Familiares de Elias, motoboy morto no Morro do Palácio, clamam por Justiça: 'Quantos mais vão passar por essa dor?'

O corpo do jovem estava no IML do Barreto nesta manhã (25)

Escrito por Ana Carolina Moraes 25/11/2021 13:17, atualizado em 25/11/2021 13:18
Elias tinha 24 anos e tinha o sonho de ser DJ
Elias tinha 24 anos e tinha o sonho de ser DJ . Foto: Reprodução/Internet

"Eu queria saber até quando? Não mataram só o meu irmão não, estão matando a minha família toda, pois depois do ocorrido a minha mãe, que já havia tido dois AVCs, teve mais um, e minha irmã passou mal. O sentimento é de dor, é de angústia". Esse é o depoimento emocionado do pedreiro, balanceiro e pastor Leonardo Lima, irmão de Elias de Lima Oliveira, de 24 anos, morto nessa quarta-feira (24), por volta das 14h/15h, durante um patrulhamento policial no Morro do Palácio, no Ingá, em Niterói. Elias era motoboy e atuava também como DJ e mototaxista. Ele deixou uma esposa e uma filha de pouco mais de 1 ano. 

A família do jovem estava no Instituto Médico Legal (IML) do Barreto, em Niterói, nesta manhã (25). No local, eles esperavam a liberação do corpo. Leonardo explicou que testemunhas viram que seu irmão foi abordado por policiais enquanto estava trabalhando como motoboy. 

"Eu quero prestar solidariedade a todos que passaram por isso. Eu sempre trabalhei com recuperação do tráfico em comunidades, eu sou pastor, mas nunca imaginei que fosse ser vítima. Queria perguntar ao presidente e aos governantes públicos: quantas pessoas mais passarão por essa dor? Meu irmão estava saindo para trabalhar quando foi 'enquadrado' pelos policiais. Testemunhas me contaram que o meu irmão falou "eu sou morador" e, mesmo assim, deram dois tiros de fuzil no meu irmão, que ficou sangrando na rua. Depois, eles colocaram o corpo do meu irmão no carro e ele terminou de ser morto. Eu soube que eles não estavam em carros da Polícia nesse dia, estavam em carros particulares, não estavam em policiamento. Não é a primeira vez que isso ocorre, não é a primeira morte, colocaram armas e drogas próximas ao meu irmão. Meu irmão não usava drogas, não tinha antecedentes criminais, foi criado na igreja, apesar de não ser cristão; ele prestava serviços em lanchonetes, pizzarias, era a forma dele de conquistar o seu dinheiro. Ele tinha mais quatro irmãos (contando comigo) e era querido por todos e por nossa mãe", contou ele. 

Familiares de Elias protestaram ontem (24) com o boné sujo de sangue que ele usou quando foi morto
Familiares de Elias protestaram ontem (24) com o boné sujo de sangue que ele usou quando foi morto | Foto: Divulgação
 

A família de Elias estava muito abalada. A irmã dele, Elen de Lima Oliveira falou um pouco de sua indignação com o caso. "Foram dois tiros no meu irmão, um no tórax e outro na virilha, meu irmão estava se arrumando para sair para trabalhar. Os policiais disseram que prestaram socorro, mas foi depois dele já sem vida", contou ela. 

Viviane Almeida, madrinha de Elias, contou que o jovem era como se fosse seu segundo filho. "Ele era trabalhador, não fumava nem cigarro. Os policiais entraram na comunidade à tarde, com crianças saindo do colégio e abordaram o meu afilhado. Os policiais falaram para nós da família que ele estava em boca de fumo, o meu afilhado não estava, ele estava trabalhando como motataxista na hora,  não era traficante. Como vai ficar a filha dele? Como vai ficar a minha comadre que está em casa? É mole 'pegar' um preto, favelado, pobre numa favela e falar que era traficante, mas ele não era. Agora a família que sofre, que fica chorando, estamos arrasados, sem dormir desde ontem. Ele era nascido e criado no Palácio, querido por todos de lá. O sonho dele era ser DJ", contou ela. 

