Natal Azul: filhos de policiais mortos e feridos ganham festa de Natal
Estado do Rio tem mais de 10 mil órfãos de agentes de segurança pública

A enfermeira Suziane Ribeiro, de 41 anos, estava de plantão quando recebeu uma ligação do marido. Do outro lado da linha, o soldado Israel da Silva, então com 31 anos. Lotado no 12°BPM (Niterói), avisava à esposa que estava seguindo para uma operação no Morro Santo Cristo, no Fonseca, na Zona Norte da cidade.
"Só liguei para dizer que amo vocês", disse o policial, estendendo o carinho para o filho do casal, de apenas um ano de vida. Foi a última vez que Suziane ouviu a voz de Israel, morto em confronto com traficantes, um dia após o Natal de 2005. A data ficou marcada na vida da família, principalmente na do estudante Gabriel, hoje com 14 anos, que não teve a oportunidade de crescer ao lado do pai.
O adolescente engrossa uma triste - e assustadora - estatística negligenciada pelas autoridades. Atualmente, o Estado do Rio possui 5 mil órfãos de agentes de segurança pública, com idades entre 0 e 17 anos. Se contarmos os maiores de idade, esse número dobra.
Ao constatar que todo final de ano ocorrem campanhas chamando a atenção somente para orfanatos, creches e asilos, surgiu a ideia de também despertar a atenção para as crianças que convivem com a incerteza de verem seus pais voltando para casa depois de um dia de trabalho. Muitas delas já vivem essa triste realidade e não são lembradas nessa época do ano - nem no restante dele. Foi assim que nasceu o Natal Azul.
Há quatro anos a jornalista Roberta Trindade - que desde 2009 acompanha e divulga os casos de policiais mortos e baleados no Rio de Janeiro - organiza uma festa de Natal para as crianças que perderam seus pais por causa da escolha em ser policial. Esse ano, além dos órfãos, filhos de policiais que possuem alguma necessidade especial - como autistas - também vão participar.
Entre as crianças, uma tinha acabado de nascer e ainda estava com a mãe na maternidade, cinco tinham apenas 1 ano de vida e duas ainda estavam na barriga da mãe quando o pai foi assassinado, como o filho caçula do soldado Igor Dutra Fraga, 30 - que deixou um órfão de 7 anos e a esposa grávida de cinco meses.
Lotado no Batalhão de Polícia de Choque (BPChoque), ele foi morto ao ser identificado como policial durante um assalto no trecho Niterói-Manilha da BR-101, na altura do bairro Jardim Catarina, em São Gonçalo, em novembro de 2016.
Mais do que o valor do presente - escolhido por cada uma e comprado por voluntários que apadrinham/amadrinham cada criança -, o evento tem a intenção de levar um pouco de alegria e também manter viva a lembrança desses homens que deram suas vidas para garantir a segurança e a paz, abrindo mão da convivência com a família e da presença na vida de seus filhos.
A festa com a presença dos órfãos, viúvas e um Papai Noel voluntário que fará a entrega dos presentes para as crianças ocorre nesta sexta-feira, dia 20 de dezembro, na sede do Serviço Aeropolicial (SAER) da Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais (CORE) da Polícia Civil.
Haverá uma apresentação do Canil da CORE, um passeio de barco com visita à Árvore de Natal da Lagoa organizado por bombeiros e diversas atrações, como uma oficina de slime, atividades de recreação e uma apresentação do AfroReggae. Além de pipoca, algodão doce e salgadinhos, o chef Jimmy O Ogro estará presente com seu Food Truck oferecendo hambúrgueres para os órfãos.
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