança, disciplina, convivência, autonomia e descoberta da própria capacidade. O Mundial mostrou o resultado em medalhas. As histórias delas mostram que a conquista começou muito antes de subir ao pódio.

O projeto segue buscando apoio para ampliar as oportunidades oferecidas às crianças, adolescentes e adultos atendidos. Quem quiser contribuir com a iniciativa pode procurar o sensei Fabrício Batista pelos contatos disponibilizados pelo projeto.

As aulas do projeto são de segunda a sexta, para todas as idades. Das 19h às 20h, há turma para crianças; das 20h às 21h30, para adolescentes e adultos. O projeto Journey Rio fica na Rua Álvaro de Miranda, 510, próximo ao mercado Pexinchete de Pilares, na Zona Norte do Rio. Visite o Instagram do @journeybrazilrj e saiba mais sobre o projeto.

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