Divisão de Homicídios investiga ação de milicianos na chacina de Maricá
Jovens atuavam em movimento de cultura popular

A Divisão de Homicídios de Niterói, Itaboraí e São Gonçalo (DHNISG) investiga se integrantes de uma milícia foram os responsáveis pela chacina de cinco jovens, dentro do Condomínio Carlos Marighella, do programa federal ‘Minha Casa, Minha Vida’, em Itaipuaçu, Maricá, no final da madrugada de domingo.
Sávio de Oliveira Vitipó, de 19 anos, Mateus Bitencourt da Silva, 18, e os adolescentes Patrick da Silva Diniz, Matheus Barauna dos Santos, de 16 anos, e Marcus Jonathas, não tinham envolvimento com nenhuma atividade criminosa e não tinham passagens pela polícia. Alguns deles atuavam em movimentos de cultura popular.
De acordo com a delegada Bárbara Lomba, titular da especializada, o crime foi cometido por motivo fútil. “O motivo para isso? Não gostarem dos jovens estarem ali. Ou talvez alguns deles, que faziam raps, poderiam estar fazendo rimas de alguma ideia contrária a dos autores. De toda forma, foi uma motivação fútil. Nenhum deles tinha envolvimento com ato infracional, tão pouco anotação criminal”, declarou a delegada.
Ainda segundo Bárbara, a principal linha de investigação da DH para este caso é a atuação de um grupo paralimitar. “As primeiras informações que colhemos, tanto na apuração no local e comentários em redes sociais, e quanto pela forma da execução, nos levam a indicação da atuação de milicianos, que prestariam serviços de segurança na região do condomínio. É prematuro afirmar isso, mas pela nossa experiência e pelo modus operandi da execução, nossa principal suspeita é que os autores integrem um grupo paramilitar”, explicou.
A perícia da Divisão de Homicídios constatou que pelo menos dois atiradores foram os responsáveis pelas mortes e estojos de pistola calibre 380 foram recolhidas no local. A informação de que o crime foi cometido por dois homens que passaram atirando está descartada.
“As pessoas desceram de um veículo, colocaram as vítimas enfileiradas e as executaram. A mecânica foi essa. Provavelmente os autores estavam de carro. Pessoas passando de moto cometerem o crime da forma como foi é impossível. Levamos os estojos apreendidos para confronto balístico para ver se há correspondência de munição com outros casos investigados pela DH. Estamos também com a expectativa de arrecadação de projétil nos corpos, que também serão encaminhados para confronto balístico”, esclareceu Bárbara Lomba.
Familiares dos jovens já começaram a prestar depoimentos e a DH está em busca de testemunhas que possam ajudar a elucidação da chacina. Câmeras de segurança também serão analisadas, na tentativa de se descobrir a autoria do crime.
“Já temos algumas informações sobre a descrição física de um dos atiradores e estamos procurando testemunhas presenciais. Qualquer pessoa que possa nos descrever os autores, descrever o que acontece naquela região, se há realmente o grupo, como funciona, quem são os envolvidos, podem denunciar pelo Disque-Denúuncia (2253-1177). Pode ser anônimo, não precisa de identificar. É muito importante a participação da comunidade para nos ajudar a esclarecer esse caso. Quanto as câmeras, o local em si era precário de imagens, mas ao longo das ruas da cidade tem cêmeras. Hoje (ontem) vamos ter acesso às imagens. Determinei força total nessa investigação, devido a gravidade do caso”, finalizou a delegada.
Enterro dos jovens foi marcado por emoção e revolta
“A gente faz a nossa música e ninguém nunca olhou por nós. Ninguém nunca olhou para nós. Mataram nossos irmãos iguais cachorros, sem nem saber quem eles eram. Eles não atiraram na cabeça de cinco jovens, eles deram tiros em toda uma classe, no movimento rap. Eles atiraram no sonho desse menino aqui, que era chamado de semente e apontado como bandidinho, sendo uma criança. Nosso movimento levou ele pra arte e ele é nossa semente, que vai germinar e dar lindos frutos. A gente vai lutar ainda mais, vamos buscar mais e vamos chegar onde eles queriam. Nós vamos levar nossa arte para todos os cantos do Brasil. As pessoas têm mania de julgar o livro pela capa. Só porque a gente usa bermuda, blusa larga, as pessoas nos apontam como bandidos. Tiraram a vida de cinco irmãos bons, que não tinham envolvimento com nada errado”, desabafou em lágrimas, um dos amigos e sub-produtor do grupo de amigos, Pablo Braga.
Além dos amigos do rap, cerca de 200 pessoas estiveram presentes nos velórios de Sávio, Patrick e Marcus Jonathas, na tarde de ontem, no Cemitério Municipal de Maricá. Os outros dois adolescentes foram enterrados em Magé e no Rio.
Familiares preferiram não conversar com a imprensa por continuarem temendo nova ação dos executores. Mas os amigos do grupo, que buscavam apoio uns nos outros, gritavam por justiça e afirmavam que iam lutar pela memória do grupo.
“Nada vai trazer eles de volta, mas não vão manchar a memória deles dizendo que eram bandidos. Não eram! Meninos bons e que não fizeram nada de errado na vida”, finalizou uma moradora do conjunto habitacional. Antes e depois dos sepultamentos, amigos realizaram caminhadas contra a violência na cidade e pediram punição aos executores do grupo. Várias pessoas participaram de manifestações de solidariedade às famílias dos cinco jovens e exigindo Justiça, na tarde de ontem.