'CV' elege novos 'líderes' para áreas conquistadas em Niterói e agora 'marcha' para o interior
Um traficante com ficha criminal extensa e outro que adora clube de futebol do Rio, estão, segundo a polícia, na 'linha de frente' de comunidades entre o Fonseca e Riodades. No interior, facção agora 'luta' contra milícia e tenta expansão

A nova 'geografia' da criminalidade em Niterói, São Gonçalo e Itaboraí vai muito além de uma simples disputa entre facções criminosas. Levantamentos feitos por setores de inteligência da polícia mostram que a silenciosa movimentação dos principais 'chefões' do Comando Vermelho contra os inimigos do Terceiro Comando Puro (TCP) é motivada por interesses financeiros para manter os 'negócios' e também 'blindar' os territórios conquistados das ameaças cada vez mais constantes de grupos milicianos, concentrada hoje na capital e na Baixada Fluminense. Os setores de inteligência também já identificaram outro movimento da facção rumo a outras cidades da região, como uma espécie de 'marcha para o interior'.
Os conflitos entre quadrilhas de traficantes e a movimentação em diferentes comunidades do interior fluminense, em São Gonçalo e na antiga capital do Estado do Rio foram noticiados por o SÃO GONÇALO em várias reportagens desde o fim do ano passado, quando os traficantes do Complexo do Salgueiro montaram uma espécie de 'consórcio', com apoio de grupos de outras comunidades e até de criminosos da facção que agem no Nordeste brasileiro, grupo que tem apelido de Bonde do Lampião.
Esse plano, liderado, segundo a polícia, por Antônio Ilário Ferreira,o Rabicó, ou Coroa, do Complexo do Salgueiro, com 'aval' dos traficantes mais antigos do CV, que estão encarcerados em presídios, culminou com a expulsão do TCP das comunidades do complexo da Alma, e da Vila Candoza, entre os bairros Almerinda, do Coelho e do Jóquei. Esse conflito, segundo levantamentos da polícia, seria motivado também por um sentimento de vingança de Rabicó pelo fato de o traficante André Luiz dos Santos Afonso, o Pai, que foi expulso desses locais com outros colaboradores, ter articulado a ida de Thomas Jayson Vieira Gomes, o 3N para o TCP, em abril de 2019.
Na época, Thomas Jayson, insatisfeito com a forma como o então 'chefe' Rabicó, ainda dentro da cadeia, administrava os 'negócios' no Salgueiro, decidiu abandonar o CV, e abrir uma 'frente' junto a outras lideranças do TCP em São Gonçalo e no Rio, para tentar conseguir comunidades em SG para os novos 'sócios'. Pesou também na decisão o fato de Thomas Jayson, quando 'pulou' de facção, ter assassinado Schumaker, Antonácio do Rosário, do Jardim Catarina, junto com seus principais colaboradores, e também ter levado todo os fuzis, drogas e cerca de R$ 1 milhão, dinheiro da 'contabilidade do crime' no Salgueiro. Seis meses depois, no fim de outubro de 2019, 3N acabou morto, junto com seus principais colaboradores, durante uma operação entre policiais civis e militares no sítio em que se escondia, no bairro de Cabuçu, em Itaboraí.
Interior - Paralelamente às ações expansionistas em São Gonçalo, a polícia registrou também a migração de grupos de traficantes do CV para outras cidades da região, como em Itaboraí, onde no mês passado, os criminosos da facção voltaram ao bairro de Visconde', apenas algumas horas após a prisão de seis acusados de integrar o grupo miliciano que agia no local. No interior, segundo levantamentos da polícia, a principal disputa que envolve a facção atualmente é nessa região, onde os traficantes tentam se livrar dos grupos paramilitares.
A polícia militar já prendeu traficantes de São Gonçalo ligados ao CV também em Tanguá, Rio Bonito, outras cidades da Região Metropolitana, e também Cantagalo, na Região Serrana do Estado do Rio.
Niterói - Investigações da 78ªDP (Fonseca) apontam que na Zona Norte de Niterói, os traficantes da facção Terceiro Comando Puro desistiram da disputa com o CV e abandonaram as comunidades da Coronel Leôncio, Coréia, Santo Cristo, do Pimba e da Palmeira, entre o Fonseca e a Riodades, sendo as três últimas que estavam ainda em disputa territorial. Investigações da Polícia apontam que traficantes das comunidades de Acari, financiadores da 'guerra', acabaram desistindo, após seguidas prisões e apreensões de armas em operações das forças de segurança pública do Estado. Pesou também o fato de o CV ter ficado, desde o início do conflito, em vantagem por já estar estabelecido em áreas vizinhas aos territórios visados, como a Vila Ipiranga, no 'coração' do Fonseca, e a Nova Brasília, na Engenhoca.
Novos 'gestores' - Com a consolidação das ocupações em Niterói, foram escolhidas novas lideranças para 'gerir' as comunidades da Zona Norte em Niterói. Carlos Vinicius Lírio da Silva, o Cabeça ou Romário, oriundo do Morro da Ilha da conceição (MIC), teria sido escolhido para gerenciar a venda de drogas nas comunidades recém ocupadas, mesmo preso. A ficha criminal de Cabeça é extensa, e segundo investigações, ele teria migrado para o CV após ficar vários anos na facção Amigos dos Amigos (ADA). Ele também já teria participado do tráfico, como integrante da ADA em grupos que agiam na comunidade do Sabão, em São Lourenço, e até em outras áreas de SG.
A 'partilha' de áreas em Niterói também teria a participação de um traficante identificado como Fluminense, atual líder do tráfico de drogas na Nova Brasília. Torcedor fanático do tradicional clube carioca, ele sempre exalta o Tricolor, seja em desenhos em muros daquela comunidade ou nas embalagens das drogas que são vendidas.
TCP - As ações da polícia acabaram levando também o traficante Thiago Folly, o TH, apontado como líder da venda de drogas de onze comunidades do Complexo da Maré, a desistir de apoiar os 'amigos' de Acari na estratégia de abrir uma nova 'frente' contra o CV em Niterói. Além de Pai, outros traficantes do TCP estariam refugiados na Maré, situada na Zona Portuária do Rio.