Tráfico mata jovens por morarem em área rival

Por Renata Sena
Familiares, amigos e mototaxistas fecharam a principal via de Neves, em São Gonçalo, ontem à noite, em protesto pelas mortes do mototaxista Thiago Nascimento da Silva, de 26 anos, e do estudante Allison Pereira, 17. Moradores do bairro, os dois foram sequestrados, torturados e executados por criminosos da Favela da Palmeira, na Zona Norte de Niterói, somente porque moravam numa área dominada por uma facção rival.
Segundo testemunhas, os rapazes seguiam para um mercado numa motocicleta Fazer preta, placa LQF 4363 - que havia sido recentemente adquirida - pelo mototaxista, quando foram abordados pelos criminosos na Avenida João Brasil, na Engenhoca. Inicialmente, apenas o veículo seria levado. No entanto, ao descobrirem que as vítimas eram moradores de São Gonçalo, a ação ganhou novos rumos. “Eles foram levados para o alto do morro. Foram torturados e agonizaram a noite toda. Os moradores contaram que eles ficaram pedindo socorro, dizendo que não eram bandidos. E não eram mesmo. São trabalhadores que perderam a vida de uma forma estúpida”, desabafou a maquiadora Luíza Santos, 32, tia de Allison.
A comerciante Bruna Nascimento, 19, irmã de Thiago, falou sobre a luta do mototaxista para criar a filha, de somente cinco anos. “Ele morava sozinho com a filha e trabalhava muito para sustentá-la. Não podemos nos calar com o que está acontecendo. Queremos mostrar que eles são vítimas, não bandidos”, declarou a jovem, acrescentando que a motocicleta e os celulares dos rapazes ainda não foram encontrados. Os corpos dos jovens, localizados na manhã de quinta-feira, ainda não foram liberados pelo Instituto Médico Legal (IML).
Manifestação - Cerca de 100 pessoas interditaram a Avenida Oliveira Botelho, colocaram fogo em galões de alumínio e seguraram cartazes com as fotos das duas vítimas. A família chegou a pedir desculpas a quem voltava do trabalho pelo transtorno que a manifestação causou no trânsito. “Eu peço desculpas a quem pegou engarrafamento, mas foi necessário. Tínhamos que chamar a atenção e não deixar a memória deles ficar suja. Eles não eram bandidos. Já estamos cansados de perder nossos jovens de São Gonçalo por causa dessa guerra, que só faz covardia com gente de bem. A gente só pede paz”, encerrou Luíza.
A Polícia Militar acompanhou o protesto e negociou com os manifestantes para liberarem uma faixa da via. Não houve registros de tumulto ou vandalismo.