Em busca de uma nova vida
Justiça determina liberdade de morador de SG preso por causa de apelido igual ao de traficante

Jorge Roberto Dales sofreu os ‘horrores’ do cárcere durante 205 dias
Foto: Luiz NicolellaPor Renata Sena e Matheus Merlim
205 dias privado da liberdade. Quase sete meses convivendo com o peso de uma acusação e pagando por um crime que não cometeu. Essas são as últimas memórias do operador de guincho Jorge Roberto Dalles, de 35 anos, preso no dia 27 de fevereiro durante uma operação da Divisão de Homicídio de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNISG).
Acusado de cometer um homicídio, Gordo Sujo, - como é conhecido desde a infância, no bairro Gradim, em São Gonçalo, onde mora até hoje-, recebeu o Alvará de Soltura no dia 18 de setembro, quando, durante uma audiência, a defensoria pública conseguiu provar que Jorge estava preso no lugar de um traficante da Ilha da Conceição, em Niterói, que também é conhecido pelo mesmo apelido. Com isso, ele recebeu a liberdade e aponta erros na investigação da DHNISG.
Conforme Jorge foi recordando, ele narrou o dia em que tudo mudou. “Eu estava no trabalho e minha mulher ligou para dizer que os policiais estavam aqui em casa falando que eu estava devendo pensão alimentícia. Estranhei, já que meus dois filhos moram comigo. Corri para casa, mas descobri que eles procuravam por um Gordo Sujo, mas o nome verdadeiro não era igual ao meu. Apesar disso, eu iria à delegacia, só que não deu tempo. Os policiais voltaram na minha casa e me levaram para a DH. Aí, minha vida começou a desmoronar”, contou.
Jorge foi preso acusado de um homicídio envolvendo o “bonde do Schumaker”, apontado como ‘chefe’ do tráfico de drogas no Jardim Catarina. No dia da prisão, o gonçalense trabalhava em uma obra em Charitas, pela empresa de construção civil, Dorex, de onde acabou demitido logo depois de ser inocentado do caso.
Segundo “Gordo Sujo”, o erro da Polícia foi justamente quanto ao seu apelido. Por já ter se envolvido em brigas de torcidas no passado, ele tinha passagem nos registros policiais. O engano entre ele e um traficante de Niterói, que possui o mesmo codinome, culminou em sua prisão.
Conforme o delegado Fábio Barucke, diretor da especializada, a prisão não ocorreu somente por causa do apelido. “Duas pessoas vieram até a delegacia e apontaram o Jorge como autor do crime. Houve reconhecimento. No entanto, essas pessoas não foram localizadas para prestarem depoimento em juízo, com isso, as provas não foram suficientes e a justiça entendeu como um erro de investigação”, esclareceu o delegado, que na época, não estava na especializada.
Fabio destacou ainda que, atualmente exige mais cuidado na qualificação de testemunhas para que todas sejam localizadas para prestarem depoimentos em juízo. “Tudo que é falado aqui na delegacia, precisa ser repetido na frente do juiz. Quando isso não ocorre, a polícia enfrenta dificuldades”, finalizou Barucke.
Prisão - Jorge ficou 64 dias sob custódia em Bangu 10, no Complexo Penitenciário de Gericinó, logo depois foi transferido para a Cadeia Pública Juíza Patrícia Acioli, em Guaxindiba, onde passou outros 141 dias. Vivendo de sonhos, Jorge, que dividia um cela superlotada, acreditava que uma hora a verdade ia ser provada. “Nunca perdi a fé. Eu não cometi crime algum e sabia que uma hora alguém ia acreditar nisso”, contou ele.
Mas os dias não foram fáceis. Casado há pouco mais de dois anos, Jorge é pai de um menino, de 12 anos, e uma menina de 1 ano e 2 meses. Único provedor da família, ao ser preso precisou da ajuda dos amigos para manter o sustento da casa. “Sempre fui pobre, humilde. Quando novo, cheguei a dividir um ovo para quatro pessoas. Mas com todas as dificuldades, minha mãe sempre me ensinou a trabalhar”, disse.
Apesar de dizer que não perdeu a fé, Jorge não nega ter sentido medo, no início. “Hoje eu entendo que isso foi um propósito de Deus. Eu passei por tudo isso para hoje colocar Deus na frente de tudo. Com todos os erros, eu posso dizer que dei sorte. Via coisas horríveis, que nunca aconteceu comigo. Nunca apanhei na cadeia, por exemplo”, explicou.
Mas, essa certeza de liberdade não era unânime dentro da família de Jorge. Mesmo sem duvidar da inocência do marido, a jovem de 19 anos, que teve nome preservado, chegou a ter medo do futuro. “Só ele trabalhava. Nosso filho pequeno e eu agi tudo. Ia para fórum, para as visitas. Nunca o abandonei, sofri junto. Mas tive medo de armarem alguma coisa”, disse com lágrimas nos olhos ao pensar no tempo que estiveram separados. “Ele sempre foi um ótimo pai e marido. Preso, não pode ver os primeiros passos da nossa filha. Não esteve no aniversário de um ano dela, nem do menino”, contou emocionada.
Mas, no último dia 21, chegou a tão sonhada liberdade. Porém, junto com ela, veio o desemprego e a tentativa de recomeçar a vida. “Não tenho raiva de ninguém. Só não quero que outros inocentes passem pelo que passei”, finalizou o jovem, que pretende processar o Estado.
'Gordo Sujo' desde criança
“Apelido a gente não escolhe. Desde acriança, me chamam de Gordo Sujo e eu não posso fazer nada por isso. Sempre fui gordo e, quando criança, o Gradim estava em construção, eu tomava banho, voltava para a rua e em poucos minutos, estava sujo de novo. Gordo Sujo para lá, Gordo Sujo para cá, e ficou. Nunca pensei que um apelido fosse mudar minha vida”, lamentou Jorge, que viu sua vida mudar em poucos minutos.
Lembranças do cárcere
Na tarde de quarta-feira, durante uma entrevista exclusiva para o OSG, Jorge a esposa e a filha foram até a porta do presídio. A chegada da família, por coincidência, foi na hora que terminava a visita na unidade. Entre as lembranças do tempo que viveu ali dentro, Jorge era interrompido por parentes de presos, que o abraçavam, desejavam sorte e comemoravam pela sua liberdade.
Carinho esse que se estende pelas ruas do Gradim, onde sempre morou. Entre uma esquina e outra, Gordo Sujo cumprimentava alguém.