Morte de coronel da PM expõe os crimes em série contra policiais
Crime contra o oficial ainda não teve solução

Por Thuany Dossares
74. Esse é o número a que foi reduzida a identificação do coronel da Polícia Militar Ivanir Linhares Fernandes Filho, nos relatórios de estatísticas da instituição, ao ser assassinado em agosto de 2016, no Centro de Maricá. Antes de ser o 74º policial morto naquele ano, Linhares (seu nome de 'guerra') era o número 49.234 para a corporação. É que todo PM ao se formar no Centro de Formação de Aperfeiçoamento de Praças (CFAP) ou na Academia de Polícia Militar Dom João VI (Escola de Oficiais) ganha um número de registro, que é utilizado para identificação e serve para o acompanhamento da vida profissional dele.
Segundo os dados oficiais da a PM, até 29 de agosto, 65 militares haviam sido assassinados ou mortos em confronto, tanto em serviço quanto em suas folgas, este ano. Os dados da corporação ainda apontam que em 2017, 134 PMs foram mortos, e no ano anterior, 146.
Para o porta voz da instituição, major Ivan Blaz, a crise financeira do Governo do Estado foi um dos fatores que influenciaram no aumento do número de policiais mortos.
"Nos dois anos anteriores, no ápice da crise financeira, houve uma escalada no número de PMs mortos. Isso tem ligação direta com o desempenho do policiamento ostensivo nas ruas. É uma lógica simples, reforçar o policiamento ostensivo é impedir que nossos policiais morram. Vale lembrar que 75% dos mortos nas folgas, são vítimas de latrocínio, principalmente roubo de veículos", esclareceu Blaz.
Segundo o major, a intervenção federal que aconteceu no Estado em fevereiro, colaborou para a redução de mortes de PMs.
"Com a intervenção, tivemos o retorno de PMs cedidos a outros órgãos, a liberação de 160 policias afastados por ordem médica, a realocação de agentes que serviam em UPPs em batalhões de área, o retorno do Regime Adicional de Serviço (RAS) e, por último, a reconvocação dos concursados de 2014, que estão no CFAP. A gente vem reduzindo há quatro meses os índices criminais de roubos e veio a reboque a queda no número de policiais mortos em 30%", afirmou.
Especialista acha que a estratégia tem que ser modificada
O ex-subcomandante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e especialista em Segurança Pública, coronel Paulo Storani, acredita que a quantidade de agentes de segurança assassinados no Rio de Janeiro está diretamente relacionada com as estratégias de política pública usadas no combate à criminalidade.
"Desde 1988 a federação trata a segurança pública como um problema policial. As estratégias usadas são a contenção policial, com o aumento do efetivo, compra de viaturas e armamentos. Isso só trabalha a consequência do problema e não a causa, não solucionada nada. E sobretudo no Rio, a polícia não consegue conter também o avanço da criminalidade por estar com um governo financeiramente quebrado. A demanda aqui é muito grande e o efetivo tem sido usado de forma massiva, de certa maneira até abusiva. Um policial sobrecarregado tem sua capacidade de ação e reação comprometidas num confronto, além da baixa capacidade de percepção, isso já é uma consequência direta. Em contrapartida, a criminalidade está avançando e não se contendo mais a estar dentro da comunidade. Uma situação semelhante ao final dos anos 1990, quando eles vinham para a rua disputar território, deixando o policial mais exposto. O número de policiais mortos se deve a esse contexto. Estamos vivendo uma criminalidade violenta no Brasil. Ou toma-se uma atitude de mudança ou vamos todos virar vítimas nessa estatística", afirma Storani.
Alguns dos autores das mortes dos de segurança pública são jovens e adolescentes, segundo Paulo, que também é antropólogo. Para ele, a solução para diminuir os índices de violência e, consequentemente, o número de policiais assassinados, seria o investimento em educação.
"A solução é ir na causa do problema. Os brasileiros costumam querer solução a curto prazo e acabam fazendo o investimento em efetivo e armamentos, nunca visão a solução de longo prazo, investindo em projetos sociais e evitando que crianças não busquem a criminalidade. Temos no Brasil um alto índice de evasão escolar. Na minha época de policial da ativa, o menor que apreendíamos tinha 16 anos, depois 14, 12. Hoje, crianças de dez anos estão entrando para o tráfico. O Observatório de Favelas, da Maré, fez essa pesquisa. E que política pública é feita para evitar isso?", declarou.
Dois crimes recentes estão sendo investigados em São Gonçalo
Recentemente, dois policiais militares foram assassinados em São Gonçalo, um deles em serviço e outro de folga.
No último dia 25, o cabo PM Guilherme da Costa Penetra, lotado no Grupamento de Ações Táticas (GAT) do 7ºBPM (São Gonçalo), morreu ao ser atingido por um tiro de pistola na cabeça, quando sua equipe foi verificar uma denúncia de carga roubada na favela Buraco da Cobra, no Boaçu.
Em 23 de julho, o também cabo PM Samuel Ribeiro da Silva, foi encontrado carbonizado dentro de seu próprio carro, em Guaxindiba. Ele estava na casa da avó de sua esposa, no Portão do Rosa, na noite anterior, e saiu para abastecer seu veículo Hyundai HB20, quando foi abordado por traficantes, que o identificaram como policial e o executaram.
Segundo os dados do aplicativo ‘Fogo Cruzado’ – plataforma digital que coleta dados sobre segurança pública de maneira colaborativa – entre os meses de julho de 2016 a julho desse ano, São Gonçalo aparece como a segunda cidade que teve mais agentes feridos no período. Foram, ao todo, 39 casos, perdendo apenas para a Capital do estado, que registrou 339 vítimas. As cidades de Niterói e Itaboraí também aparecem no ranking como quarta e quinta colocadas, respectivamente.
Já em relação ao índice de agentes mortos, São Gonçalo também fica em segundo lugar ao lado de Nova Iguaçu. Os dois municípios tiveram 23 agentes de segurança mortos, cada um, nesse período.