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Pesquisadores analisam eficácia da cloroquina no combate ao coronavírus

O estudo é realizado no Hospital Delphina Aziz, em Manaus

relogio min de leitura | Escrito por Redação | 15 de abril de 2020 - 13:34
Doses altas de 600 miligramas duas vezes ao dia durante dez dias demonstraram resultados agressivos, causando até mesmo morte
Doses altas de 600 miligramas duas vezes ao dia durante dez dias demonstraram resultados agressivos, causando até mesmo morte -

Pesquisadores da Fundação de Medicina Tropical e da Universidade Estadual do Amazonas iniciaram um estudo para analisar a eficácia da aplicação de cloroquina como forma de tratamento da covid-19. Os resultados preliminares apontaram riscos à vida dos pacientes que receberam altas doses da substância.

Os pesquisadores analisam o emprego de cloroquina em 81 pacientes em estado grave. A investigação envolveu a identificação das doses mais adequadas. No estudo, os pesquisadores viram que a aplicação de doses mais altas (600 miligramas) duas vezes ao dia por dez dias teve um efeito agressivo e gerou efeitos colaterais, como arritmia cardíaca ou até mesmo a morte.

O estudo é realizado no Hospital Delphina Aziz, em Manaus. Ao todo, 60 cientistas estão envolvidos na pesquisa, que conta com bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e recebe apoio da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas (FAPEAM).

Diante dos riscos e de parte dos pacientes testados ter vindo a óbito, o braço da pesquisa que trabalhava com altas dosagens foi interrompido pelo Comitê de Monitoramento de Dados e Segurança, órgão externo e independente.

"Há enorme pressão para utilizar cloroquina no tratamento de covid-19. Os resultados apresentados servem como um alerta, oferecendo evidências mais robustas para protocolos de tratamento de covid-19", diz o investigador principal do estudo, Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda, pesquisador da Fiocruz Amazônia.

Doses menores

Já o tratamento com doses menores (450 miligramas duas vezes no primeiro dia e uma vez ao dia por quatro dias) teve melhor aceitação dos organismos dos pacientes submetidos ao exame. Contudo, ao avaliar se o vírus havia sido eliminado no quinto dia, a pesquisa constatou a permanência do coronavírus, o que não permite assegurar, até o momento, a eficácia do tratamento utilizando o medicamento.

Segundo os pesquisadores, é preciso realizar mais testes para aferir se a cloroquina tem de fato alguma eficácia no tratamento de pacientes com a covid-19 em decorrência da infecção com o novo coronavírus.

Além deste estudo, outro está sendo conduzido por um grupo de hospitais, como o Albert Einstein, o Hospital do Coração, Oswaldo Cruz e Sírio-Libanês, em uma rede que se autodenominou Coalizão CovidBrasil. No total, há nove ensaios clínicos avaliando não somente a cloroquina, mas formas diversas de tratamento contra a covid-19.

Recomendações

O presidente Jair Bolsonaro tem defendindo o uso da cloroquina como tratamento para a covid-19. O Ministério da Saúde incluiu em seus protocolos a sugestão de aplicação em pacientes com gravidade média e alta, mas mantendo a norma corrente na medicina de que cabe ao médico a decisão sobre prescrever ou não a substância ao paciente.

No guia de diagnóstico e tratamento publicado nesta semana pelo Ministério da Saúde, a pasta afirma que não há consenso entre as pesquisas acerca da eficácia da cloroquina.

Em entrevista coletiva na semana passada, o ministro Luiz Henrique Mandetta acrescentou duas ponderações sobre a adoção desse recurso. A primeira é o fato de diversos pacientes chegarem com sintomas de gripe e levar tempo até a confirmação da infecção pelo novo coronavírus.

A segunda é que 85% dos infectados se curam com tratamento normal para síndrome gripal, com outros medicamentos. “Será que seria inteligente dar remédio para 85% das pessoas que não precisam dele e tem efeitos colaterais?”, questionou.

Ele acrescentou que a definição sobre uma recomendação de aplicação da cloroquina será feita pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) a partir da análise das pesquisas. Em sua última posição sobre o tema, de 20 de março, o CFM ressaltou que não há comprovação da eficácia da cloroquina.

Em nota divulgada na quinta-feira (9), a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ABAI) destacou que os estudos envolvendo a cloroquina ainda são incertos. Embora a droga tenha um efeito conhecido no tratamento da malária e de outras doenças autoimunes, como lúpus, há receios no tocante à covid-19 por conta das gravidades nas manifestações cardíacas.

“Enquanto aguardamos a emergência de novos ensaios clínicos randomizados multicêntricos  para  avaliar  os  benefícios  da  contribuição de cloroquina / hidroxicloroquina no tratamento do COVID-19, e em função do exposto acima, esses medicamentos não devem ser prescritos de modo generalizado  e  indiscriminado  nos  casos  leves  e ambulatoriais  da  doença.  Por  outro  lado,  podem ser  prescritos  com  extrema  cautela  e  em  condições clínicas específicas da COVID-19”, defende a ABAI.

Na semana passada, a prefeitura de São Paulo anunciou que a Secretaria Municipal da Saúde vai incluir a cloroquina como uma das formas de tratamento para o coronavírus nos hospitais municipais. No entanto, lembrou que o uso da substância só é autorizado para pacientes internados, quando houver prescrição do médico e desde que o uso seja autorizado formalmente pelo paciente ou por sua família.

(Agência Brasil)

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