Autores na Pandemia | Flup lança livro de contos inspirados em canções de Marcelo Yuka
Obra conta com a participação de escritores de São Gonçalo

Por Rennan Rebello
Embora haja uma retomada gradual das atividades econômicas, ainda há restrições para eventos com aglomerações. Desta forma, escritores acabam sendo prejudicados no lançamento de seus livros já que nestas ocasiões é uma ótima oportunidade para efetuar boas vendas além de se ter uma maior aproximação com seus leitores.
O terceiro e último capítulo da série Autores na Pandemia tem o escritor e um dos idealizadores da Festa Literária das Periferias (Flup), Julio Ludemir, como entrevistado. Ele conta sobre o próximo lançamento da Flup no mercado literário, trata-se do livro ''Contos para depois do ódio - inspirados nas canções de Marcelo Yuka' , que inclusive conta com textos de autores de São Gonçalo, como Rodrigo Santos e Romulo Narducci, criadores do sarau gonçalense 'Uma Noite na Taverna',já está disponível para a venda online pelo valor de R$30 mais o frete via Correios.
O lançamento em evento presencial da antologia ainda pode ocorrer neste ano, caso a situação da pandemia seja contornada. "Sim, vamos relançar o livro de forma presencial no pós-pandemia. Gostaríamos de fazer isso durante a edição da Flup que será entre outubro e novembro deste ano. A programação será um híbrido entre presencial e online mas na medida que seja possível fazer um lançamento de livro com noite de autógrafo na última semana de outubro, nós certamente faremos. Mas até lá, ainda há muita água para rolar", projetou.
Já o processo de concepção de 'Contos para depois do ódio' começou há aproximadamente três anos e contou com um processo criterioso para a seleção dos contistas que deveriam escrever em cima de uma letra composta por Yuka.
"De 2017 a 2019, a gente 'namorou' com a Mórula (editora) em uma estética e modelo de livro criado pela Mórula que chamou autores de um Rio de Janeiro 'profundo' para reescrever (de forma literária) as letras do Noel Rosa. O Ecio que jogava futebol com o editor da Mórula, o Vitor, conversou com ele sobre isso e nos sugeriu este formato de literatura e música. Começamos com uma antologia em tributo ao Bezerra da Silva, por tudo que ele representa para as periferias do Rio, depois escolhemos Martinho da Vila, por sua representação da negritude carioca e agora, optamos pelo Yuka, que representa uma ideia de rebeldia, de contestação e de oposição a Bolsonaro. São 30 contos neste livro. Sendo que em 24 letras, nós fizemos um sorteio das composições para distribuir. Por exemplo, a mesma letra para um bloco de cinco autores que estão inscritos, em nosso processo de formação, e cada autor tem um orientador que analisa se as histórias estão prontas ou não. Depois de três meses de oficina, as melhores tramas são selecionadas. Das seis letras que sobraram, nós convidamos, além dos autores das periferias, escritores já consolidados com uma carreira mais avançada para compor a obra. Dentre estes, o Rodrigo Santos, do 'bonde' lá de São Gonçalo ", disse Julio, que também destacou, ao OSG, o papel sociocultural do projeto do qual coordena.
"Junto com o meu sócio Ecio Sales, que nos deixou há um ano, criamos a Flup com o intuito de ser um processo de formação e já publicamos mais de 200 autores, entre eles, o Geovani Martins, cujo livro de estreia foi lançado em 20 países. Também lançamos Raquel Oliveira, uma ex-traficante da Rocinha, e seu romance de estreia está sendo adaptado para o cinema pela Globo Filmes. Além de termos lançados a primeira antologia de dramaturgia negra no Brasil. Enfim, o nosso principal negócio é descobrir, potencializar e publicar novos autores da periferia", explicou.
Para quem pensa que a presença de escritores de São Gonçalo, cidade com mais de um milhão de habitantes, é recente na Flup, está enganado. Pois a iniciativa além de contar com esses autores também teve a sua ideia concebida em território gonçalense.
"A Flup praticamente começou, em São Gonçalo, quando estive presente no maravilhoso sarau organizado pelo Rodrigo Santos e Romulo Narducci, entre 2010 e 11. E um dos primeiros grupos que a gente visitou para criar parceria para estes processos de formação foi justamente em S.Gonçalo. Inclusive, a primeira edição do livro 'Macumba' de Rodrigo Santos, foi um dos tantos livros que nós publicamos. E nós ainda estamos descobrindo diversas outras pessoas de São Gonçalo", contou Julio que também opinou sobre dois autores gonçalenses que constam em 'Contos para depois do ódio'.
"Destaco o Augusto Dias, que deve estar entre os 50 e 60 anos, e escreveu o conto 'O homem amarelo', que é uma obra prima e um dos pontos altos deste livro. Ele é um escritor que tem muita leitura e traz um grande nível de sofisticação. O que não o coloca entre os grandes da escritores da contemporaneidade é porque ele é um professor de S.Gonçalo. O problema dele é tão somente 'rede' (de contatos). Outro ótimo conto foi o do Romulo Narducci, que está na faixa etária dos 40 anos, tem um sotaque próprio e namora com várias vertentes da literatura. Ele dialoga com beatniks mais sofisticados como Allen Ginsberg mas também tem uma influência de Charles Bukowski. No entanto, Romulo, tem o mesmo problema do Augusto, a questão de 'redes'. Enfim, a cena de São Gonçalo é muito poderosa e a gente acompanha desde o nascedouro da Flup", dissertou."
Para 2021, já há um novo projeto a ser lançado pela Flup. Desta vez, a antologia será em tributo à escritora Carolina Maria de Jesus, e para este trabalho, mulheres de diversas partes do Brasil irão participar.
"Neste momento, nós estamos trabalhando com 240 mulheres de todo o Brasil e reescrevendo Carolina Maria de Jesus, o seu livro 'Quarto de Despejo' completou 60 anos em 2020. E nossa homenagem a ela, é chamar mulheres de todo o país, tirando proveito que esta era online nos permite falar com o mundo todo. O único problema no diálogo é a compreensão da língua, desde que as pessoas compreendam o idioma e tenham acesso a internet, podemos estar em diálogo. E no próximo ano, vamos lançar 'novas' Carolinas Maria de Jesus. Nós estamos na reta final deste processo e vamos selecionar os melhores trabalhos realizados em nossa oficina de formação", finalizou Julio.
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