Ex-baterista volta às ruas e vive o drama das drogas
Marcela Freitas
Segunda-feira, 12h30, Alameda São Boaventura, Fonseca, Niterói. Quem passa pela calçada, na altura do número 555, tem a atenção voltada para um morador de rua, que consome cocaína em plena luz do dia. Apesar dos olhares curiosos - alguns deles de reprovação -, a cena parece não chocar mais comerciantes e moradores, que convivem há 30 dias com aquele homem vagando pelas ruas do bairro.
Os que muitos talvez não saibam é que as mãos que hoje seguram o canudo usado para cheirar cocaína já empunharam baquetas de bateria que embalaram as canções de dois importantes nomes da música brasileira na década de 1980: Tim Maia e Celso Blues Boy.
O ex-baterista Wigberto Rodrigues Silva voltou às ruas menos de seis meses após se resgatado por agentes de saúde pública, em Icaraí. Na ocasião, acreditava-se na recuperação do músico, que respondeu bem ao tratamento. No entanto, a exclusão social e a dependência química impediram que sua história tivesse um final feliz.
Segundo moradores e comerciantes do local, Wigberto dorme todos os dias sob uma marquise na altura do número 554. Por volta das 7h, ele se levanta e vai até o sinal de trânsito da Rua Manoel Areal, onde pede esmolas. Quando consegue a quantidade necessária para comprar drogas, ele vai até os comércios locais e pede que as moedas sejam trocadas por notas. Em seguida, ele segue para a Vila Ipiranga.
Muito reservado, Wigberto não costuma falar sobre sua vida pessoal, mas se alegra quando alguém recorda do seu sucesso no passado. “Ele sempre diz que foi um baterista dos bons”, comenta um comerciante.
“Ele fica falando que vai escrever canções, mas não nos deixa ver. Também anda com pedaços de madeiras que finge ser baquetas. Acredito que a droga seja o refúgio dele”, completa o comerciante.
Para se alimentar, o ex-baterista conta com a solidariedade das pessoas. “Ele não é muito de aceitar comida, sempre pede dinheiro. Como já sabemos que é para consumir drogas evitamos dar. Mas quem passa pelo sinal não sabe e acaba dando”, lamentou um zelador.
“Temos pena. Aqui ele nunca fez mal para ninguém, apenas para si mesmo. Alguém precisa ajudá-lo. Acredito que ele pode ser recuperado”, emendou uma moradora.
Para a psicóloga Tânia de Villarte, a dependência química é um problema grave de saúde pública e pode estar ligado diretamente à saúde mental. “Não conheço de perto o problema deste paciente, mas o que podemos dizer, de uma maneira geral, é que a droga prejudica o comportamento do ser humano e seu uso abusivo pode estar ligado à incidência de doenças psiquiátricas. Com isso, o usuário perde sua identidade profissional e pessoal”, explicou.
Ainda segundo a especialista, pessoas com transtornos psiquiátricos precisam ser acompanhadas. “Esse paciente precisa estar em tratamento permanente. Assim será possível ver melhorias significativas em seu comportamento”, concluiu a psicóloga.
A Prefeitura de Niterói informou que, em abril desse ano, encaminhou Wigberto ao Hospital Psiquiátrico de Jurujuba, onde ele recebeu acompanhamento e apresentou grande melhora. Ainda segundo a administração municipal, o paciente aparentava estar calmo, porém fugiu do local, aproveitando-se do portão aberto, no momento em que um veículo entrava na unidade. O contato com a família foi feito não apenas na ocasião, mas também em diversos momentos, porém Wigberto se recusa a voltar ao convívio familiar.