Família de Niterói luta para provar inocência de jovem

Por Renata Sena
“Eu estou arrasado. Ele estava na sala de casa comigo vendo televisão e não na rua, como o acusaram. Meu filho foi educado para respeitar. E ele aprendeu essa educação de tal maneira que nunca fez nada de errado. Eu estou achando esse país um lixo. Meu único pedido é que essa testemunha repense o que fez, porque ele colocou um inocente na cadeia”.
O relato emocionado e carregado de mágoa e do aposentado Jorge Ramos Barbosa, de 59 anos, que junto da família e dos amigos, luta para provar a inocência de seu filho, preso no início de junho, acusado de roubo, depois de ter sido identificado por uma fotografia impressa em preto e branco.
Estudante, auxiliar de elétrica e jardineiro, Juan Carlos Soares Barbosa, de 19 anos, que não possuía nenhuma anotação criminal, viu sua vida mudar na madrugada de quatro de junho. Acompanhado de dois amigos, o jovem seguiu, no carro que o pai comprou para ele, para uma festa de rua, próximo ao Morro do Martins, em Neves, São Gonçalo.
“No meio da noite voltamos no carro para pegar um casaco. Nesse momento um veículo branco estaciona ao lado do carro do Juan. Vimos um carro da PM passar e retornar, foi quando os dois caronas do carro saíram correndo e deixaram só o motorista. A gente não correu, pois não tínhamos nada com eles, mas acabamos sendo abordados, algemados e levados para a delegacia junto com o adolescente, que dirigia o tal carro”, relembrou o estudante Carlos Eduardo Costa, de 18 anos, que também foi vítima do suposto engano e passou a noite da cela da 73ª DP (Neves), até ser liberado na manhã seguinte. “Não desejo aquilo para ninguém. È um lugar horrível, sujo”, finalizou. De acordo com a família, o trio foi acusado de estar com o adolescente que dirigia o veículo roubado pouco antes. No entanto, na delegacia, somente a fotografia de Juan foi reconhecida. “Na delegacia, a vítima do roubo disse ter reconhecido o adolescente e meu filho, que nem se conheciam. Ele disse que o roubo aconteceu às 20h, e nesse horário meu filho estava em casa. Ele só saiu no final da noite e os amigos estavam junto dele”, explicou a técnica em enfermagem Lílian Pinto Soares, de 50 anos, mãe do jovem. Com a falta de reconhecimento, Carlos Eduardo e o amigo de 17 anos, acabaram sendo liberados, mas Juan foi transferido para o Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, Zona Oeste do Rio de Janeiro. “Estavam todos juntos. Como o Juan fez algo e meu filho e o Carlos não fizeram? Eu tenho controle na vida do meu filho e ele saiu de casa com minha autorização. Eu deixei porque conheço a índole dos meninos que estavam com ele. Eles são incapazes de fazer alguma coisa de ruim com alguém. Se for preciso, eu vou mover céu e terra para ajudar a tirar o Juan dessa história. Foi uma ferida que não cicatrizou ainda. Saber que meu filho dormiu numa delegacia sem merecer passar por isso. Imagina pra essa mãe que está com o filho num presídio. Os policiais fizeram a parte deles, mas a testemunha acusou um inocente. E essa nossa justiça permite que qualquer um fique preso”, desabafou a auxiliar de creche Áurea Fernandes da Costa, de 39 anos, mãe do adolescente, de 17 anos, que estava com o acusado. Juan foi indiciado pelos crimes de roubo majorado e corrupção de menores, já que o outro acusado era adolescente. Audiência - Depois de ficar 15 dias em Bangu, sem contato algum com a família, Juan foi transferido para a Cadeia Pública Juíza Patrícia Aciolli, em Guaxindiba, São Gonçalo, onde permanece preso em regime fechado.
A advogada da família Tereza Nogueira, entrou com um pedido de liberdade provisória, que foi negado pela justiça. “Vamos entrar com outros recursos. Só entrei nesse caso porque confio na índole do Juan e acredito na sua inocência. Sei que a prisão não foi correta. Houve diversas falhas nesse procedimento. O juiz tem 82 dias para julgar um caso, e ele só marcou a primeira audiência para 96 dias. A primeira ilegalidade foi a prisão por engano, depois temos essa falha do prazo. E tivemos ainda um reconhecimento por foto, que teria que ter sido feito pessoalmente”, destacou Tereza.
Com audiência marcada para somente 18 de outubro, a família pede ajuda. “É muito tempo ainda. Precisamos lutar para tirar ele de lá antes dessa audiência. Queremos pegar imagens de câmeras de segurança do posto onde ele abasteceu, da rua onde estacionou. Vamos provar que ele não cometeu crime nenhum”, disse a mãe do jovem.
Ajuda – Para apoiar os pais de Juan, comerciantes, amigos e moradores da Rua Teixeira de Freitas, no Fonseca, Zona Norte de Niterói, se uniram pelo menino. “A gente só pede justiça mesmo. Ele é inocente. Peguem filmagens, percorram os lugares que eles estavam, vão ver que ele não fez nada”, afirmou a supervisora Gisele Batista, de 29 anos.