Chacina em SG teria sido motivada por conflito entre tráfico e milícia
Quatro pessoas foram mortas na ação criminosa

Por Thuany Dossares e Alan Emiliano
Poucas horas depois da chacina que deixou quatro mortos e sete feridos, o cenário no tradicional ‘Bar do Jacaré’, na comunidade do Campo da Brahma, no Porto Velho, em São Gonçalo, ainda causava choque, na manhã de ontem. Marcas de tiros nas paredes, copos de vidro quebrados e várias manchas de sangue pelo chão eram o registro do atentado contra um grupo de moradores do bairro, que realizavam uma confraternização na tarde de domingo.
As vítimas tinham idades entre 41 e 60 anos e moravam no bairro há mais de 30 anos. De acordo com as primeiras investigações, traficantes de drogas de São Gonçalo podem estar por trás da chacina, em represália ao fato de terem perdido aquele território para milicianos.
Como de costume, a bola rolava durante a manhã no Campo da Brahma e no início da tarde, os peladeiros e amigos se reuniam para a ‘resenha’, com pagode e churrasco, no bar localizado numa pequena rua transversal ao campo, na Rua Saturno. O ritual era repetido todos os domingos há mais de 20 anos pelos moradores da comunidade. Segundo populares, a festividade normalmente reunia mais de 50 pessoas e durava até ínicio da noite, quando acompanhavam os jogos transmitidos pela TV. E foi logo após o apito final de Flamengo e Athletico-PR, por volta das 18h10, que ocupantes de um Hyundai HB20 preto chegaram atirando. Naquele momento, havia cerca de 17 pessoas no bar e onze delas acabaram atingidas pelos disparos.
Aniversário - Mesmo com a tristeza por todas as vítimas, o que mais chamou atenção da vizinhança foi a situação do casal de comerciantes Janete Bezerra dos Santos Pinto e Porsidonio Ribeiro Neto, 53 anos, que comemorava o aniversário de casamento. Segundo amigos, o casal já somava mais de 20 anos de união e chegou ao local pouco antes da tragédia acontecer. Num vídeo gravado momentos antes da chacina, o casal aparece alegre e sorridente, dançando a música “Enquanto houver saudades”, da sambista Alcione.
“Eles sempre participam aqui, mas como era aniversário de casamento deles, os dois saíram para almoçar juntos. Quando chegaram estavam felizes, comemorando. Muito triste ver uma família ser destruída, ainda mais em meio a uma circunstância tão alegre”, contou um amigo do casal. O casal morava ao lado do estabelecimento. Mesmo sem saber que os pais estavam entre as vítimas, uma das três filhas do casal, assustada, apareceu na janela do segundo andar do imóvel e gritou por socorro. Os bandidos então atiraram para o alto, naquela direção, mas acertaram a caixa d’água do bar. Durante a manhã, a água ainda escorria pela telha e molhava o chão.
Janete não resistiu aos ferimentos e morreu ainda no local. Já seu marido, foi socorrido para o Pronto Socorro São Gonçalo (PSSG), onde passou por cirurgia e encontra-se internado no Centro de Terapia Intensiva (CTI) da unidade de saúde.
Segundo moradores, outro que estava muito alegre era Waldir Pinto Oliveira Sobrinho, 60 anos. Compositor da escola de samba Porto da Pedra, e torcedor do Flamengo, Waldir Papel, como era conhecido, estava comemorando bastante a vitória de seu time de coração e animava a confraternização cantando sambas. Atingido pelos disparos, ele foi socorrido para o PSSG e depois transferido para o Hospital Estadual Alberto Torres (Heat), mas acabou morrendo por volta das 20h.
“Eles se reuniam no mesmo endereço todos os domingos há mais de 20 anos, todos eles. Tinha o jogo de futebol e logo a confraternização. Eu fiquei sabendo o que tinha acontecido por volta de 19h que havia acontecido um incidente com o meu pai e que ele estava no Pronto-socorro de São Gonçalo. Eu fui até lá e ele já havia sido transferido para o Hospital Estadual Alberto Torres e lá ele estava passando por uma cirurgia. Momento depois, o médico veio e disse que ele não havia resistido à cirurgia. O meu pai era pintor, trabalhava na Pavuna, gostava de samba e sempre estava muito alegre. Ele era o mais alegre de todos. Estamos todos arrasados com o que aconteceu. Eu sou filha única. Todos que estavam no bar eram conhecidos”, declarou a advogada Paola Vasconcellos de Oliveira, 28 anos.
