Homem preso por engano é considerado 'frio' e 'perverso' pelo MPRJ
Meyrelles foi preso após ser 'reconhecido' pela foto de sua carteira de motorista

Após ter sido supostamente reconhecido como autor de um roubo de carro tendo como base a foto de sua carteira de motorista, o funcionário do Porto do Rio de Janeiro, Alberto Meyrelles, preso por engano na manhã da última quarta-feira (18), foi chamado de "frio", "perverso" e de "alta periculosidade" na denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro. As informações são do portal de notícias Metrópoles.
A denúncia, ajuizada pelo promotor de Justiça Bruno de Lima Stibich, identifica o autor do roubo como um "homem negro, de meia idade, cabelo raspado" e que foi "reconhecido" por uma foto na delegacia.
A imagem que foi utilizada para incriminar Alberto foi achada dentro de sua carteira, que ele havia perdido em um assalto e acabou sendo encontrada dentro de um carro roubado. A vítima que teve o carro roubado "reconheceu" o funcionário do Porto do Rio como o criminoso. Porém, dias antes do crime, ele já havia preenchido um boletim de ocorrência registrando que sua carteira havia sido roubada juntamente com seus documentos.
O registro de ocorrência feito por Meyrelles não foi considerado na denúncia do MPRJ.
De acordo com a defensora pública responsável pelo caso, Lucia Helena de Olliveira, as características descritas pela vítima do roubo do carro não batem com as de Meyrelles; somente o cabelo raspado e a cor da pele.
Tanto o roubo da carteira de Meyrelles como o roubo do automóvel aconteceram em abril de 2019, mas a prisão de Alberto foi decretada apenas em outubro de 2020. Sem saber que estava sendo procurado pela Justiça do Rio, ele foi avisado pela ex-mulher que um oficial da Justiça havia aparecido, em maio de 2021, na casa onde os dois moravam juntos.
Após descobrir a denúncia, Meyrelles procurou a Defensoria Pública do Rio de Janeiro para auxiliá-lo na defesa. O órgão já tentou revogar a prisão de Meyrelles três vezes, mas a Justiça do Rio não aceitou nenhuma vez.
Em resposta ao Metrópoles, o MPRJ não respondeu porque o registro de ocorrência de Meyrelles não foi considerado na acusação e disse que a denúncia foi apresentada diante do princípio “in dubio pro societate”, que determina que, havendo dúvidas sobre determinado crime, deve-se julgar favorável à sociedade.
De setembro de 2020 a fevereiro deste ano, 28 pessoas foram presos por engano após terem sido "reconhecidas" por foto. 83% dos presos eram negros. Os dados são do último levantamento do Conselho Nacional de Defensores Públicos.