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Após 28 dias de cárcere, gonçalense que teria sido presa injustamente ganha liberdade

Jovem foi presa após o irmão assaltar um motorista de aplicativo

relogio min de leitura | Escrito por Redação | 09 de dezembro de 2020 - 11:00
Camila é mãe de duas meninas: uma de 3 anos e outra de 1 ano
Camila é mãe de duas meninas: uma de 3 anos e outra de 1 ano -

Por Ana Carolina Moraes*

"Eu posso dizer para você que foram os piores dias da minha vida. Fiquei sem notícias da minha família e das minhas filhas. Eu sabia que o cuidado delas dependia de mim, porque eu tenho o meu marido, e ele cuida delas, mas ele não é mãe, nós sabemos que o carinho e cuidado de uma mãe é único. Elas ficaram 28 dias sem mim por algo que eu não fiz". Esse é o relato emocionado de Camila Melanes Roque, de 23 anos, mãe de duas meninas, uma de 3 e outra de 1 ano. Camila alega ter sido presa injustamente no dia 15 de outubro, em seu local de trabalho, por um crime que não cometeu. Apesar de ter sido solta em liberdade provisória no dia 12 de novembro, os traumas da prisão marcam a luta diária de Camila. 

Ao todo, o jovem ficou presa por 28 dias em três presídios: no Instituto Penal Ismael Pereira Sirieiro (no Fonseca); na Casa de Custória de Benfica (em Benfica); e no Instituto Penal Santo Expedito (em Bangu). Camila foi acusada de ser a cúmplice de um assalto com o uso de armas cometido por seu irmão, Jonatas Reis Roque, no entanto, no momento do roubo, Camila estava com sua filha no pediatra. A jovem teria sido confundida com sua prima, que estava com Jonatas. No entanto, a prima também não estava envolvida no roubo, que foi executado por Jonatas sozinho, como alega a família.

"Eu juntei todas as testemunhas e provas que podia. No dia, eu estava no pediatra com minha filha. Consegui com que ele e a secretária servissem de testemunha, meu chefe também prestou depoimento a meu favor, já que trabalho há quatro anos no mesmo local e nunca tive nenhuma queixa, além de ter conseguido imagens das câmeras de segurança do pediatra e do atestado médico dele para minha filha. No entanto, mesmo com isso, a justiça alegou que não dava para me ver bem na câmera de segurança para comprovar se era eu, que a imagem estava ruim, mas na hora de fazer com que a vítima fosse realizar o meu reconhecimento por foto na delegacia com uma imagem de 4 anos atrás, aí a imagem estava boa", desabafou a balconista.

Atualmente, ela segue  trabalhando e seu chefe foi um dos que prestou depoimento a favor da jovem
Atualmente, ela segue trabalhando e seu chefe foi um dos que prestou depoimento a favor da jovem |  Foto: Arquivo pessoal
 

Jonatas assaltou um motorista de aplicativo no início de janeiro de 2020, após deixar a casa de sua esposa. No momento do assalto, Jonatas estava no Salgueiro, onde morava sua mãe, sua irmã e uma parte de sua família. Ele acabou ligando para sua prima pedindo que ela fosse até o carro pegar uma bolsa de roupas com ele. Quando  a prima chegou no veículo, Jonatas anunciou o assalto. No depoimento para a delegacia após o crime, o motorista assaltado afirmou que foi a irmã de Jonatas que estava com ele no momento do crime e que teria levado a arma que ele usou no roubo, mas, Camila estava com sua filha no pediatra. A mãe de 23 anos foi confundida com prima, que realmente presenciou o crime, mesmo sem ter ajudado ou sido cúmplice. Segundo a família, ela não sabia que o primo iria cometer o crime e não levou arma nenhuma para ajudá-lo, pelo contrário, foi Jonatas quem escondeu o armamento no banco do carro do motorista durante toda a viagem até anunciar o assalto.

Camila afirma que o tempo na prisão realmente a mudou como pessoa e deixou marcas psicológicas irreparáveis. "Eu tenho pesadelos com aquele lugar até hoje. Lá não é bom para ninguém. A comida é podre, eu vivia a base de pão e água. Não te tratam como um ser humano naquele local, esquecem que somos pessoas, lá é como se fôssemos animais. Não tem nada de bom que se possa tirar dessa experiência. Eu consegui minha liberdade por ter duas filhas menores de 14 anos para criar, é meu direito como mãe. Hoje, eu ensino para elas que devemos confiar que a justiça será feita, mas que nem sempre ela é, pois eu fui presa mesmo com provas que alegavam a minha inocência", disse a mãe de família emocionada.

Sobre o momento mais triste do cárcere, Camila afirma que foi ficar longe de suas filhas. "Tem vídeos delas me esperando no portão. Quando o portão daqui batia para fechar, elas achavam e ficavam falando que era eu. Me doeu muito, pois sempre tentei ser o exemplo para as minhas meninas, mas, mesmo assim, fui presa por algo que não cometi", disse a mãe das crianças. 

Hoje, Camila precisa ir todo mês assinar um papel no Fórum . "Se eu não fizer isso, eu serei procurada pela polícia e posso ser presa novamente, mesmo com todas as provas que dizem que eu sou inocente", disse ela.

Camila espera que tudo se resolva na próxima audiência do caso e que ela finalmente possa viver sua liberdade sem medo. "Na última audiência do dia 19 de novembro, a vítima (o motorista) não compareceu. Com isso, o processo continua correndo. Eu imagino que ele tenha medo, eu também tenho, mas só as minhas provas não são o suficiente para provar que sou inocente, ele me vendo lá pode me ajudar nisso. Sei que não cometi o crime, eu não precisava que a vítima estivesse lá para provar isso, mas nenhuma das minhas evidências do pediatra da minha filha foram suficientes, então, eu espero que tudo se resolva no dia 17 de dezembro, na próxima audiência, quando espero que a vítima apareça", disse a jovem de 23 anos.

Confira a matéria anterior sobre o caso: Após sequestro de motorista de aplicativo, jovem gonçalense é presa e família afirma sua inocência.

Em nota o Tribunal de Justiça do Rio informou que o pedido de revogação de prisão da acusada Camila não adentra no mérito da ação penal, o que somente se dará por encerramento da instrução criminal. Entretanto, foi acatado o pedido da defesa para a substituição da prisão preventiva por prisão domiciliar, visto que a ré possui filhos menores de 12 anos. 

“Aplico, contudo, à acusada Camila as medidas cautelares previstas no artigo 319, incisos I e IV do Código de Processo Penal, para determinar que a ré compareça em juízo bimestralmente até o dia cinco de cada mês para justificar suas atividades (exceto em janeiro, quando, em razão do recesso forense, poderá comparecer até o dia dez), bem como proibir que se ausente da Comarca onde reside, por mais de trinta dias, sem prévia autorização judicial. Determino, ainda que a acusada comunique nos autos toda e qualquer mudança de endereço. Advirto que o descumprimento das cautelares ora impostas poderão ensejar o restabelecimento da medida de prisão preventiva”. 

*Estagiária sob supervisão de Marcela Freitas 

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