‘Justiça para pobre é a morte. O que será dos meus netos?’

Diarista teve que abandonar a casa onde vivia com a família após o assassinato da filha, testemunha da ação de um grupo de extermínio que agia em São Gonçalo
Foto: Julio DinizPor Gustavo Carvalho
Às 2h10 do dia 3 de junho de 2014, nascia num hospital da Zona Oeste do Rio, Patrícia Victória Pereira Mascarenhas. Prematura de seis meses, ela lutou pela vida durante três dias, mas não resistiu, sem saber que seu nome era uma homenagem à juíza Patrícia Acioli, que concedeu à sua mãe, a dona de casa Miridian Pereira Mascarenhas, 30, uma oportunidade para mudar de vida.
Beneficiada pela juíza com o instituto da delação premiada, em 2010, Miridian deu informações cruciais sobre a atuação de um grupo de extermínio responsável pelo sequestro, extorsão e morte de suspeitos de envolvimento com o tráfico em São Gonçalo e Niterói. No último sábado, ela e o marido, o caseiro Carlos Davi da Silva, foram executados a tiros, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

Enquanto relembra o esforço da filha para largar as drogas, após os insistentes conselhos da magistrada durante as audiências no Fórum de São Gonçalo, a diarista X, de 54 anos, é interrompida pelo neto de apenas três anos: “Papai? Mamãe?”.
“É assim o tempo todo. Ele fica chamando pelos pais, mesmo eu explicando que eles foram morar no céu”, diz a mulher, em meio às lágrimas.
Na sala da casa de uma amiga - onde se refugiou temendo ser morta -, a diarista diz que tenta buscar forças nos três netos, de 3, 5 e 9 anos, todos filhos de Miridian.
“O Estado conseguiu o que precisava, mas tirou o meu bem maior. Depois do assassinato da juíza (Patrícia Acioli), minha filha não teve mais qualquer proteção ou ajuda do estado”, denunciou.
Num dos quartos do abrigo temporário, as crianças brincam ao lado das mudinhas de roupa que a avó conseguiu carregar, junto com alguns documentos, ao abandonar a casa própria, em Nova Iguaçu, quarto endereço da família nos últimos quatro.
“Minha filha não era para ter aberto a boca. Justiça para pobre é a morte. O que será de mim e dos meus netos?”, indagou.
Crime - Miridian foi executada com sete tiros junto com o marido, ao sair de casa para comprar cigarros, próximo à sua residência num bairro de Nova Iguaçu, controlado por milicianos. O caso está sendo investigado por agentes da Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense e já foi comunicado ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP.
Ela era a principal testemunha da ação de um grupo extermínio suspeito de envolvimento em pelo menos 20 mortes em São Gonçalo. Um dos crimes mais chocantes atribuídos ao grupo foi o assassinato de Dyego Virtuoso, o Bodinho, 26, ocorrido em agosto de 2010. Sequestrado em sua residência no Complexo do Salgueiro, o jovem foi submetido a três horas de sessão de tortura com direito a choques elétricos e sufocamentos com sacos plásticos. Os acusados exigiam R$ 15 mil para libertá-lo, mas as negociações com a família da vítima foram encerradas sem o pagamento do resgate. O corpo de Bodinho foi encontrado com marcas de tiros, no Gradim.
