Suicídio policial: aumento de casos de morte de agentes fora do tempo de serviço acende alerta
Dados são do Instituto de Segurança Pública (ISP)

Os casos de morte de policiais por letalidade violenta no estado do Rio de Janeiro são maiores fora do tempo de serviço, de acordo com um levantamento feito pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), realizado de 2016 a 2020, e publicado em setembro deste ano. O estudo mostra ainda que, ao todo, 506 policiais foram a óbito no período no estado, sendo 148 (133 militares e 15 civis) em serviço e 358 de folga (331 militares e 27 civis). O ano passado ainda leva um destaque, tendo em vista que foi o período com menos mortes (65) dos últimos 23 anos. Entre as mortes, há os registros de agentes que atentam ou tentam atentar contra a própria vida. Por exemplo, em 2018, o número de policiais que cometeram suicídio no Brasil foi maior que a quantidade que morreu em decorrência de confronto nas ruas (87), enquanto estavam em serviço.
Na última segunda-feira (22), um policial civil invadiu a 82ª DP (Maricá) e assustou a todos ao tentar se matar. Ele, em possível surto psicótico, pediu que todos saíssem da unidade policial para que atentasse contra a própria vida. Apesar disso, a situação foi controlada pelos agentes no local e o homem encaminhado para o hospital da região, com objetivo de receber atendimento médico.
Diante do ocorrido, a reportagem do O SÃO GONÇALO entrou em contato com o Sindicato de Policiais Civis Do Estado do Rio de Janeiro (Sindpol-RJ) para questionar sobre o suporte que recebem esses agentes durante a rotina de trabalho. A presidente Márcia Bezerra reiterou que o sindicato está sempre em busca de melhorias para o corpo de profissionais à frente da segurança pública do estado.
“O Sindpol/RJ tem como objetivo geral a uma Polícia Civil melhor, que nos faz buscar por uma melhor qualidade de vida do policial, que está intrinsecamente vinculada a fatores como melhor condições de trabalho, saúde, valorização e capacitação do policial. Nesse sentido o Sindpol/RJ, desde o início da atual gestão reclama por ações do Estado e da Secretaria estadual de Polícia (Sepol), visando melhoramento na qualidade de vida do policial civil do estado do Rio de Janeiro. Hoje um policial civil, trabalha com um efetivo de 50% a 60% aquém do ideal, mas podemos constatar em plataformas como ISPGeo, a baixa de índices criminais, o que se consegue com o trabalho do policial. Além disso, buscamos inicialmente o direito a vacinação prioritária contra a COVID 19, algo pacificado pelo Ministério da Saúde. Continuamos reivindicando a majoração do auxílio alimentação, hoje no valor de R$12 diários para R$32, além do auxílio transporte que hoje é R$100 mensais.”, disse.
Para comentar acerca da rotina de estresse do policial, a presidente recorre aos dados do ISP sobre o assunto.
“Muitos são os fatores que impõe ao policial, uma situação de estresse, como o desamparo na área da saúde, pois não conta com um plano de saúde e sim com a finalização das atividades do seu hospital, sem qualquer contrapartida, fora as consequências imediatas ao exercício da profissão, como a exposição constante ao perigo e a proximidade diária com a violência. As estatísticas nos mostram que a maior incidência de morte do policial não se dá em eventos de violência durante o seu serviço, e sim fora quando não está no exercício de sua profissão. Dentre os casos que robustecem a estatística, identificamos o suicídio.”, falou.
Diante do fato ocorrido com o policial civil em Maricá, o Sindpol-RJ tomou algumas medidas para auxiliar este agente em específico e outros que queiram algum tipo de ajuda.
“O Sindpol, sensível ao momento delicado com que passa o policial civil, se colocou através de um de seus diretores, hoje aposentado do serviço público, exercendo a profissão de psicólogo, aberto a atendimento de policiais civis que queiram.”, pontuou.
Além disso, a Policlínica da Polícia Civil, de forma excepcional, diante das condições precárias, está abrigando o Numespol - Núcleo de Saúde Mental da Polícia do Estado da Polícia Civil, que atende no telefone: 2332-8188 e pode dar suporte a esses agentes.
“O Numespol - Núcleo de Saúde Mental da Polícia do Estado da Polícia Civil é um grupo de psicólogos e psiquiatras, cujo objetivo e dar qualidade de vida e proporcionar saúde mental para os policiais da ativa, conforme a necessidade de cada caso. Também encontramos na Policlínica da Policia Civil, um serviço para policiais inativos e seus familiares.”, contou ela, reiterando que este segundo atendimento é feito pelo telefone: 2334-1352 ou 2334-1354.
E por fim, Márcia Bezerra ainda reforça a importância dos policiais, pontuando as narrativas que estão envolvidos e a necessidade de procurar auxílio.
“Finalizamos lembrando que por trás de todo conjunto de obrigações, das perigosas e complexas ações, da disponibilidade para atender e se colocar em perigo para cumprir o seu dever, existe uma pessoa com necessidade, com problemas pessoais, financeiros, envolto em pressões de várias ordens, e como qualquer outro ser humano, precisa de ajuda.”, reiterou ela.
*Sob supervisão de Cyntia Fonseca