Familiares de Elias estiveram no IML
Familiares de Elias estiveram no IML | Foto: Filipe Aguiar
 

Também estavam presentes no IML, alguns representantes da Secretaria Municipal de Direitos Humanos de Niterói. Eles afirmaram que estão acompanhando o caso de perto. "Primeiramente, quero me solidarizar com a família, essa é uma política de segurança que se mostra eficaz nos últimos 40 anos. O Elias, um jovem trabalhador, é mais uma vítima dessa política de segurança ineficiente que o Rio de Janeiro promove hoje. Queria dizer que o Axel Grael e o secretário Raphael Costa estão colocando todos da Secretaria Municipal de Direitos Humanos à disposição da família, com suporte jurídico e assistencial, para que a família possa ter essa dor amenizada nesse momento tão difícil. Nossa equipe jurídica está aqui e vamos pegar todos os dados necessários para promover a dignidade para essas pessoas. Já entramos em contato com a polícia ontem e eles estão fazendo as efetivações internas, ainda não temos maiores detalhes, e ainda vamos conversar com o comandante do 12° BPM (Niterói) para que a gente faça a apuração necessária e preste esclarecimento para a sociedade", afirmou o subsecretário Rafael Adonis, da secretaria em questão.

Rafael Adonis esteve no IML prestando apoio aos familiares
Rafael Adonis esteve no IML prestando apoio aos familiares | Foto: Filipe Aguiar
 

"É inadmissível que a gente continue perdendo vidas de jovens como a do Elias, um jovem trabalhador e querido pela comunidade, por conta da falta de uma estratégia de segurança pautada no respeito, na valorização da vida, na prevenção, na inteligência. E é por isso que a Secretaria de Direitos Humanos, nossa equipe, está não apenas prestando assistência aos familiares, o que é muito importante, oferecer assistência, orientação psicológica, jurídica e apoio pro enterro, mas, acima de tudo, estamos acompanhando as investigações, porque é importante que o inquérito seja feito de forma profunda, que averigue toda situação e que a lei seja cumprida e, acima de tudo, haja responsabilização uma vez que a gente precisa criar um ambiente que não dê espaço para impunidade, pois situações como essas não podem ser rotina, não podem voltar acontecer e ser prática cotidiana de nossas comunidades", pontuou o secretário da pasta em questão Raphael Costa que já entrou em contato com o Coronel Carmo, responsável pelo 12° BPM, que afirmou que o inquérito do caso já foi aberto e os policiais responsáveis foram retirados de operação até a conclusão da apuração. A secretaria está auxiliando tanto a Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSG), responsável por apurar o caso, quanto o inquérito interno da PM. A equipe da secretaria acompanhará a família enquanto esta prestar depoimento sobre o caso na delegacia. 

Renan Rodrigues Dutra é advogado da Secretaria de Direitos Humanos falou que algumas pessoas do Palácio afirmam estar sofrendo represálias e que o caso será investigado. "Para que tudo seja investigado e colocado no inquérito. Estamos fazendo acompanhamento desde ontem com a família, entramos em contato no ato da manifestação, garantimos a segurança dos manifestantes e da família com a Polícia Militar no ato e vamos continuar fornecendo o suporte e as políticas públicas necessárias para essa família. Precisamos, nesse caso, ouvir a voz da comunidade que sofre todos os dias com represálias, precisamos que todos tenham o direito de serem ouvidos e que o caso chegue ao final com a verdade", afirmou ele.  

Elias foi um dos baleados na ação policial. Mais um outro homem foi baleado no caso. Confira a nota da PM na íntegra: A Secretaria de Estado de Polícia Militar informa que equipes do 12° BPM (Niterói) foram atacadas enquanto realizavam um patrulhamento em uma das vias que dão acesso ao Morro do Palácio, no Ingá, zona sul de Niterói. A equipe abordava um suspeito quando foi atacada a tiros, gerando um confronto.

