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Samba também é pop? Novas versões de samba e pagode em alta nas redes sociais e nas rádios

Entre feats improváveis, regravações e recordes no streaming, samba e pagode atravessam gêneros, rompem bolhas e reafirmam seu lugar no centro da música brasileira

relogio min de leitura | Escrito por Aretha Dossares com edição de Cyntia Fonseca | 21 de janeiro de 2026 - 10:04
Símbolo incontornável da identidade cultural brasileira, o samba, e suas vertentes mais populares, como o pagode, demonstra uma capacidade histórica de atravessar fronteiras musicais
Símbolo incontornável da identidade cultural brasileira, o samba, e suas vertentes mais populares, como o pagode, demonstra uma capacidade histórica de atravessar fronteiras musicais -

Se antes o samba parecia pedir licença para circular pelas vitrines do mercado musical, hoje ele entra de peito aberto, sem bater à porta e sem abaixar o volume. De chinelo ou de tênis, com cavaquinho, tantã ou beat eletrônico, o gênero que nasceu nos quintais, terreiros e rodas de bairro ocupa playlists, festivais e rankings de streaming como quem sempre soube que aquele espaço também lhe pertencia. A pergunta já não é se o samba pode ser pop, mas quantas formas ele encontra para continuar sendo samba enquanto dialoga com tudo ao redor.


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Símbolo incontornável da identidade cultural brasileira, o samba e suas vertentes mais populares como o pagode, demonstra uma capacidade histórica de atravessar fronteiras musicais. Após a abolição da escravidão, nas periferias do Rio de Janeiro, o pagode se consolidou como sinônimo de encontros informais regados a comida, bebida e música, os famosos “fundos de quintal”. Essas rodas de samba, marcadas pela coletividade e pela oralidade, ajudaram a moldar um gênero que sempre soube se adaptar ao tempo sem perder suas raízes.

Longe de permanecer restrito às rodas tradicionais, o samba passou a ocupar o centro do mercado fonográfico ao se misturar com estilos como pop, sertanejo, funk e música eletrônica, ampliando públicos e reafirmando sua relevância no cenário contemporâneo. Esse movimento se intensificou nos últimos anos com a consolidação das plataformas de streaming, que diluíram barreiras entre gêneros e aproximaram audiências historicamente separadas.

Essa capacidade de diálogo não é vista como descaracterização por quem vive o samba de dentro. Em entrevista a O SÃO GONÇALO, o cantor e compositor Dinho da Luz destacou que a regravação do samba em outros gêneros é um processo natural da própria história do estilo. “Pra mim é natural. O samba sempre conversou com tudo ao redor. Quando outros gêneros regravam samba, é respeito e reconhecimento. A raiz continua ali, só muda a roupa”, afirma.

o cantor e compositor Dinho da Luz destacou que a regravação do samba em outros gêneros é um processo natural da própria história do estilo.
o cantor e compositor Dinho da Luz destacou que a regravação do samba em outros gêneros é um processo natural da própria história do estilo. |  Foto: Divulgação

Nesse novo ecossistema musical, samba e pagode passaram a circular com naturalidade por territórios diversos, criando uma trilha sonora híbrida, atual e altamente popular, sem abrir mão da identidade que os consagrou. Um dos exemplos mais emblemáticos desse cruzamento é o do grupo Menos é Mais. Referência do pagode contemporâneo, o grupo protagonizou um marco inédito em 2025 ao emplacar “P do Pecado”, parceria com a cantora sertaneja Simone Mendes, como a música mais ouvida do Brasil no ranking geral de streaming. O feito encerrou uma hegemonia de sete anos do sertanejo no topo das paradas, com um detalhe simbólico: não foi uma canção sertaneja que liderou o país, mas um pagode que soube dialogar com outro gênero sem abrir mão de sua essência.

O fenômeno não é isolado. Thiaguinho, um dos nomes mais populares do pagode nas últimas décadas, construiu uma carreira baseada em pontes musicais. Parcerias com L7NNON, Michel Teló e Gloria Groove, além do sucesso do projeto Tardezinha, transformaram clássicos do pagode em trilha sonora de grandes celebrações populares, reafirmando o gênero como linguagem coletiva e afetiva.

Grupos como Sorriso Maroto e Atitude 67 também ilustram esse movimento. Enquanto o primeiro flerta com o pop romântico em suas produções, ampliando seu alcance radiofônico, o segundo incorpora influências do pop, do reggae e da música eletrônica, criando um som que transita com naturalidade entre rádios comerciais, palcos de festivais e playlists digitais.

Do outro lado da ponte, artistas sertanejos encontraram no samba e no pagode uma fonte recorrente de diálogo e reinvenção. Marília Mendonça regravou sucessos do gênero em apresentações ao vivo, assim como Maiara & Maraisa, Zé Neto & Cristiano e Simone Mendes, que frequentemente incluem sambas e pagodes em DVDs, projetos acústicos e shows especiais. Em movimento inverso, grupos de samba e pagode também reinterpretam canções sertanejas com percussão, cavaquinho e coro, ressignificando repertórios já consagrados.

Para Dinho da Luz, esse trânsito entre gêneros também tem um impacto direto na formação de novos ouvintes. Questionado pelo O São Gonçalo se as regravações em outros ritmos ajudam a aproximar pessoas que antes não consumiam samba, ele é direto: “Com certeza. A música é porta de entrada. Às vezes a pessoa se apaixona primeiro pelo ritmo que já conhece e, quando percebe, já está gostando do samba também. A partir daí ela vai atrás da origem, da letra, da história. O samba ganha novos ouvintes sem perder quem sempre esteve ali”.

O pop e a música urbana também entram nessa roda. Ludmilla faz do pagode uma extensão natural de sua identidade artística, transitando com fluidez entre R&B, pop e samba. Anitta, em diferentes fases da carreira, incorporou elementos do samba e da percussão brasileira em produções voltadas ao mercado pop. Já Seu Jorge permanece como exemplo clássico de artista que atravessa gêneros, levando o samba a diálogos com a MPB, o pop e a música internacional.

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