Menos visitas às mulheres
Apenas 30% de detentas recebem familiares, segundo Secretaria de Administração Penitenciária

V., de 64 anos, conta que pediu a seus filhos e netos que não a visitem no presídio para poupá-los do constrangimento da revista
Foto: Alex RamosPor Renata Sena
Ao contrário dos presídios masculinos em que os dias de visitas parecem uma festa, as cadeias femininas têm um gosto amargo durante essas datas. No presídio feminino Talavera Bruce, no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, das 367 presas, somente 13 recebem os parceiros para visitas íntimas, sendo cinco companheiros em liberdade e oito presos em outras unidades prisionais, conforme dados da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária (Seap). Apenas cerca de 30% do total recebem visitas dos familiares em geral.
Esse abandono vivido por tantas mulheres dentro das cadeias do estado do Rio pode ter um componente de visão machista que ainda impera na sociedade brasileira, isto é, o homem é “perdoado” pela família; a mulher, não.
“A mulher, muitas vezes, é a pilastra da família. Quando ela erra e acaba presa, alguns integrantes da família não aceitam essa nova realidade. O abandono, em alguns casos, é visto como castigo. Em alguns casos, os familiares acreditam que abandonar a mulher servirá para ela aprender com o erro”, explicou a psicóloga Tânia Devillart.
A socióloga Edna Del Pomo de Araújo, especialista em sistema carcerário e coordenadora do Núcleo de Estudos de Criminologia e Direitos Humanos da UFF, reitera a questão de machismo.
“Nos presídios masculinos, as mulheres fazem fila, carregam compras, coisa que não acontece no feminino. Os homens, em alguns casos, têm vergonha e não querem passar pela humilhação da revista e tudo mais”, argumentou Edna.
Drama - Deixada pela família, V. A. S., de 64 anos, é uma das presas que tentam “explicar” a solidão. Com o rosto suave e o olhar acolhedor, ela poderia estar em qualquer roda de amigos em Petrópolis, na Região Serrana, onde morou toda a vida antes de ser presa. Mas, depois de quatro anos de reclusão, Vânia só consegue lembrar do último encontro em liberdade.
Conversando em um bar da cidade, V. foi surpreendida com a chegada da polícia, que encontrou em seu colo um pacote com, segundo ela, 26 gramas de pasta base de cocaína. A mulher, que diz ser de família influente na cidade, chegou a ser chamada de “vovó do pó”.
Mas a história começa a ficar confusa quando V. tenta lembrar de detalhes do momento da prisão. No início da conversa, ela alega que um jovem correu da polícia e jogou o pacote no colo dela. Minutos depois, a senhora afirma que segurou para receber uma quantia em dinheiro, mas alega não saber que era droga.
A história não muito bem explicada, no entanto, afetou a vida da mulher, que foi abandonada pelos familiares. Para diminuir o peso do esquecimento, V. afirma que pediu para que seus dois filhos e 11 netos não fossem ao local.
“É muita humilhação entrar aqui. Prefiro que minha família não passe pelo constrangimento de ser revistado. Deixa eu sofrer sozinha”.