As outras vítimas fatais foram identificadas como José Luis Caetano Duarte e Fábio Rosa de Souza. José Luis era professor de espanhol e carinhosamente chamado de Pepe. Através das redes sociais, diversos alunos dele lamentaram a sua morte e falaram sobre os momentos de aprendizado que tiveram com o professor.
Entre os feridos, além de Porsidonio estão Rogério Almeida Gonçalves, 46 anos, José Carlos Silva, 45 anos, João Marcelo Costa, 41 anos, Wendel Jacinto Silva, 46 anos, Carlos Augusto Santos Molhado, 46 anos, Eduardo Ribeiro, de 52 anos. “Todo mundo é morador antigo da comunidade. Eram todos trabalhadores, que se reuniam aos domingos. De manhã tinha o futebol, depois ficavam todos aqui no bar tomando sua cerveja, quem não bebe, tomava refrigerante”, lamentou um morador.
Criminosos teriam assaltado clientes de outro bar do bairro logo depois da chacina
Policiais da Divisão de Homicídios de Niterói, Itaboraí e São Gonçalo (DHNISG) investigam se o crime teria sido motivado por um disputa entre traficantes e milicianos pelo controle do território. De acordo com testemunhas do crime, a tragédia poderia ter sido pior se os criminosos tivessem chegado ao local uma hora antes, já que havia um número maior de pessoas na confraternização, cerca de 50 pessoas, entre homens, mulheres e crianças.
“Nenhuma linha de investigação está descartada, mas um fato que chamou a nossa atenção foi o fato dos criminosos não terem a mínima vontade do anonimato, já que não usaram capuz, balaclava, boné ou qualquer outro objeto que fizesse com que não fossem reconhecidos. Nesse momento, não temos como afirmar a motivação e nem os autores do crime, ainda é muito cedo. Vamos aguardar o desfecho da coleta de imagens e de depoimentos de testemunhas para conseguirmos desvendar esse caso”, afirmou a delegada da especializada, Bárbara Lomba.
De acordo com a policial, a especializada ainda investiga o roubo de um bar realizado pelos mesmos criminosos, a poucos metros do local dos assassinatos. A delegada afirmou que, nesse segundo local, existem uma quantidade maior de testemunhas, que serão ouvidas e serão parte importante da investigação.
“As informações que colhemos em depoimentos e de moradores das proximidades é de que o veículo com os criminosos chegou no local do assassinato das vítimas e logo depois foi para um comércio próximo, onde furtaram celulares e fizeram disparos para o alto. Acreditamos que seja a atuação de um grupo com a intenção de confundir a investigação da polícia”, concluiu Bárbara.
Luto oficial na cidade e na escola Porto da Pedra
O prefeito de São Gonçalo, José Luiz Nanci, divulgou um comunicado, na tarde de ontem, decretando luto oficial de três dias, pelo falecimento das quatro vítimas da tragédia.
Já a escola de samba Porto da Pedra divulgou uma nota lamentando o falecimento das vítimas e do compositor da agremiação, Waldir Papel.
“O presidente Fábio Montibelo e toda a família Porto da Pedra se solidarizam com todas as vítimas e também familiares do compositor Waldir Papel. Neste momento de dor, nos solidarizamos com seus familiares ratificando nosso voto de pesar pela perda de um de nossos poetas”, diz a nota.
Montibelo conversou com uma equipe de reportagem de O SÃO GONÇALO e fez um apelo para que o crime seja esclarecido e os autores tenham uma punição exemplar. “Só morreram tralhadores, pessoas do bem e moradoras de nossa cidade. Para essas ocasiões, deveria haver um julgamento em situação especial. Não trata-se de crimes hediondos comuns. Isso é terrorismo”, enfatizou Montibelo.