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Eles morreram tentando salvar um ao outro de descarga elétrica

relogio min de leitura | Redação 04 de janeiro de 2016 - 21:27

Moradores do bairro São Miguel, Lucas, Rafael e Gabriel visitavam o aposentado Adão Moraes, domingo, quando o fio se partiu e caiu sobre o carro da família

Foto: Divulgação

Por Marcela Freitas, Elena Wesley e Renata Sena

O estudante Lucas Alcântara de Oliveira, de 13 anos, tinha um sonho: quando crescesse queria ser bombeiro para poder salvar vidas. Quis o destino que o menino morresse tentando resgatar o próprio irmão, Gabriel Alcântara de Oliveira, de 10 meses, que estava dentro do veículo da família, atingido por uma descarga elétrica após o rompimento de um fio da rede de média tensão da Ampla, na Rua Marechal Floriano Peixoto, em Neves.

Segundo testemunhas, o pai das crianças, Rafael Sergio de Alcântara Oliveira, 36, estava saindo da casa da mãe e havia acabado de colocar Gabriel no bebê-conforto, quando o fio caiu sobre o carro. Lucas correu para retirar o irmão e acabou recebendo uma descarga elétrica. Rafael foi salvar os filhos e também foi eletrocutado. De forma semelhante, Adão Orlando Silva Moraes, 87, padrasto de Rafael, e a mãe dele, Maria Nazaré de Alcântara, 60, também receberam a descarga elétrica. Maria foi a única sobrevivente da tragédia e permanece internada no Hospital das Clinicas de Niterói.

“Aconteceu ali um ato de amor. Na tentativa de um salvar o outro, todos acabaram partindo. Foi assim que comuniquei a tragédia para a Ana Cláudia Piedade Rodrigues, mãe das crianças”, recordou emocionado Noé Fernandes, 51, amigo da família.

Aluno do 8º ano do Colégio Rui Barbosa, no bairro Raul Veiga, Lucas era muito estudioso e tinha um sonho de ser bombeiro militar. De acordo com familiares, ter um irmão era um antigo desejo do adolescente, que foi atendido pelos pais no dia 28 de fevereiro de 2015. A dedicação dele com a criança chamava atenção de familiares e amigos. É a foto do pequeno Gabriel que estampa o perfil do rapaz numa rede social.

Dor e indignação marcaram as despedidas

Pai e filhos foram sepultados no Cemitério Parque Nictheroy, em Vista Alegre
Pai e filhos foram sepultados no Cemitério Parque Nictheroy, em Vista Alegre

Cerca de 200 pessoas compareceram ao enterro de Rafael Sérgio, Lucas e Gabriel, que ocorreu na tarde de ontem, no Cemitério Parque Nictheroy, em Vista Alegre, São Gonçalo. Entre amigos e familiares, a sensação era unânime: difícil de acreditar em tamanha tragédia. Ao som de canções religiosas, os presentes procuraram consolar Ana Claudia. Muito fragilizada, a viúva e mãe das crianças teve que ser amparada ao longo do velório e do sepultamento.

Apesar da dor, o discurso também era de indignação. Vitor Hugo Oliveira, irmão de Rafael, confirmou o desejo da família em exigir explicações da Ampla.

“Vamos buscar nossos direitos. Não é justo que isso se repita com outras famílias”, afirmou antes da solenidade.

Já o enterro de Adão aconteceu no final da tarde de ontem, no Cemitério do Maruí, no Barreto, em Niterói. Muito abalado, José Paulo, filho único de Adão, usou poucas palavras durante o velório do pai. “Não queremos dinheiro, queremos que a justiça seja feita e que não aconteça com ninguém o que aconteceu a minha família”, disse.

O cortejo fúnebre foi acompanhado por, aproximadamente, 50 amigos e familiares que tentavam apoiar e confortar José Paulo e suas filhas, que estavam bastante abaladas.

Família das vítimas vai acionar a Ampla na Justiça

Técnicos da Ampla alegam que objeto rompeu a fiação
Técnicos da Ampla alegam que objeto rompeu a fiação

Policiais da 73ªDP (Neves) investigam se o rompimento do fio de média tensão foi provocado pela falta de manutenção da rede elétrica ou por um bomba caseira, colocada dentro de uma geladeira, a quase um quilômetro do local da tragédia. Os agentes estão à procura de câmeras de segurança que possam ajudar nas investigações. Em nota, a Ampla informou que identificou em seu sistema um curto-circuito de grandes proporções, que teria sido ocasionado pelo choque de um objeto na rede nas proximidades onde ocorreu o rompimento do cabo.

“É preciso deixar claro que não foi acidente. Isso é uma imprudência desta empresa. Até agora ninguém entrou em contato conosco. Eles precisam ser punidos pelo que aconteceu”, comentou o tio das crianças, Cláudio Rodrigues, 44, enquanto liberava os corpos das vítimas no Instituto Médico Legal (IML).

“Meu pai era meu herói. Sou filho único e me espelhei toda a vida nele. O que posso fazer agora é cobrar justiça. Já acionei meu advogado para que essa empresa não destrua mais famílias como destruiu a minha”, comentou José Paulo Moreira, 62, filho de Adão.

O advogado Ednildo Sarmento de Andrade informou que a família pode entrar na Justiça para que a prestadora de serviços Ampla seja responsabilizada pela tragédia.

“O nosso primeiro objetivo é o conforto dos familiares para depois tomarmos as medidas cabíveis. As atitudes vão ser tomadas não por dinheiro, mas para que essas mortes não fiquem impunes e outras famílias não passem pelo que essa está passando. Eles morreram por amar demais uns aos outros. Agiram no impulso. Quando o coração manda, a mente obedece”, comentou o advogado.

Para o presidente do Sindicato da Indústria de Instalações Elétricas, Gás, Hidráulicas e Sanitárias do Rio, Fernando Carlos Cancella, é condição básica de qualquer circuito elétrico ter uma ou mais proteções coordenadas. Segundo os especialistas, em caso de descargas elétricas em veículos, é necessário permanecer dentro dele e aguardar socorro. Ontem à tarde, o Procon autuou a Ampla pelo acidente. A concessionária tem 15 dias úteis para apresentar defesa.

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