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Sobrevivente da chacina diz não entender ataque a bar em São Gonçalo

Nesta terça, mais duas vítimas foram sepultadas

relogio min de leitura | Redação 29 de maio de 2019 - 09:59
Dezenas de sambistas da Porto da Pedra foram ao sepultamento do compositor ‘Waldir Papel’
Dezenas de sambistas da Porto da Pedra foram ao sepultamento do compositor ‘Waldir Papel’ -

Por Thuany Dossares e Alan Emiliano

“Eu fico feliz por estar vivo, mas você olha em volta e vê que parte de você se foi, parte da história de uma família, de uma base que me construiu. Alguns eram mais velhos que eu. Primeiro, eu aprendi a participar da vida deles, depois virei amigo deles. Éramos todos uma família, então parte de mim se foi. Eu tenho agora o dia 26 de maio como uma nova data de nascimento”. Esse é o relato emocionado do advogado Carlos Augusto Santos Molhano, de 46 anos, um dos sobreviventes da chacina do Campo da Brahma, no Porto Velho, em São Gonçalo, no último domingo.

Mesmo com um projétil alojado na bochecha, a vítima do atentado foi até o Cemitério São Gonçalo, na tarde de ontem, para se despedir da comerciante Janete Bezerra dos Santos Pinto, de 46 anos, e do compositor da escola de samba Porto da Pedra Waldir Pinto Oliveira Sobrinho, de 60 anos - amigos que foram mortos a tiros na ocasião.

Durante os velórios, Carlos Augusto contou que não tem conseguido dormir desde o domingo e que ainda não consegue entender o porquê fizeram isso. “A pergunta que eu me faço desde aquele momento é ‘por que?’. Tudo isso não tem explicação. Eu conhecia todo mundo que estava ali, só tinha morador, ninguém de fora. Todos de família que fazem e faziam o bairro ser um bom lugar. Ali vai criança, idoso. Não tenho dormido bem desde o que aconteceu”, desabafou.

O advogado participava daquele futebol há 20 anos e disse que, para ele, o grupo acabou. “Eu era criança e já existia esse grupo, estou com 46 anos. A gente fazia isso todo domingo. Em 15 segundos, a sua vida muda. Sobre os próximos domingos, para mim, acabou. Não vou mais conseguir sentar ali e não ver os meus amigos. Eu não quero mais. Minha vida foi pautada com aqueles amigos. Nunca achei que isso fosse acontecer comigo, ainda mais pelo grupo de amigos que estavam ali”, finalizou Carlos Augusto.

Comoção e revolta durante o enterro de comerciante

O primeiro sepultamento de ontem foi o da comerciante Janete Bezerra dos Santos Pinto, de 49, às 14h30. Cerca de 100 pessoas, entre amigos e familiares, foram até o Cemitério de São Gonçalo, no Camarão, em São Gonçalo, para se despedir dela.

Filho da vítima, Willian Santos, de 26 anos, se emocionou ao falar dela. “Minha mãe era uma pessoa ótima, que tirava a roupa do corpo se precisasse, para ajudar ao próximo. Tinha uma fé imensa nos ciganos, em Santa Sara. Ela era um tipo de pessoa que contagiava todo mundo. Naquele domingo ela estava linda, maravilhosa. Estava muito feliz, dançando com meu pai”, disse.

Num vídeo gravado momentos antes da chacina, Janete aparece alegre e sorridente, dançando a música “Enquanto houver saudades”, da sambista Alcione, junto com seu marido, o também comerciante Porsidonio Ribeiro Neto, 53 anos. Ele também foi atingido pelos disparos. Socorrido para o Pronto Socorro São Gonçalo (PSSG), Porsidonio recebeu alta médica durante a manhã de ontem e esteve presente no velório e sepultamento de sua esposa.

Emoção do ‘Tigre’ na despedida de sambista

“Meu samba, é por você que eu me embalo, o ‘Tigre’ é de São Gonçalo. Vermelho e branco até morrer. Bota pra ferver, Porto da Pedra, faz essa galera delirar”. O trecho do clássico Samba Exaltação da Unidos do Porto da Pedra foi o tom da despedida do ex-compositor da agremiação gonçalense, Waldir de Oliveira, 60 anos, conhecido como Waldir Papel, uma das quatro vítimas fatais da chacina do último domingo (25). Durante o sepultamento, realizado na tarde de ontem, no Cemitério de São Gonçalo, um surdo da bateria foi tocado por um integrante da escola.

Cerca de 200 pessoas participam da despedida do compositor, que foi marcada pela presença de membros da família, amigos e parte da comunidade da escola de samba. No próximo domingo (2), um abraço simbólico será realizado por integrantes da agremiação e moradores do bairro, a partir das 9h, no Campo da Brahma, local da chacina. Segundo o presidente da escola, Fábio Montibelo, a iniciativa tem como objetivo cobrar que o caso seja investigado.

“Infelizmente, quem estivesse ali na hora, iria morrer. O Waldir era uma pessoa muito querida por todos da comunidade, frequentava os churrascos da escola e tinha um talento enorme. Agora é pedir que a polícia coloque policiamento naquela área, aquilo lá tá abandonado. Temos que cobrar que o caso seja investigado, morreram pessoas inocentes, isso não pode ficar impune”, afirmou o presidente do ‘Tigre’ de São Gonçalo.

Diante de tamanha comoção, o clima era de bastante tristeza e a grande parte da família do compositor não conteve as lágrimas. “Perdi quatro amigos que eram muito próximos de mim. Pessoas que marcaram a minha vida e vai ser difícil seguir, mas temos que continuar as nossas vidas. O Waldir era uma pessoa muito alegre, amada e um flamenguista apaixonado pelo rubro-negro. Sentimento indescritível de tristeza e desespero”, afirmou o amigos das quatro vítimas fatais, o gonçalense Daumir Pacheco, de 55 anos.

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