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"Ele acabou com a vida da minha filha e tirou um pedaço de mim", diz mãe de mulher assassinada pelo marido, PM do 7ºBPM

Crime aconteceu em setembro de 2020

relogio min de leitura | Escrito por Renata Sena | 04 de março de 2021 - 15:41
Priscila foi assassinado com um tiro no peito. Crime foi visto pelos seus filhos
Priscila foi assassinado com um tiro no peito. Crime foi visto pelos seus filhos -

"Fica, minha filha. Aproveita porque a vida é muito curta". Disse Valéria Vieira da Veiga, de 55 anos, um mês antes de ver a filha ser executada com um tiro no peito, na frente de casa, no Bairro Zé Garoto, em São Gonçalo. 

Vítima de feminicídio, Priscila da Veiga Freitas, de 31 anos, foi morta pelo marido, na frente dos filhos. Valéria e seu marido também foram alvos da fúria do policial militar Leandro Alves de Siqueira, que efetuou cinco tiros contra a sogra e três contra o sogro, além do tiro fatal no peito da esposa, com quem dividiu a vida por quase quatro anos e tinham, juntos, um filho de dois anos. 

Considerada uma mulher que gostava de aproveitar a vida, Priscila dividia os dias entre as responsabilidades de criar seus quatro filhos, com idades entre 2 e 13 anos, e fazer coisas que despertavam seu prazer, como sair para dançar. 

Mesmo tendo um relacionamento marcado pelo ciúme excessivo, a família de Priscila afirma que publicamente o casal nunca demonstrou que o casamento pudesse terminar de forma trágica. 

"A gente não sabe o que passava dentro de casa com eles. Mas ela nunca relatou nada de agressão ou de ameaça. Eles brigavam e discutiam, mas nunca imaginei que ele fosse capaz de fazer uma coisa dessa", disse Valéria. 

O crime ocorreu na madrugada do dia 23 de setembro de 2020. O casal havia deixado os três filhos mais velhos da Priscila com uma amiga da família e saíram para curtir o final da noite de feriado em São Gonçalo. 

De acordo com testemunhas, os dois saíram bem e não demonstravam nenhum sinal de desentendimento. Até que, por volta de uma da manhã, Valéria e seu esposo escutaram gritos. 

"Eu estava no meio do corredor de casa e corri até o portão. Ela veio até a mim e estava com a orelha sangrando e falando que queria ir a polícia. Ele (o marido) veio atrás e os dois se agrediram. Nesse momento, como já estávamos no portão de casa, eu consegui colocar as crianças para dentro e puxei o portão", relembrou Valéria. 

Já perto do carro da mãe, Priscila foi surpreendida pelo marido sacando a arma de dentro de seu carro. 

"Ele pegou a arma no carro e em fração de segundos virou atirando. Não tivemos tempo de nada. Ele me deu três tiros e eu caí", contou. 

Após atirar na sogra, Leandro deu um tiro no carro e outro no peito da esposa. Priscila caiu morta na hora, com os pés virados para a mãe, que levou mais dois tiros enquanto estava no chão. 

"Quando ele atirou em mim de novo meu marido veio na minha direção. Ele tentou me proteger e ele (Leandro) falou que ia dar nele também. E aí deu três tiros no meu marido", explicou Valéria, que ao longo da entrevista evitou falar o nome do ex- genro. 

Depois de atirar em todos, o cabo da Polícia Militar, lotado então no 7° BPM (São Gonçalo) efetuou um tiro contra a própria barriga. 

As crianças, que estavam protegidas dentro de casa, assistiram o assassinato da mãe ao vivo, através do circuito de câmeras de segurança da residência. Ao verem a tragédia, os três saíram e viram a mãe morta e os avós baleados. 

Mesmo muito ferido, o marido de Valéria, Marcelo de Almeida, de 42 anos, conseguiu ligar pedindo ajuda. Ele perdeu muito sangue e foi socorrido às pressas por um familiar para o Pronto Socorro Central de São Gonçalo.  

Valéria foi socorrida pelos bombeiros e encaminhada para o Hospital Estadual Alberto Torres, no Colubandê. Ela precisou dividir a ambulância com o homem que assassinou sua filha. 

"Eu ainda não tinha certeza que a Priscila estava morta. Até que uma vizinha, que viu a Priscila crescer, chegou gritando que ele tinha matado nossa menina. Ainda assim, a esperança foi a última a morrer, até que eu ouvi que tinha um óbito. E aí eu sabia que a morta era ela", relembrou emocionada a motorista de aplicativo. 

Valéria ficou três dias em estado gravíssimo. Passou por duas cirurgias e foi considerada um milagre dentro do hospital. Após 25 dias de internação, ela hoje convive com muitas cicatrizes e uma pequena sequela na região mamária. 

"Isso não é nada. Eu tive medo de não sobreviver, depois o medo era não andar mais. Essas dores e a sequela são o de menos. No hospital, eu pedi para o  médico me salvar porque eu tenho quatro netos e preciso ajudar a cuidar deles". 

Valéria não pôde enterrar a filha e a dor da perda parece estar longe de cicatrizar. 

"Eu tinha uma casa cheia. Ela era minha vizinha. Então estava sempre por aqui, com as quatro crianças. Saí de casa, quase morri e voltei para uma casa vazia. Dói, mas eu aprendi a enfrentar a dor e somos guerreiros. Meus netos precisam de mim", disse a mulher, que atualmente tem a guarda provisória do neto caçula, único filho do policial com a Priscila. 

Ajuda

Valéria aceitou a dar a entrevista com uma importante missão pessoal: conscientizar o próximo. 

"Eu aceitei falar com você pois eu não quero que outras mães passem pelo que passei. Se você, jovem, está passando por uma relação agressiva, peça ajuda. Fale com alguém que possa te ajudar. Nunca duvide do que um homem possa fazer. Ele acabou com a vida da minha filha e tirou um pedaço de mim. Não sei se alguém poderia ter ajudado e impedido isso de acontecer. Eu nunca soube de nada, se aconteciam ameaças ela me escondia, então se você tiver passando por isso, não esconda de ninguém. Busque ajuda para que o pior seja evitado", pediu Valéria. 

Leandro foi preso em flagrante pelos crimes de homicídio e tentativa de homicídio. Atualmente eles está no Batalhão Prisional da PM. 

 A Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar informou que o referido policial militar está na Corporação há oito anos. Ele está preso à disposição da Justiça na Unidade Prisional da PMERJ. Ele responde a Inquérito Policial Militar.

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