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Papais Noéis: conheça os profissionais que fazem a alegria das crianças no Natal

Idosos se reinventaram e encontraram nova profissão na fantasia natalina

relogio min de leitura | Escrito por Felipe Galeno | 21 de dezembro de 2023 - 10:00
Personagem natalino é figura frequente em eventos locais e comerciais no fim de ano
Personagem natalino é figura frequente em eventos locais e comerciais no fim de ano -

Mesmo em um país sem neve, renas e com bem poucas chaminés, a figura do Papai Noel é bastante popular no Brasil. As décadas de globalização cultural tornaram o personagem natalino uma parte fundamental da tradição de fim de ano por aqui também e, por isso, é bem comum vê-lo não só nas decorações festivas de casas e estabelecimentos comerciais, como também em “carne e osso” nas praças e shoppings, recebendo o carinho e os pedidos de crianças de todas as idades.

Por conta disso, a demanda de interessados em vestir gorro, barba e toda a aura de encantamento infantil que compõem o personagem costuma ser grande nos últimos meses do ano ao redor do país. Para alguns brasileiros - em sua maioria, os que já estão na terceira idade - vestir a fantasia e tirar retrato com multidões de criança é uma oportunidade de trabalho, uma chance de transformar a tradição natalina em uma graninha extra para a reta final do ano.


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Na maior parte dos casos, porém, é o carinho pelos pequenos que acaba sendo o motor para se transformar em Papai Noel de vez. É o caso do gonçalense Cláudio Rodrigues Pereira, de 66 anos, que é, atualmente, Papai Noel do Partage Shopping, em São Gonçalo. Depois de anos trabalhando como corretor de imóveis, ele decidiu aproveitar a terceira idade para dar uma guinada natalina na carreira.

“Eu comecei fazendo curso na Escola do Papai Noel, no Centro do Rio. Eu sempre tive essa intenção e, de uns dois anos para cá, acabei localizando essa escola”, explica o morador do Porto do Rosa. A Escola é a principal referência na inusitada formação; foi a primeira do tipo, fundada em 1993 em Vila Isabel, pelos atores Limachem Cherem e Conrado Freitas.

Morador do Porto do Rosa, Cláudio fez curso para trabalhar como Papai Noel
Morador do Porto do Rosa, Cláudio fez curso para trabalhar como Papai Noel |  Foto: Divulgação/Partage Shopping SG

Foi por lá que o gonçalense aprendeu as dicas para convencer como o velhinho do Polo Norte e a trabalhar sua desenvoltura para conseguir responder aos pedidos nada simples dos pequenos. Alguns são inusitados, como conta Cláudio: “Teve um que me disse que queria ir na Lua, para eu ajudá-lo a ir na Lua. Perguntou se dava para eu montar umas escadas. Esse aí foi difícil”.

Enquanto em alguns desejos é preciso segurar o riso, em outros o desafio é não deixar as lágrimas caírem diante das crianças. “Já teve criança aqui no Partage que me perguntou se eu poderia trazer o pai dele de volta, que já faleceu”, explica o Papai Noel de São Gonçalo. Em todo caso, quem faz o trabalho valer a pena são sempre os pequenos. “A hora mais difícil do trabalho é quando acaba o Natal, porque tenho que me distanciar dos pequeninos que amo tanto”, revela Cláudio.

“A hora mais difícil do trabalho é quando acaba o Natal, porque tenho que me distanciar dos pequeninos", conta Papai Noel gonçalense
“A hora mais difícil do trabalho é quando acaba o Natal, porque tenho que me distanciar dos pequeninos", conta Papai Noel gonçalense |  Foto: Divulgação/Partage Shopping SG

Alguns se apaixonam tanto pela profissão que seguem encontrando jeitos de seguir no cargo mesmo em anos mais adversos. É o caso de Valmir Ramos Galante, de 55 anos. O morador de Vila Isabel, no Rio - que trabalhou por muitos anos em São Gonçalo e já faz trabalhos como Papai Noel há duas décadas - aceitou a missão de ser o Noel oficial do não tão próximo município de Itaguaí apenas alguns meses após precisar amputar metade de uma das pernas.

“Eu não esperava que já iria fazer o Papai Noel de novo esse ano, com tudo o que aconteceu”, explica o ex-inspetor de alunos, que começou sua jornada natalina em 2003, por acaso. Na época, ele trabalhava na portaria de uma escola com tradição de festejos de Natal. Nesse ano, o morador da região que costumava participar das festas não pôde comparecer e Valmir acabou, no improviso, indo parar na fantasia para brincar com as crianças.

“Eu fui pego de surpresa, mas gostei muito. Passei a fazer todos os anos lá na escola. Depois quis fazer uma roupa de Papai Noel para mim, contratei uma costureira, arrumei uma barba postiça pois ainda não tinha a barba natural e fui fazendo. Sempre fiz trabalho por voluntariado; fiz muito Papai Noel em abrigos, em creches, nas ruas em carro aberto dando brinquedo para as crianças”, narra Valmir.