Após estabilizar a situação, um homem foi encontrado baleado e foi socorrido ao Hospital Estadual Azevedo Lima (HEAL) e não resistiu. Ainda na ação, dois homens foram presos com uma pistola e entorpecentes (ainda a contabilizar). A ocorrência foi encaminhada para a 76ª DP.

Posteriormente, os policiais foram acionados para averiguar uma manifestação que ocorria em frente ao Hospital Estadual Azevedo Lima (HEAL). No local, a equipe foi informada que um homem ferido por disparo de arma de fogo no braço deu entrada naquela unidade de saúde, após ser socorrido por populares. O ferido permaneceu internado e encontra-se lúcido. A ocorrência foi encaminhada à 78ª DP (Fonseca)"

A vereadora Walkíria Nichtheroy, do PCdoB, que mora no Morro do Palácio e esteve na manifestação clamando por Justiça no caso de Elias afirmou, em nota, que: "Cada vida perdida é a história de uma família inteira que se interrompe. Enquanto o estado olhar os favelados como números esse genocídio nunca vai parar. Estamos reféns de quem deveria nos proteger. Podem encontrar o culpado e punir um agente. Mas enquanto não reformularmos a segurança pública no RJ isso nunca vai parar.

Não é verdade que a gente se acostuma com esse tipo de coisa. Quem se acostuma é quem está fora da favela e pode esquecer e seguir a vida. A gente vive com medo de acontecer outra vez e sem saber quem será o próximo. Quando acontece perto da gente assim nos faz sentir impotentes. Fizemos tudo que pudemos e vamos continuar lutando por justiça. Mas, infelizmente, não vamos trazê-lo de volta".

Nas redes sociais, Axel Grael, prefeito de Niterói, se solidarizou com a família de Elias. "Estou acompanhando o caso que ocorreu hoje à tarde. Infelizmente, um tiro atingiu Elias de Lima Oliveira, de 24 anos, morador do Morro do Palácio. É inadmissível perder nossos jovens, moradores de comunidades, de uma maneira tão violenta, cujas circunstâncias precisam ser apuradas. Coloco à disposição toda a estrutura da @NiteroiPref, que não mede esforços para apoiar o Governo do Estado na Segurança Pública", escreveu ele em seu Twitter.

Em nota, a Polícia Civil informou que "as investigações estão em andamento na Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSG), que instaurou inquérito para apurar a morte de Elias Lima de Oliveira. A perícia foi realizada no local. Os agentes estão ouvindo testemunhas e coletam informações para esclarecer todos os fatos."

Sobre as alegações da família, a Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar informou que "segundo o 12ºBPM (Niterói), não houve emprego de viaturas descaracterizadas do batalhão nesta ocorrência.

Na tarde de quarta-feira (24/11), equipes do 12ºBPM foram atacadas enquanto realizavam um patrulhamento em uma das vias que dão acesso ao Morro do Palácio, no Ingá, na Zona Sul do município de Niterói. A equipe abordava um suspeito quando foi atacada a tiros, gerando um confronto. Após estabilizar a situação, um homem foi encontrado ferido, foi socorrido ao Hospital Estadual Azevedo Lima (HEAL) e não resistiu. Ainda na ação, um homem foi preso com uma pistola e entorpecentes. A ocorrência foi encaminhada para a 76ª DP.

Posteriormente, os policiais foram acionados para averiguar uma manifestação que ocorria em frente ao Hospital Estadual Azevedo Lima (HEAL). No local, a equipe foi informada que um homem ferido por disparo de arma de fogo no braço deu entrada naquela unidade de saúde, após ser socorrido por populares. O ferido permaneceu internado e encontra-se lúcido. A ocorrência foi encaminhada à 78ª DP.

Um Inquérito Policial Militar (IPM) foi instaurado para averiguar as circunstâncias da ocorrência, além das investigações a cargo da Polícia Civil."

O velório será nesta quinta-feira (25), a partir das 16h, no Cemitério Maruí.

Familiares de Elias estiveram no IML
Familiares de Elias estiveram no IML | Foto: Filipe Aguiar
 

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