Valmir começou como Papai Noel substituto em escola há 20 anos
Valmir começou como Papai Noel substituto em escola há 20 anos |  Foto: Divulgação/Prefeitura de Itaguaí

Ao longo desses anos, ele acabou se tornando uma figura conhecida na comunidade onde morava. Para cada data comemorativa, uma fantasia e uma ação solidária na região. A mais aguardada, porém, sempre foi o Natal. “Meu sonho era fazer o curso e me formar oficialmente Papai Noel. Acabava nunca conseguindo porque minha idade era inválida, mas sempre fiz na comunidade”, ele explica.

Ele chegou a conseguir uma vaga no curso em 2019, graças a uma promoção da SuperVia. A formação só consolidou sua vocação para a função, que continuou exercendo até ser pego de surpresa há alguns meses. Valmir teve a vida transformada por uma doença bacteriana descoberta nos dedos do pé há alguns meses. O quadro avançou de maneira tão veloz que, em menos de um mês, ele foi de uma amputação dos dedos a uma amputação de parte da perna, com um corte a 5 cm acima do joelho.

Além de todo o processo de reeducação e adaptação à prótese, o problema mudou drasticamente suas fontes de renda. “Com a minha amputação, eu fiquei muito descapitalizado. Sempre trabalhei em dois lugares: eu era inspetor de alunos e segurança patrimonial. Depois de amputado, passei a sobreviver com um auxílio doença, de um salário mínimo”, lamenta.

Mesmo após passar por amputação, morador de Vila Isabel conseguiu continua na pele do personagem natalino em 2023
Mesmo após passar por amputação, morador de Vila Isabel conseguiu continua na pele do personagem natalino em 2023 |  Foto: Divulgação/Prefeitura de Itaguaí

Como um milagre natalino, no entanto, sua vocação para Noel o ajudou mais uma vez nessa reta final do ano. “Eu imaginei que esse ano meu trabalho de Papai Noel, se acontecesse, seria limitado a no máximo alguma coisa rápida na minha comunidade. Amputado, não achei que fosse ter trabalho para mim. Aí pintou esse trabalho em Itaguaí. Expliquei que estou amputado, mas não teve problema. Faço minha chegada com um andador decorado de Natal e fico no trono até o final do horário”, detalha.

Até agora, o trabalho em Itaguaí tem sido um sucesso. “Estamos com muito movimento por lá. A procura é muito grande, acho que devido à retomada depois da pandemia. As comunidades estão aproveitando de novo essa essência do Natal. As crianças adoram e a gente acaba tirando foto também com mãe, pai, madrinha, tio, até com cachorro, coelho”, revela Valmir.

O contato entre os pets e o bom velhinho, inclusive, parece estar na moda, conforme conta um outro profissional especializado no trabalho como Noel, o Mário José Dominguez, de 66 anos. No Natal de 2022, ele trabalhou em um shopping ‘pet friendly’ na Zona Norte do Rio e acabou ganhando, entre uma criança e outra, uma visita inusitada.

Papai Noel há sete anos, seu Mário é apaixonado pela profissão
Papai Noel há sete anos, seu Mário é apaixonado pela profissão |  Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

“Lá no shopping também podia tirar foto do pet com o Papai Noel. Um dia, foi uma senhora com uma porca de estimação, grandona. Ela chegou e me perguntou: 'você pode tirar uma foto com a minha porquinha?'. E a porca ficou lá, sentadinha. Ela me deu um pouco de pipoca para ir jogando para a porca. Quando eu parei de jogar, ela quis me dar uns empurrões com a cabeça e tudo”, conta, rindo, o aposentado, que se descobriu Papai Noel há sete anos, após encerrar uma longa carreira como engenheiro mecânico.

Neste ano, seu Mário foi parar em Macaé, onde recebeu a chave simbólica da cidade fantasiado como o alter-ego natalino. Mesmo depois de passar seus dezembros em dezenas de centros comerciais e cidades diferentes, ele afirma que ver a magia do Natal de perto é tão divertido que, assim como os outros Papais Noéis, não se vê cansando de fazer o personagem tão cedo.

Atualmente em Macaé, aposentado já passou por diferentes cidades e shoppings como Papai Noel
Atualmente em Macaé, aposentado já passou por diferentes cidades e shoppings como Papai Noel |  Foto: Divulgação/Prefeitura de Macaé

“Você se diverte tanto que não tem como não gostar. É muito legal ver a alegria das crianças. Eles são muito sinceros. Tem muita criança interessante que passa pela gente. E tem dias que são muito felizes. Esses dias mesmo apareceu um menino que chegou escondido, furou a fila. Disse que nunca tinha tirado foto com o Papai Noel porque não tinha dinheiro para pagar. Aí falamos que lá não precisava pagar e ele tirou a foto. Depois a mãe do menino chegou, perguntou por ele, falou lá na nossa frente: 'Meu filho, a gente não tem dinheiro para fazer foto com Papai Noel!'. E ele todo feliz contando para ela que pôde tirar. Foi muito legal”, compartilha Mário.

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